Terreiro do Bate Folha comemora cem anos com programação cultural

05/12/2016
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Comemorando cem anos, o Terreiro do Bate Folha, no bairro da Mata Escura, em Salvador, preparou uma intensa programação para este sábado (3) e domingo (4). E, como todo aniversariante, a comunidade religiosa também foi presenteada, com a assinatura de um convênio com o Governo do Estado, por meio da Fundação Pedro Calmon (FPC), para a construção do Memorial Terreiro do Bate Folha. Os festejos já começaram na manhã deste sábado e, até o final da comemoração, mais de 200 pessoas devem passar pelo local e participar das atividades.

Com apoio da FPC, vinculada à Secretaria de Cultura do Estado (Secult), nos dois dias de festa serão realizadas apresentações culturais de teatro, dança, música, poesia, além de exibição de documentário, feira de artesanato e uma exposição fotográfica. Tudo planejado para contar a história centenária da casa e para proteger não só a memória do lugar, mas principalmente o legado da religião do culto afro-brasileiro de Nação Congo-Angola na Bahia.

Para o Pai Cícero Lima, o Tata Muguanxi, responsável pelo terreiro, comemorar cem anos é também relembrar a resistência de um povo de fé e que abraça todas as etnias. “Imagine, cem anos atrás, um negro comprar uma área de 155 mil metros quadrados, dedicar ao candomblé e fazer o registro público? Então essa celebração é também uma lembrança da resistência do povo negro, dos mais velhos desta casa, que durante esse tempo inteiro resistiu e passou adiante esses ensinamentos. É uma luta que começou com os negros e agora é de todos, uma prova disso é a representação da minha figura, um homem branco, que, depois desses cem anos de fundação, vem tomar conta da casa. Uma prova que a nossa religião é africana e começou com o povo negro, mas não tem preconceito, não tem barreiras, não tem cor”, destacou Pai Cícero.

Memorial - Para preservar essa memória e o passado centenário do Bate Folha, será construído um memorial, no terreno da casa religiosa. Na estrutura estará reunido um acervo de entrevistas, documentário, documentos, fotografias e materiais que remontam a trajetória do terreiro que, além de ser uma referência religiosa, é também tombado como Patrimônio Histórico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e é uma área de preservação ambiental, pela reserva de Mata Atlântica que possui.

Para o diretor geral da Fundação Pedro Calmon, Zulu Araújo, um dos objetivos das políticas públicas voltadas para os terreiros tem sido contar a história desses locais, como parte da diversidade cultural e religiosa baiana, e parte da história da Bahia. “Esses espaços foram vítimas, ao longo da história, de uma perseguição e uma discriminação inominável e cabe à Fundação fazer o registro dessa memória, ouvindo os sacerdotes e todos que são adeptos da religião do candomblé. Nesse memorial dialogaremos com o passado por meio do presente. Vamos digitalizar toda a documentação existente, elaborar um projeto arquitetônico, além de uma curadoria para exposição”, contou Araújo.

Exposição fotográfica e documentário - Durante a programação, estudantes da Agência de Comunicação e Cultura da Universidade Federal da Bahia (Ufba) exibiram o documentário ‘Bate Folha, Manso Banduquenqué’, em comemoração ao centenário. Para a estudante Mariana Gomes, essa foi uma oportunidade única. “Como estudante, essa foi uma experiência muito enriquecedora por ter contato com a produção audiovisual e, pessoalmente, conhecer um terreiro que foi tão importante para a história de Salvador. Também é um momento de reencontro, já que na minha família há influência do sincretismo com as religiões de matrizes africanas, mas que muito disso foi se perdendo com o tempo”, contou Mariana, aluna de jornalismo.

Além das atividades, uma exposição fotográfica deu mais colorido à festa com os registros sensíveis da fotógrafa Marisa Vianna, que é amiga da comunidade religiosa e capturou, durante cerca de três anos, momentos das celebrações, da vivência dos filhos da casa, da área verde e pôde exibir o material na exposição que ficará acessível ao público no Terreiro Bate Folha até o dia 18 deste mês. Depois, percorrerá algumas galerias públicas, para promover o centenário.

Repórter: Anna Larissa Falcão

Foto: Mateus Pereira/GOVBA

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