#CSH - Luta armada em Salvador durante a Ditadura foi tema de debate

16/08/2016
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Aspectos da resistência armada na capital baiana, a partir da análise das organizações de esquerda armada urbana, foi tema de debate no Conversando com a sua História, que este mês segue com a programação Especial sobre a Ditadura Militar na Bahia. De iniciativa do Centro de Memória da Bahia – unidade vinculada à Fundação Pedro Calmon/ SecultBA, na segunda-feira (15), o projeto recebeu a historiadora Sandra Regina Barbosa que discorreu sobre o tema  “Ousar lutar, ousar vencer: história da luta armada em Salvador (1969-1971)”, fruto de pesquisa de dissertação da autora que se transformou em livro.

A doutora em História pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), que atualmente investiga a ditadura militar com ênfase nos depoimentos das Comissões da Verdade e fontes do Serviço Nacional de Informações (SNI) do Arquivo Nacional, Sandra Regina Barbosa, falou sobre o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares) e o Partido Comunista Revolucionário Brasileiro (PCBR), do ponto de vista de sua formação, estrutura e atividades.

“Meu objetivo foi compreender como aconteceu a resistência armada em Salvador. Estudei a estrutura e o funcionamento das organizações, com foco em Salvador, Feira de Santana e Jequié. Comecei estudando a atividade estudantil no Colégio Central e percebi a passagem de alguns estudantes da militância político-social para entrada na clandestinidade. Posteriormente, a maioria dos líderes estudantis vai atuar na luta armada”, disse a historiadora.

Sandra Regina falou como essas organizações se sustentavam e suas principais ações: “elas sobreviviam de colaboração de simpatizantes, geralmente em anonimato, que cediam dinheiro, carros, apartamentos, além do auxílio da direção nacional. Já as atividades incluíam reuniões diversas, recrutamento, panfletagem, pichações e expropriações”. Para facilitar a comunicação, as organizações produziam periódicos para serem distribuídos entre os membros, populações de classe média, bairros populares da capital e em cidades do interior. O MR-8 tinha os periódicos ‘Bandeira Vermelha’, ‘Venceremos’ e ‘Avante’; já o PCBR tinha o ‘Resistência Estudantil’, ‘Luta Operária’ e ‘Luta Camponesa’.

De acordo com a historiadora, os membros dessas organizações de esquerda viviam em clandestinidade. Havia o desejo constante de esconder informações e as pessoas se conheciam por codinomes para preservar a sua vida, de seus amigos e familiares. Os encontros exigiam códigos, autocensura e gírias para disfarçar dos militares. “Nesse contexto, havia muita dificuldade de ação política. Nas ‘quedas’, que era quando membros iam presos, o regime militar torturava a militância e tentava desestruturar o movimento. A chamada ““estanquização”” não mais funcionava, pois os oficiais iam conseguindo informações em interrogatórios sob tortura para desarticular as organizações. Muitos foram presos, torturados e exilados”, disse Sandra Regina.

“É importante conhecer todos os lados do período histórico. Entender o que de fato aconteceu aqui na Bahia e como as organizações armadas de esquerda se estruturavam, é importantíssimo para se conhecer os movimentos que foram vitais para a queda do regime militar no país”, disse o professor Marcos Veiga. Já a estudante Márcia Neves destacou que “esse é um tema que ainda foi pouco estudado, principalmente fora do sudeste no país. Essas lacunas na história precisam ser preenchidas e debates como esses são importantes para tal”.

Projeto O próximo Conversando com a sua História será segunda-feira (22) será com o historiador Maurício Brito, que falará sobre “Movimento estudantil, golpe de 1964 e ditadura militar no Brasil”. 

Fotos: Laísa Costa

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