Além da qualidade técnica dos textos, uma das maiores surpresas dos textos escritos pelos jovens no III Concurso de Escritores Escolares foi a abordagem de pautas contemporâneas da sociedade, revelando a atenção ao cunho social e instigando grandes reflexões. O concurso premiou textos que falaram sobre a diferentes formas violência como, contra a natureza, a mulher, o negro, o homossexual e transexual, além do bullying e do desrespeito ao próximo.
Todos os textos premiados podem ser conferidos de perto no foyer do Teatro Castro Alves, na Exposição dos Escritores Escolares. O horário de visitação da exposição é das 12h às 18h, de domingo a domingo, com acesso gratuito, até o dia 8 de janeiro de 2017. A Exposição apresenta os 24 textos premiados nas categorias redação e poesia, no Ensino Fundamental I e II e no Médio.
A temática do Concurso foi de livre e o que impressiona ao público, são as questões levantadas e a olha ao qual foram pautados, com posições progressistas e em defesa dos direitos humanos. O Concurso, realizado pela Diretoria do Livro e da Leitura (DLL) - vinculada à Fundação Pedro Calmon/ SecultBA, é direcionado para alunos de Ensino Fundamental I e II, e Médio, de escolas públicas e particulares de todo o estado.
Com temática sobre as ações humanas nocivas aos animais e ao meio ambiente, Guilherme de Santana, 10 anos, levou o primeiro lugar na categoria Fundamental I, com a poesia “Vi e não vi”:
Agora, o absurdo da questão,
o homem destrói matas, safáris e toda criação
Faz bolsa de jacaré, casaco de leão,
e ainda diz que ele tem a solução
#só que não.
Abordando questões como intolerância religiosa e o descontentamento com a falta de estudos sobre a cultura africana na educação escolar, o estudante Felipe Sacramento de apenas 9 anos foi premiado em terceiro lugar na categoria Redação Fundamental I, como texto “Coisas que eu sinto falta”:
Me questiono porque temos que estudar a história de grandes monarcas europeus se alguns professores não nos ensinam a história dos grandes impérios africanos de maneira correta?
Trazendo a tona reflexões sobre diversas questões da sociedade, como o racismo, machismo e a homofobia, Samuel Shiva, 13, recebeu menção honrosa na categoria Fundamental II com a poesia “Desigualdade”:
Pobre negro,
Nas favelas abandonado;
Pobre branco,
No topo sendo idolatrado;
Pobre homem,
Se sente superior;
Pobre mulher,
Na cozinha inferior.
Gabriel da Silva, 17, por sua vez, levou o primeiro lugar na categoria Redação Ensino Médio, com o texto “Hugo?”, inspirado num curta-metragem, produzido em sua escola, chamado “Vanessa”, que fala sobre uma transexual que se maquia e vive seu cotidiano diante da tela:
Repito com os meus botões quem eu sou, como meu terapeuta me dizia pra fazer: tenho 17 anos, olhos claros, cabelos claros. Mas, quando tento falar meu nome, Hugo sai como Vanessa. Nesse momento, percebo meu eu. Minha alma transcendendo o corpo físico através do espelho. Eu sou verdadeiramente eu. Não sou Hugo. Sou Vanessa.
Intolerância religiosa, desigualdade social, falta de democracia e corrupção nortearam o Helen Amanda Freitas recebeu menção honrosa na categoria Redação Fundamental II, com o texto “Perseguição”:
Não importa sua cultura, sempre terá alguém para te julgar, as ideias não podem se expandir, por causa de pessoas que querem calar a nossa voz. Muitos tem argumentos, mas são reprimidos, ignorados. Não falo apenas de religião, mas também de democracia.
Fotos: Rubia de Oliveira/ Ascom FUNDAC