Saberes de travestis articulam novos caminhos para mulheres

15/03/2023
MM capa sway

A pedagoga Thiffany Odara aborda como novas pedagogias articula uma sociedade mais digna

“Corpo em movimento, que transgride as normas da cisgeneridade”. É assim que se define a pedagoga Thiffany Odara, ou melhor, “a pedagogia desobediente em constante movimento articulado, em busca da inserção digna e humana na sociedade”.

Mãe, ativista, escritora nas horas vagas, educadora social e redutora de danos, Odara é uma das lideranças femininas celebradas pela Fundação Pedro Calmon, vinculada à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA), neste mês da mulher.

Primeira mulher trans feminista negra formada pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb), a educadora revela que enveredou pelo caminho da Pedagogia após entender a abrangência da ciência e o seu objeto de estudo.

“De início, eu queria fazer História, ser historiadora, e no período que eu me inscrevi no vestibular da UNEB, na época, não tinha História. Conversando com alguns amigos, eu fui orientada a fazer Pedagogia, por entender a dimensão que a Pedagogia dá, o leque de possibilidades de atuar dentro da educação, pensando uma perspectiva educacional que possa garantir transformações e modificações na sociedade”, explica.

“Tranvestilizando a Educação”  Inconformada com a infeliz agenda que envolve as mazelas encontradas dentro do contexto da sociedade, foi durante um dos principais desafios em meio a sua chegada ao ensino superior que Odara ascendeu dentro da militância.

“Quando eu acessei a UNEB, a portaria que garantia o uso do nome social não estava em vigor. O grande desafio foi ser um corpo estranho dentro da festinha cisgênera. Foi um desafio ter que utilizar um nome no qual não me representava enquanto corpo trans, enquanto corpo trans transgressor”, explica. 

“E isso foi, de fato, um dos piores momentos na universidade. Mas foi lá também o espaço provocador, né, que me provocou a dizer não às violências”, avalia a ativista. Thiffany publicou em 2021, Pedagogia da Desobediência: Travestilizando a Educação, produção desenvolvida durante a especialização.

Fonte de inspiração para as futuras gerações, a ativista, que atualmente está finalizando o mestrado, o seu principal papel, ademais do empoderamento, é ativar o desejo dessas pessoas para uma reflexão.

Ocupar espaços e abrir caminhos “Eu tento despertar essa criticidade para que elas se vejam não só nos lugares que eu consegui chegar, mas lugares para além deles. Lugares que elas podem alcançar, lugares que eu tentei e que eu não consegui e que elas podem. Eu falo de um movimento social onde muitas travestis não sabiam nem assinar seu próprio nome, não tinham nem mesmo a primeira série”, ressalta Thiffany.

Ressaltando a importância dos feedbacks recebidos através das redes, para Odara, é gratificante ser porta-voz e instrumento vivo para a garantia de conquista desses jovens.

“O público que eu consigo alcançar, não somente o público LGBTQI+, mas também é o público de jovens negros da periferia, de jovens também que estão em privação de liberdade, em situação de rua, aqueles jovens que historicamente são silenciados realizando o sonho delas e para as outras que irão vir, está para além disso”, finaliza.
Galeria: