Avenida Sete de Setembro: 100 anos de histórias

07/09/2015

Foto: Acervo do Arquivo Histórico Municipal de Salvador

Uma das principais avenidas da cidade de Salvador, a Avenida Sete de Setembro completa nesta segunda-feira (7/9), 100 anos da sua inauguração, importante trecho histórico, econômico e arquitetônico da capital baiana. Inaugurada em 7 de setembro de 1915, data que lhe confere o nome e celebra a independência do Brasil.

Sua construção foi marcada por inúmeras polêmicas que partem, desde questões relacionadas à verba utilizada durante o processo, até mesmo a demolições e deslocamentos de importantes prédios históricos na época. Dentre eles o da Igreja de São Pedro, que se localizava onde hoje se encontra a Praça Barão do Rio Branco/Relógio de São Pedro, e foi relocada por estar “no meio da avenida”. Entretanto, a obra trouxe à realidade dos soteropolitanos uma avenida de 21 metros de largura com passeios de três metros, partindo da base da Ladeira de São Bento até o Farol da Barra. Neste trecho, a Avenida registra em seu trajeto importantes pontos como a rua de São Pedro, Piedade Mercês, Praça da Aclamação, canto do Passeio Público, Campo Grande, Corredor da Vitória e Ladeira da Barra, o que colocou a cidade dentro no padrão das grandes metrópoles internacionais da época, como destaca o arquiteto Francisco Senna.

“Foram trazidos para a construção da Avenida Sete construtores, arquitetos e profissionais italianos, e também paulistas, que introduziram na Avenida os conceitos arquitetônicos das grandes reformas urbanas que começaram na Europa. Foi a área nobre da cidade, especialmente na segunda metade do século 20, e continua sendo até hoje, em especial no trecho da Vitória”, explica Francisco Sena.

O arquiteto lembra ainda que a construção da Avenida Sete fez parte de um conjunto de transformações da paisagem urbana de Salvador, que teve início com a construção do Porto e do Comércio. “Eu tenho sempre falado que as grandes reformas urbanas começaram em Paris e influenciaram as cidades brasileiras no século XX, começando pelo Rio de Janeiro com obras que deram origem a espaços como Copacabana. Na Bahia, chegou na segunda metade do século XX, com J.J. Seabra, que era um político muito influente e foi responsável pelas obras do porto de Salvador (das docas), e do Comércio. Depois ele encontrou a ideia de fazer a Av. Sete de Setembro na Cidade Alta. Teria também a Avenida Dois de Julho, onde hoje é a Carlos Gomes, mas a ideia foi descartada”, informa Francisco Sena.

Polêmicas - A pesquisadora Neivalda Freitas de Oliveira afirma que as obras da Avenida Sete trouxeram um desconforto para a população soteropolitana. “Salvador era uma cidade colonial traçada aos moldes portugueses, com ruas muito estreitas onde não passavam os modais de transporte público da época, como o bonde elétrico. Houve um trabalho para apagar os resquícios do período colonial, que derrubou muitos marcos no período de 1912 a 1914. A Rua Chile também sofreu uma intervenção na mesma época, que acabou falindo os comerciantes e transformando a cidade em um canteiro de obras. Após essas reformas, as ruas passaram a ser usadas e acabou sendo o centro da vida cotidiana da população da época e um lugar de referência. Na década de 70, todos queriam desfilar pela Avenida Sete”, diz Neivalda Freitas.

Já Eduardo Moraes de Castro, presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), relembra que a Avenida Sete de Setembro durante muitas décadas foi a principal avenida da capital baiana, e afirma que em qualquer mudança é normal haver resistências por parte de alguns grupos sociais. “Em qualquer mudança sempre há resistência, é natural. Mas o impacto que a construção da Avenida Sete de Setembro causou para o desenvolvimento urbano e para a expansão da cidade de Salvador foi de extrema importância. Foi o pontapé inicial para outras grandes avenidas, como a Octávio Mangabeira, ligando os bairros da orla da cidade, e isso, se repararmos bem, começa pela Avenida Sete”, explica Eduardo Moraes de Castro.

Cantada e versada por diversos artistas ao longo de seus cem anos, a Avenida Sete de Setembro estabelece uma forte relação com toda a população soteropolitana, e traz, ao mesmo tempo, as marcas do crescimento e desenvolvimento de Salvador, como também da história da cidade, sendo ponto de referência cultural, econômica, urbanística e social, além de palco de momentos históricos para o país. É nela que ocorrem momentos cíveis e festivos, como os desfiles de Carnaval e os cortejos de Independência da Bahia (Dois de Julho) e do Brasil. Na Caixa Cultural de Salvador (carlos Gomes), está em cartaz até o final deste mês (setembro) a Expo 100 anos da Avenida Sete, com fotos  de Marisa Vianna, Nelson Cadena, Fundação Gregório de Mattos e Museu Tempostal, com programação visual do designer Mauro Ybarros.

Ainda sobre a tradicional Avenida, está em produção um livro do jornalista e escritor, Jolivaldo Freitas, que trará o resultado de suas pesquisas sobre a localidade, envolvendo importantes instituições históricas e relatos de comerciantes locais. No livro, os leitores poderão ter conhecimento de causos daquela região e registros de acontecimentos com a reunião de jovens no Edifício Fundação Politécnica, o segundo a ter escada rolante na Bahia, nos anos 1960/70. "Era o templo das discotecas (lojas de disco) e todas as tardes os jovens tomavam os passeios, escadas, parte baixa e sobreloja em busca das novidades que vinha dos Estados Unidos e de Londres. Raul Seixas frequentou. Ali muita gente ouviu falar pela primeira vez em Rolling Stones, Jethro Tull e tantos outros. Um lançamento dos Beatles era disputado a tapa", conta o escritor. O livro tem previsão de ser lançado no início de 2016.

Acervo - A partir desta segunda (7), a Biblioteca Virtual Consuelo Pondé (http://www.bvconsueloponde.ba.gov.br) colocará à disposição de todos a exposição “O Que Vamos Festejar - A Avenida Sete de Setembro", que conterá artigos, estudos, fotos e jornais que ilustram a história social, política da Avenida Sete ao longo dos anos. O Centro de Memória da Bahia, unidade vinculada à Fundação, participará do Seminário Avenida Sete de Setembro: 100 anos de História e Memória nos dias 16 e 17 de setembro de 2015, das 14h às 18h, no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB).