"Por menos que conte a história /
não te esqueço meu povo /
se Palmares não vive mais /
faremos Palmares de novo"
José Carlos Limeira
Os versos do poeta José Carlos Limeira, que abre esta escrita, tornou-se um hino em celebração ao mês da consciência negra, um marco/poético e histórico de luta, resistência e disputa pelo direito à memória e a história da população negra nos mais diferentes aspectos da vida; cultural, econômica, social, politico, educacional, amoroso, reprodutivo, intelectual etc.
No compromisso de reconhecer e erradicar as disparidades raciais contidas na conformação da sociedade brasileira, em especial no que tange a nossa formação educacional, que perpassa diretamente o acesso à cultura, a Lei 10. 639/2003 versa sobre o ensino de História e cultura africana e afro-brasileira é, em partes, a tentativa e o reconhecimento pelo Estado Brasileiro dessa imensa dívida histórica com o povo negro.
A épica História de Palmares e todos/as os homens, mulheres e crianças palmarinos, a luta por liberdade travada há mais de 400 anos simbolizada no dia 20 de Novembro, tornou-se ao longo dos anos, e até os dias de hoje, uma fonte de inspiração criativa para músicos, compositores, maestros, poetas, escritores, atores, educadores, movimentos sociais, cineastas e todos aqueles que lutaram e continuam labutando por uma sociedade mais justa, humana e digna que consideram a cultura, a história e a memória a espinha dorsal na construção de espaços de liberdade, igualdade e dignidade humana.
Elisa Lucina traduz em seus versos potentes um bocado desse sentimento;
"Eu canto aos Palmares
sem inveja de Virgílio, de Homero e de Camões
porque o meu canto é o grito de uma raça
em plena luta pela liberdade!"
A constituição da noção de cidadania, dignidade, autoestima, identidade, pertencimento está intrinsicamente ligada com o acesso à educação e à cultura, de tal maneira, que a Fundação Pedro Calmon, através do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas do Estado da Bahia, vem há anos desenvolvendo múltiplas atividades interligadas com a programação do Novembro Negro promovido pelo Governo do Estado.
São ações desenvolvidas em todas as bibliotecas que fazem parte do Sistema: Palestra, oficinas, mesas redondas, lançamentos e publicação de livros, batalha de rima, saraus, conversa/ bate papo e debates no campo de raça, gênero, livro, leitura, formação de leitores infanto-juvenil, cinema, teatro, música.
Compreender e fazer das bibliotecas uma instituição comprometida com a informação e com as demandas do presente, porém disseminado a memória, o passado, através da leitura e do livro, nos seus mais diferentes formatos e arranjos, como algo libertador, vivo, humano e carregado de significado é entender a cultura como elemento ordinário, necessário, acessível que reduz as desigualdades, sejam elas de quais ordem forem. Não é o papel da cultura oprimir, pelo contrário, é seu papel forjar as ferramentas para os caminhos diversos rumo a dias melhores.
Um povo que não conhece sua história ou é vetado/impedido a conhecê-la, está fadado ao fracasso enquanto uma sociedade que preze e defenda a cidadania e a diversidade, caminhará rumo à barbárie, azeitando a máquina feroz do racismo, permitindo que finque “raízes” e dê seus frutos macabros, humilhantes, violentos e desumanos na saga de tentar retirar o mais belos da vida; A LIBERDADE EM VIVER.
Que as palavras da Poetisa Lívia Natalia nos sirva de acalanto e combustível:
"Sou uma árvore negra de raiz nodosa.
Sou um rio de profundidade limosa e calma.
Sou a seta e seu alcance antes do grito.
E mais o fogo, o sal das águas, a tempestade"
Seguiremos recriando Palmares, como disse o Poeta Limeira noutro verso;
"se Palmares ainda vivesse
em Palmares queria viver"
De muitas maneiras, cada um ao seu tom, forma e sabor fizeram Palmares viver, reviver e resistir cotidianamente em nossos corações. Palmares Vive!
Poema Citados do texto - em ordem de citação.
José Carlos Limeira- Memórias I
Asé- Lívia Natália
Carmen Azevedo
Diretora da DIBIP