Ilê Aiyê: 43 anos de legado para a Cultura e Educação afro-brasileiras

01/11/2016

Há 13 anos o Brasil se preparava para dar um grande passo em sua educação: instituir uma lei que incluía a história e cultura afro-brasileira nos debates em sala de aula, nos livros didáticos e no dia a dia de professores e estudantes. Era a Lei 11.645/08, uma conquista dos movimentos negros organizados em todo país, uma vitória da luta pela igualdade racial. Mas a Lei não se consolida por si, sem estratégias, sem foco e iniciativas que a testem, fortaleçam e a põem em prática.

Dentre as mais fortes em curso em Salvador – cidade com mais de 80% de afrodescendentes em sua população – está a Escola Mãe Hilda, extensão da ação educativa do primeiro bloco afro do Brasil, o Ilê Aiyê. São 43 anos de histórias comemorados na data de hoje (1/11) e parte dela é destinada à formação de crianças e jovens entre 7 e 12 anos há mais de 20 anos. Em 2008, a Lei 11.645 alterou a 10.639/03, mas o Ilê já a implementa em sua pedagogia desde 1974. 

O livro, a memória e a leitura negras são temas básicos, principais e diários para os mais de 200 estudantes que convivem sob o nome e história de uma matriarca incentivadora do educar e do saber negro: Mãe Hilda Jitolú.  São crianças que conhecem, desde cedo, o diferencial exposto na cor de suas peles e o que ele acarreta nas relações sociais e ambientes em que estão. O bairro do Curuzu é periférico, é negro, tem no Ilê Aiyê seu baluarte de afirmação, identidade e de autoestima. São pais e mães que – ao acreditarem na proposta educacional do Bloco - apostam que este mesmo diferencial que colore suas peles é o que deve fortalecê-los diante do que está posto.

Transformar

E é na educação que o Ilê vem galgando seus passos para ser mais que um bloco carnavalesco, até porque esta conjuntura tem apenas uma semana de holofote, nos primeiros meses do ano, além de pontuais realizações ao longo deste. É no educar infantil e de jovens desta comunidade que são fomentados novos líderes, pautados na consciência racial e no seu pertencimento étnico. Mais de 2 mil já passaram por lá e encontraram em publicações como os Cadernos Negros de Ilê uma importante fonte de pesquisa sobre o legado africano.

Nesta Biblioteca, estão disponíveis Cadernos que tratam de temas como “Organizações de Resistência Negra” (1995), “Revolta dos Búzios – 200 anos” (1998), “Malês – A Revolução” (2002), “Mãe Hilda – Guardiã da fé e da Tradição Africana” (2004), além do mais recente “Guiné Equatorial: da herança pré-colonial à geração atual”, lançado em 2013. 

 

“São todos os temas levados às ruas pelo Bloco. Eles são trabalhados na Escola Mãe Hilda, na rede pública de ensino, na Bahia e em outros estados. O Ilê, com isso, reescreveu a história da África, que nos foi negada. Com eles, vimos fazendo a L

São mais de 40 anos de Bloco Afro, preservando uma memória que já foi e continua sendo ameaçada diuturnamente: a dos povos africanos e do povo afro-brasileiro; foram mais de 20 anos de Cadernos Negros que recontaram uma história negada até os dias de hoje, mas que encontraram parâmetros legais para serem cobrados – também todos os dias. 

São mais de 2 mil crianças e jovens tocados pela estética negra, pelo som africano e pelo legado de negros e negras brasileiras que se afirmam e reafirmam também todos os dias.  ei 11.645/08 desde 1974”, enfatiza Vivaldo Benvindo dos Santos, membro da Diretoria do Ilê Aiyê, que coordena os projetos educacionais da entidade. E não é só no Curuzu que o trabalho chega. Ele alcança também os bairros de IAPI, Pero Vaz, Caixa D’Água, São Caetano, Fazenda Grande do Retiro, Largo do Tanque, dentre outros. Também não é somente em sala de aula que o estudo fica. Os alunos vão a museus, bibliotecas, teatros, galeria de artes, terreiros de candomblé, participam de seminários, conferências, feiras e parques ecológicos, sempre espaços que dialoguem com o que propõe a Lei 11.645 /08. 

Fotos: Internet 

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