Duas potências culturais e históricas estiveram em debate no Conversando com a sua História ocorrido ontem (7), na Biblioteca Pública do Estado da Bahia. O Centro Histórico de Salvador e o Olodum foram os destaques do projeto de iniciativa do Centro de Memória da Bahia - unidade vinculada à Fundação Pedro Calmon/SecultBA.
Na mesa, o arquiteto Nivaldo Andrade e o presidente do Grupo Cultural Olodum, João Jorge Rodrigues, falaram de aspectos culturais, socioeconômicos e habitacionais sob o tema “Cultura e Cidade”. O debate integra o projeto da Fundação intitulado “Memórias Contemporâneas”.
Fundado em 1979, o bloco Olodum tem sede no Centro Histórico de Salvador e desenvolve ações de combate à discriminação social, perpassando pela música negra. João Jorge, que também é mestre em Direito pela Universidade de Brasília e membro do conselho da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), falou sobre a importância do bloco para os baianos:
“Quando o Olodum foi fundado, foi tido pela imprensa como o pior bloco da cidade e racista, sob a justificativa de que no Brasil havia democracia racial e o bloco negava isso. O Olodum falou de história, de Moçambique, Marrocos, Gana e trouxe à Bahia 48 personalidades mundiais como Alpha Blondy e Michael Jackson. O Olodum transformou-se numa força transmundial para Bahia”.
Resistência - A história do Olodum e do Pelourinho se cruzam quando levados em conta aspectos da cultura afro-brasileira, da identidade negra e, principalmente, resistência. Os programas e intervenções no Centro Histórico de Salvador, desde a década de 60, além da questão trivial de turismo e habitação no local, foram explanadas pelo professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Nivaldo Andrade. Ele também é membro dos conselhos consultivos do Patrimônio Cultural (IPHAN) e do Patrimônio Cultural de Salvador (Fundação Gregório de Matos / Prefeitura Municipal de Salvador).
“Diversos projetos foram pensados e planejados para promover a habitação digna aos moradores do Pelourinho. Diversas famílias tiveram que sair para morar em outros lugares do Centro, sob a promessa de retornar depois das reformas. Os projetos não são executados e, com o passar dos anos, o que dava para ser reformado, se transforma em ruínas. Depois, milhões são gastos para colocar escoras. Locais em que poderiam morar famílias”, declarou o arquiteto.
População
O resultado é o esvaziamento de moradores de baixa renda e em vulnerabilidade social do Centro Histórico, em detrimento do comércio e do turismo no local. De acordo com Nivaldo, a população do Pelourinho caiu quase pela metade entre 1991 (11.949 habitantes) e 2010 (5.985 habitantes). “Há uma falta de interesse político em estabelecer condições para que as pessoas continuem habitando o local, isso desde a década de 60. Vale a reflexão: para quem é o Centro Histórico de Salvador’?”.
A estudante de História Larissa Cruz, relatou a importância do debate na atualidade. “Desde criança passo pelo Centro Histórico e vejo casarões abandonados que poderiam se transformar em moradia para os moradores de rua ou para realocar famílias que estão morando em locais de risco. Debates como esses suscitam o pensamento crítico acerca do assunto”. O professor Cláudio Dias, falou sobre o bloco Olodum: “É um bloco que fala, essencialmente, sobre a cultura afro, sobre a história e a identidade negra”.
Memórias Contemporâneas
O Conversando com a sua História integra o projeto macro da Fundação, chamado de “Memórias Contemporâneas”. O projeto reunirá depoimentos orais acerca da cultura baiana a partir da década de 1950, propondo o resgate desta memória através de entrevistas, recolhimento de documentos e publicações em fac-símile de periódicos que influenciaram a sociedade baiana. Este acervo audiovisual, textual e iconográfico estará disponível aos pesquisadores e estudiosos.
Fotos: Laísa Costa