O descontentamento com a falta de estudos sobre a cultura africana na educação escolar, norteou a redação do estudante Felipe Sacramento de apenas 9 anos. Ele ganhou o terceiro lugar na categoria Redação Ensino Fundamental I, do III Concurso dos Escritores Escolares. O Concurso é realizado pela Fundação Pedro Calmon/SecultBA há três anos e, desta vez, contou com mais de 582 inscrições.
Em seu texto, Felipe aborda questões como intolerância religiosa e faz citações de livros que influenciaram na sua escolha temática. “A intolerância religiosa é pouco discutida na escola, assim como a ancestralidade, que quase não se fala”, explicou Felipe, que cursa o quarto ano na Escola Professor Bernardino Moreira, em Salvador.
“Me questiono porque temos que estudar a história de grandes monarcas europeus se alguns professores não nos ensinam a história dos grandes impérios africanos de maneira correta?”
A mãe de Felipe, Roberta Nascimento, destaca que desde cedo o garoto gosta de ler e tem uma forte relação com sua ancestralidade africana: “Ele foi para creche com cinco meses de idade, e desde então começou a criar uma relação com a leitura. Ele gosta de coisas aprofundadas, lê livros de adultos. Eu desenvolvo pesquisa sobre comunidades quilombolas e ele sempre pega meus livros e textos para ler. Isso influencia ele acerca dessa temática”.
Suspense e aventura são os gêneros literários preferidos de Felipe
Na escrita, ele prefere redações e contos. “Eu recebo muita influência da minha família. Quando soube do resultado fiquei muito feliz, não esperava. Assim que cheguei na escola, a professora disse ‘todo mundo bate palmas para Felipe porque ele ganhou o concurso dos escritores escolares”, conta Felipe.
Coisas que eu sinto falta
Eu sinto falta de diversas coisas.
Às vezes eu sinto falta de coisas bem esquisitas. Mas a principal coisa que eu sinto falta é a cultura africana na minha educação escolar. Às vezes eu sento no meu sofá e reflito sobre a história de meus antepassados, e imagino como essas histórias estão se perdendo nas escolas.
Na maioria das escolas existem projetos de conteúdo católico e evangélico. Mas é quase impossível encontrar escolas que trabalham com projetos de conteúdo de matriz africana. Somente sei de uma escola que trabalha esse tema. Que é a da professora Vanda Machado que conheci na Flica – Feira Literária de Cachoeira em 2015, onde participei de uma roda de contação de história. Até ganhei um autografo no livro que ela escreveu – Pele da Cor da Noite.
Às vezes me sinto sozinho... Parece que só eu em 29 alunos em uma sala pensa assim. Pois tenho colegas que não se preocupam com esses assuntos. Eu tenho um colega que acha cultura africana um lixo, eu não culpo ele.
Procuro entender que talvez ele não tenha uma influência em casa, assim como minha mãe me influência a ler os livros de PJ Pereira – Deuses de dois mundos.
Me questiono, porque temos que estudar a história de grandes monarcas europeus se alguns professores não nos ensinam a história dos grandes impérios africanos de maneira correta?
Foto: Acervo Pessoal