A historiadora Daniela Moreau, diretora do Acervo África, e o professor de Antropologia da Universidade Federal da Bahia, Nicolau Páres, falaram sobre as ‘Fotografias de Edmond Fortier em Daomé’ no Conversando com a sua História de sexta-feira (06/05), projeto de iniciativa do Centro de Memória da Bahia – unidade vinculada à Fundação Pedro Calmon/ Secretaria de Cultura do Estado. O debate integra a programação da exposição “Viagem a Timbuktu - Fotografias de Edmond Fortier - Da costa da Guiné às margens do Saara em 1906”, que segue em cartaz na Biblioteca Pública do Estado (Barris) até o dia 22 de junho. Os debates se encerram nesta quarta-feira (11), confira aqui a programação.
Na ocasião, os historiadores apresentaram as fotografias feitas por Fortier e relataram sua história, quando percorreu a costa atlântica, entre Dakar no Senegal, e Lagos na atual Nigéria. Dessa época, datam quatro séries fotográficas, cerca de cem imagens, que retratam a então colônia francesa do Daomé, hoje República do Benin. “As imagens foram gravadas em uma viagem em que o fotógrafo acompanhou um ministro francês desde o litoral até a capital do Reino de Daomé, Abomey, onde se concentrava o centro político do Reino, e a religião era quase de domínio político. Eles também passaram por outras cidades como Savalou e Sakété”, explicou Nicolau.
A comitiva do ministro estava visitando a realização da obra da via ferroviária da região. “Vale ressaltar que o investimento da linha férrea vinha dos próprios africanos por meio de impostos pagos à colônia. Estava definido que a França não iria gastar dinheiro com as colônias”, disse Daniela, que também é pesquisadora e curadora da exposição. Ela explicou a primeira fase do projeto, quando reuniu o material que estava espalhado ao redor do mundo, datou, organizou e identificou as imagens. “A ideia é contar um pouco da história da África através dos cartões postais”, disse ela, que realiza viagens ao continente desde 1995. “Trabalhar com imagens demanda bastante senso crítico, porque a imagem foi feita por alguém para representar algo. Encontramos fotografias que foram alteradas com o passar do tempo. As imagens precisavam ser ‘exóticas’ para que fossem vendidas como cartões postais”, disse a historiadora.
Na ocasião, Nicolau destacou que os cartões postais eram vendidos numa região onde desembarcavam muitos africanos para serem escravizados na América, especialmente no Brasil, na Bahia. “Daomé tem o formato vertical, assim como outros países africanos ocidentais, o que facilitava a penetração no interior do continente, além da comunicação e construção de ferrovias”, explicou o historiador.
O professor Nicolau explicou que através de um conceito de fetichismo, os europeus colocaram uma espécie de lupa sobre o continente africano. “Em Uidá (Ouidah) havia um porto famoso, um local muito cosmopolita com pessoas de diversos grupos africanos e de diversas nações europeias. Na região havia diversas manifestações religiosas voduns, que aconteciam em praça pública. A maior parte das fotografias é de cultos dessa religião”, disse Nicolau. Nicolau também explicou que haviam diversos grupos de voduns. “Havia apropriação dos cultos voduns, que eram associados à realeza e, geralmente, utilizavam bengalas e espadas. Já os voduns reais, geralmente utilizavam colares circulares e contreguns”, disse ele. No bate-papo, os historiadores expuseram diversas imagens da expedição, explicaram certos aspectos como o das vestimentas e penteados, que diferenciam os povos.
O estudante de História, Leandro Reis, disse que foi conferir a exposição de Fortier na Biblioteca, e aproveitou para ficar para a roda de conversa. “É interessante porque as atividades se integram. Eu vim ver a exposição, e acabei ficando para o debate que explica uma parte da história da coleção”, ele disse. Já a historiadora Vanessa Andrade, disse que se interessa muito pelas fotografias: “Essas imagens são verdadeiras relíquias históricas, e ajuda a contar a história daquela região”.
Fotos: Laísa Costa