#CSH – Palestra sobre transnação no Candomblé finalizou o ciclo de debates do ano

01/11/2017
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Foto: Amanda Moreno

Encerrando o ciclo de palestras de 2017, o Conversando com a sua História – de autoria do Centro de Memória da Bahia – recebeu o historiador e doutor em Antropologia, Marlon Marcos Vieira Passos, na terça-feira (31/10). Na ocasião ele dissertou sobre o tema “Iyá Zulmira de Zumbá: uma trajetória entre Nações de Candomblé”.

O historiador explicou que o trabalho tem um aspecto político: “queria exaltar o congo-angola e evidenciar essa questão vibrante que é a trajetória profunda dessa mulher semianalfabeta que teve que lutar e se superar para chegar onde chegou”. Iniciada aos sete anos em 1940 por Marieta Beuí, da nação congo-angola, Zulmira assumiu o cargo de Néngua aos 17 anos e passou por muitas lutas internas e externas para se manter no cargo.

O historiador abordou o entrecruzamento de nações e nega a pureza ritual: “na minha casa tem angola, congo, ketu e jeje. Se elas estão ali, é porque passaram por processos transformativos, que são mudanças fundamentais para entendermos que nunca houve pureza no candomblé brasileiro”.

Marlon também destacou que o candomblé não pode ser purista porque aglutinou não só etnias de matriz africana, mas também religiões de outras vertentes como o espiritismo e o catolicismo, e deixou o questionamento: “Será que no candomblé, religião eminentemente brasileira, houve encontros de nações ou essas nações nunca se desencontraram?”.

Ele mesmo respondeu: “se não um encontro, um entrecruzamento de nações, e chamo isso de transnação, que seria a perfilação de várias religiões que se encontram para formar uma experiência dentro de uma mesma casa. A transnação serve para a gente entender que as águas viram o tempo inteiro. A nossa religião é de encontros”.

Após a palestra, o debate foi aberto. O primeiro a falar foi o estudante Douglas Dias, que se posicionou: “já vi pessoas de outras religiões, como espiritismo, falarem que o candomblé é o ‘espiritismo não evoluído’, eu vejo como uma forma de silenciamento por ser uma religião negra”. Já a pesquisadora Hildália Fernandes, questionou as dificuldades e potencialidades que Marlon encontrou ao estudar a sua própria casa.

Marcos José, frequentador assíduo do CSH, disse que “o que me angustia no candomblé é que ele se protege do próprio candomblé. Acho que o que falta é o próprio irmão se reconhecer como irmão das outras Casas”.

O palestrante finalizou: “nesse trabalho suscito o mais vibrante aqui, a alegria e o silêncio. A alegria de falar sobre a trajetória dessa mulher fantástica e da transnação e o silêncio que deve ser dado aos que desrespeitam a nossa religião”.

CMB - O Centro de Memória da Bahia (CMB), unidade da Fundação Pedro Calmon/Secretaria de Cultura do Estado (FPC/SecultBA), tem como objetivo a difusão da história da Bahia, através da preservação e ordenação de arquivos privados e personalidades públicas, bem como a realização de exposições, seminários e cursos de formação gratuitos. Entre suas funções, é responsável pelo Memorial dos Governadores Republicanos da Bahia (MGRB), localizado no Palácio Rio Branco, no Centro Histórico de Salvador.

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