Dando continuidade ao ciclo de debates sobre a África no Conversando com a sua História, do Centro de Memória da Bahia – unidade vinculada à Fundação Pedro Calmon/ Secretaria de Cultura do Estado, o especialista em estudos da África, Paulo Fernando de Moraes Farias, falou sobre o tema “1964 – 2016: um baiano e 52 anos de pesquisa histórica na África Ocidental e no Saara. A palestra recebeu visitantes ilustres, como o percussionista baiano Gabi Guedes, que tocou quando Paulo subiu ao palco, e o cantor e compositor Arnaldo Antunes.
Na ocasião, Paulo contou que o seu engajamento com a África começou como um ato político. “Eu queria entender o que é a África, no que o continente contribuiu para a formação do Brasil. Havia tendência de pensar contribuição apenas como força de trabalho físico, música, dança e religião. Não havia um pensamento de contribuição intelectual”, disse o professor e pesquisador do Centre of West African Studies da Universidade de Birmingham.
“Na década de 1960 muitos países africanos conquistaram independência, e isso gerou um clima otimista. Quando houve o golpe militar no Brasil, em 1964, eu já tinha programado minha ida a Gana, por meio de um intercâmbio entre a Universidade Federal da Bahia e o Instituto de Estudos Africanos de Gana”, disse o professor que ficou em exílio no país por dois anos. “O governo de Gana havia feito grandes investimentos na educação desde a primária ao ensino superior. Encontrei um país cosmopolita, com bibliotecas fantásticas que, em plena Guerra Fria, reunia intelectuais do mundo inteiro, como Rússia, Estados Unidos, Inglaterra, França, Nigéria”, ele completou.
Paulo contou que, diferente do que se esperava de um brasileiro estudando países africanos, com estudos direcionados aos países relacionados ao Brasil, ele preferiu expandir sua pesquisa para todo o continente. Suas pesquisas resgataram antigas tradições orais e escritas de famílias e grupos guerreiros, como os almorávidas. Segundo o professor, o movimento almorávida surgiu entre grupos guerreiros que costumavam roubar camelos entre eles. A tendência era achar que não se podia esperar daquelas pessoas um movimento de grandes conteúdos ideológicos.
“No entanto, a leitura das fontes dava a impressão de que eles, ao contrário do que se pensava, estavam sintonizados com os debates políticos-ideológicos que ocorriam na época, no século XI, na Andaluzia e ao sul de Portugal, que ainda estavam sob domínio mulçumano. Por conta disso, Lisboa acabou sendo uma cidade almorávida”, disse o especialista. “Há conectividades entre as histórias da África Ocidental, uma grande tradição de mobilidade, intercâmbio de ideias e comércio seculares. A África estava como agente histórico, capaz de intervir na história de países europeus”, ele completou.
Sobre as crônicas escritas em Timbuktu no século 17, o professor mostrou algumas placas durante a palestra e explicou que elas contam um pouco da história africana ocidental. A professora de Literatura Africana da Universidade Estadual da Bahia, Alyxandra Gomes, contou que o professor Paulo Fernando é uma referência para os estudos africanos. “Já conhecia um pouco da trajetória do professor e sei do quanto ele é importante na área”, ela disse. Já Rui Cândido Rodrigues, formado em História, disse que frequenta o Conversando com a sua História há muitos anos: “Não podia deixar de prestigiar um professor que é referência nos estudos africanos”.
Os debates continuam nesta quarta-feira, com o tuareg Mahfouz Ag Adnane, com o tema “A questão Tuaregue (Kel Tamacheque)”, às 17h. Saiba mais.
CMB - O Centro de Memória da Bahia (CMB), unidade da Fundação Pedro Calmon/Secretaria de Cultura do Estado (FPC/SecultBA), tem como objetivo a difusão da história da Bahia, através da preservação e ordenação de arquivos privados e personalidades públicas, bem como a realização de exposições, seminários e cursos de formação gratuitos. Entre suas funções, é responsável pelo Memorial dos Governadores Republicanos da Bahia (MGRB), localizado no Palácio Rio Branco, no Centro Histórico de Salvador.
Fotos: Laísa Costa