Instituto Cultural Steve Biko 23 anos de educação, afirmação e ascensão negra

31/07/2015

Há exatamente 23 anos, jovens negros e negras de Salvador, oriundos de escolas públicas, que sonhavam com a Universidade e a tinham como um alvo distante e difícil de conquistar, ganhavam uma oportunidade única: um curso pré-vestibular. Mas um curso que dialogava com suas realidades, criado por também estudantes e professores negros, que tinham em mente grandes metas: combater a desigualdade racial, valorizar a ancestralidade afro-brasileira, promover a ascensão educacional, política e social desta juventude e ser uma referência nacional de instituição de ensino superior no estado.

Em 31 de julho de 1992, o ideal de levar jovens negros às Universidades públicas surgia como a semente de um projeto muito maior de qualificação acadêmica e fortalecimento da autoestima dos 50 jovens que iniciaram nas primeiras aulas. Em apenas sete anos de atuação educacional, o Instituto ganhou seu primeiro reconhecimento – o Prêmio Nacional de Direitos Humanos, em 1999. Até hoje, já acumula cinco prêmios, dentre nacionais e internacionais, mas, na avaliação do fundador da Biko – como é carinhosamente chamada -, Silvio Humberto Passos Cunha o maior de todos é, sem dúvida, a aprovação de 1500 estudantes em Universidades públicas como as Universidades Federal e Estadual da Bahia, a Federal do Recôncavo (UFRB), o Instituto Federal da Bahia (IFBA), a Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) e a Unicamp (SP). Do curso pré-vestibular, os projetos cresceram para outras áreas, como o Oguntec – destinado ao fomento à Ciência e Tecnologia, os Intercâmbios, o DHAR - curso de formação em cidadania, direitos humanos, ancestralidade e diversidade cultural e o Up with English ­– curso de inglês. Em entrevista, Silvio Humberto falou sobre as principais conquistas da Biko nestes 23 anos. Confira:

 

FPC: De um curso pré-vestibular à meta de ser uma Instituição de Ensino Superior referência para a população negra, como avalia a influência da Biko na vida dos 1500 jovens que já passaram pelo instituto?

 

Silvio Humberto: Você avalia a árvore pelos seus frutos, então quando observamos as atividades dos bikudos e bikudas (como são chamados os alunos e ex-alunos do Instituto) na Bahia e no país, fazendo política, ajudando as pessoas, essa é a grande conquista da Biko. Tive a oportunidade, recentemente, de ouvir um bikudo que passou pelo nosso Oguntec falar sobre os 25 anos do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), e é aí que temos a certeza de que fizemos muito bem nosso dever de casa, sobretudo com a disciplina basilar da Biko, que é a CCN – Cidadania e Consciência Negra. A participação política destes jovens mostra como isso foi assimilado e nosso grande papel é afirmar que querermos uma juventude viva e orgulhosa, pois Steve Biko já dizia: “Ou você está vivo e orgulhoso ou você está morto!”. Nós aprendemos fazendo e aprendemos a enfrentar as agruras do racismo, colocando a Universidade como uma opção pra esta juventude. Nós podemos e fizemos disso. O enfrentamento não é fácil, mas não nos paralisa, ao contrário, nos incentiva a criar alternativas, transgredir espaços, acolher e transformar a vida das pessoas. Aprendemos que pra ter êxito nesse enfrentamento ao racismo, a saída tem que ser sempre coletiva, o que é foi um princípio basilar na formação das nossas lideranças. Somos resultado disso e nestes 23 anos temos levado isso na construção dos nossos programas. Nosso grande desafio agora  é ser uma instituição de ensino superior que leve em consideração uma cosmovisão afrocentrada, tendo a educação como meio pra fazer estas mudanças.

 

FPC: A Fundação Pedro Calmon realizará, em dezembro, o Fórum do Pensamento Crtico, tematizando o protagonismo juvenil na sociedade. Como vê o papel da juventude negra na construção de um novo país, uma nova nação brasileira?   

 

Silvio Humberto: Aparentemente, temos uma contradição: abrimos as universidades para estes jovens, mas eles mesmos tem tido suas vidas ceifadas, um desperdício de talentos pro Brasil. Esse país não irá a lugar nenhum se a juventude negra não for prioridade. Não se fala de futuro do Brasil se, no presente, não se reconhece e investe nesse potencial da juventude negra, que está sempre se apresentando e manifestando com um enorme potencial criativo. A exterminação física disso é exterminar o futuro. É preciso desenvolver as pessoas e não as coisas, é preciso proteger e investir nestes jovens. Iniciativas como estas são dever de casa que precisamos continuar: nos importar com nós mesmos e cobrar do Estado recursos para potencializar o que estas ONGs já fazem. As políticas públicas precisam sair do papel, já há vários diagnósticos que precisam ir além da vontade política. O país não vai se nós não formos e, independente de crise, as conquistas sociais não podem ser reduzidas, ou seja, não podemos estar no presente ceifando o futuro. É preciso criar mecanismos para que estas organizações que já trabalham na defesa da juventude negra tenham garantidas as condições para que possam fazer cumprir sua missão, com um tratamento diferenciado que se possibilite reduzir as desigualdades raciais, o número de mortos, desperdiçando vidas.

 

Na entrevista, Silvio Humberto aproveita para fazer um chamado àqueles que conhecem o trabalho da Biko, que acompanham os trabalhos desde sua Fundação e que querem fazer parte desta história. Uma campanha para a construção da sede própria do Instituto. “A campanha é para que as pessoas dêem um dia de trabalho pra esta construção. Este é o melhor presente que a Biko poderia ganhar nestes 23 anos”, enfatizou, explicando que recursos financeiros são necessários neste momento. Os dados para depósito são:  Banco do Brasil Ag: 3457-6 CC: 42784-5.

 

Para saber mais sobre a Biko e saber como ajudar nesta campanha, clique aqui.

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