Incrementando o cardápio das atividades sobre a África, a Fundação Pedro Calmon (FPC) exibiu nesta terça-feira (10), dois filmes que retratam seus aspectos sociais, culturais e político. A sessão dupla de cinema aconteceu na Sala Walter da Silveira (Barris), em parceria com a Diretoria de Audiovisual da Bahia, (DIMAS). Na ocasião, os mestres em História Social pela Universidade Federal da Bahia, Carlos da Silva Jr e em História Social da África Contemporânea, pela Universidade do Cairo e em História, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Mahfouz Ag Adnane, debateram sobre o tema central dos filmes.
O primeiro filme foi Identidades da Grande Senegâmbia e Além: abordagens interdisciplinares através da História e da Música em Diálogo (Identities in Greater Senegambia and Beyond: Interdisciplinary Approaches Through History and Music in Dialogue), com direção Anna de Mutiis. O filme retrata um evento acadêmico-musical ocorrido na Inglaterra em junho de 2015, que reuniu músicos famosos da Guiné-Bissau, Mali, Senegal, Guiné-Conakry, e historiadores importantes como Boubacar Barry e Jose Lingna Nafafe.
O média-metragem, que rodou com apoio da Cinemateca da embaixada da França no Rio de Janeiro, trata de identidades e maneiras de pensar história e culturas na África do passado e do presente. “A mostra de ambos os filmes é muito importante porque proporciona acesso ao cinema de outras áreas cinematográficas, que foge do eixo central hollywoodiano e europeu. Isso dá espaço para outras realidades e outros mundos cinematográficos, além de apresentar ao público culturas totalmente diferente”, disse o mestre em História Social, Carlos da Silva Júnior.
Ainda sobre o assunto, Carlos da Silva Júnior completou que “Foi uma oportunidade do público também perceber como os cineastas se reportam a pontos relacionados a cultura, religião, música e política de diferentes países da África, isso traz uma perspectiva nova sobre esses locais”, reforça Carlos, que completou que “temos duas grandes contribuições: conhecer a produção audiovisual de países que não estamos acostumados e conhecer a cultura desses países”.
Outro filme exibido foi Keita! A herança do Griot ( Keïta! l'Héritage du Griot, Burkina Fasso, 1995). No longa, o velho griô Djeliba deixa sua aldeia no interior e se instala na residência da família de classe média moderna para realizar a missão de iniciação do menino Mabo, cuja origem remonta a Sundiata Keita, o fundador do Império de Mandinga. Mas as diferenças entre a memória preservada pela oralidade e a história ensinada a Mabo na escola geram um clima de tensão entre o valor da tradição e as exigências da sociedade africana moderna. O foco da tensão é a divergência entre o conhecimento histórico ensinado na escola e a memória história preservada pelos tradicionalistas.
“O filme sobre a família imperial Keita traz as tradições do mundo Mandingue, com a tradição de castas dentro de uma sociedade. Os griôs são os metres das palavras, responsáveis por passar conhecimento para as futuras gerações”, disse o mestre em História Social, Mahfouz Ag Adnane. “No filme, o griô Djeliba é responsável por toda a história, árvore genealógica, acontecimentos importantes sobre a família imperial Keita, e tem de passar esse conhecimento ao Mabu. Pudemos perceber a transição entre a tradição e a modernidade. É importante ressaltar que não é a pessoa que escolhe o conhecimento que vai receber, é algo espiritual, é o conhecimento quem escolhe a pessoa, como acontece no Candomblé e a relação das pessoas com os orixás”, disse Mahfouz.