22/02/2018

Projeto de "Elem" de Jesus tem mudado a realidade de muitas crianças na região do Pelourinho (Foto: Catarine Brum)
A trajetória da percussionista Elisete "Elem" de Jesus Silva, uma jovem soteropolitana engajada na educação, através da arte, de crianças em situação de risco; encantou a cineasta afro-americana Falani Spivey. O resultado do registro íntimo e cuidadoso do cotidiano e do trabalho de "Elem" pode ser conferido no documentário "Maestrina da Favela". O filme ganha pré-estreia exclusiva na Sala Walter, no sábado (24 de fevereiro), com entrada gratuita.
"Maestrina Da Favela" acompanha a vida da artista baiana e sua missão em libertar crianças de uma vida de drogas e violência em sua comunidade. Filmado na capital da cultura africana do Brasil, Salvador; o documentário explora as manifestações ancestrais dos afro-brasileiros que vivem no Centro Histórico da capital baiana, que já foi o maior mercado de escravos no Novo Mundo.
Diáspora – Para detalhar esse processo de imersão na cultura baiana e brasileira, sempre com um olhar preocupado com o social, Falani Spivey nos concedeu a seguinte entrevista:
Como foi a experiência de realizar, em Salvador, o filme "A Maestrina da Favela"?
Falani Spivey – Minha experiência de filmagem foi muito especial, pois vejo a Bahia como uma ponte que nos remonta à diáspora africana. Vinda de uma cidade de maioria negra (Washington, D.C.) para Salvador, era como um regresso às origens, mas com mais influências africanas. Durante a minha primeira viagem a Salvador, há 10 anos, conheci uma senhora chamada Dona Nilzete na comunidade Rocinha, atrás do Pelourinho. Na época, eu não falava português, mas ela conseguiu se comunicar comigo e me fez sentir bem-vinda com a comida baiana e seu lindo sorriso. Quando eu estava me preparando para voltar para os EUA, na minha última noite, eu fui me despedir dela; então conheci sua filha Elem, uma garota de olhos brilhantes, que aproveitou a oportunidade para praticar seu novo idioma, falando em inglês. Eu tinha uma câmera semiprofissional para documentar minha experiência e perguntei a Elem se ela me mostraria sua comunidade, na manhã seguinte, antes do meu voo de regresso. Quando eu voltei, no outro dia, fui saudada por Elem e 10 outras crianças tocando bateria em um palco improvisado. A partir desse momento, fiquei cativada por essa jovem, que criou uma banda para combater as drogas e violência em sua comunidade. Viajei sete vezes, ao longo dos anos 2007-2017, para documentar o projeto social de Elem e o seu crescimento como percussionista feminina.
Qual a importância de divulgar o trabalho social e cultural da percussionista baiana "Elem" de Jesus?
Falani – Penso que a documentação do projeto social da Elem ressalta a possibilidade da mobilidade social, na base. Em todo o mundo, os negros sofrem os mesmos problemas: racismo, marginalização, falta de emprego, carência de educação de qualidade e violência. Com a falta do suporte institucional, as pessoas estão tomando medidas para mudar essa situação, com os pequenos recursos que possuem. Presenciar a uma jovem como Elem fazendo um trabalho político, através da educação musical, é muito inspirador; não só para outros artistas, mas para os jovens, em geral, em todo o mundo. Torna-se ainda mais gratificante ver uma menina no meio da percussão, que é dominada pelos homens. Culturalmente, ela continua o legado de tocar música africana, que foi trazido para o Brasil, por meio de milhões de descendentes africanos: Para poder usar a arte cultural, para mudar a realidade de centenas de crianças em uma comunidade marginalizada, como o Pelourinho...Tudo isso, é muito desafiador. Mas eu acredito que as ruas do Pelô, um lugar construído pelas mãos de nossos antepassados, dão a Elem a força necessária, para continuar seu trabalho, sem se importar com as adversidades com as quais se depara cotidianamente.
E a expectativa para o lançamento do filme, no dia 24 de fevereiro, em Salvador?
Falani – Minha expectativa para este lançamento em Salvador é dar visibilidade a um projeto social que existe há 15 anos, liderado por uma jovem negra com menos de 25 anos. Acompanhei a Elem e a resistência de suas famílias para manter esta banda viva, sem apoio oficial, seja de ONG's ou de instituições públicas. É com a ajuda dos turistas e o suporte de sua mãe, que a banda existe até hoje. Houve momentos em que a Elem pensou em abandonar sua atividade, devido à falta de apoio, mas mesmo com uma doença grave, ela continua a lutar pela manutenção do projeto em uma comunidade que tem sido “gentrificada” por conta do turismo. Como cineasta independente, pensei também em desistir do projeto devido à falta de recursos, mas, enquanto eu via Elem continuando, continuei. Por nunca desistir, temos um documentário inovador, que será exibido em todo o mundo em escolas, bibliotecas, comunidades e festivais de cinema. Espero que este filme possa ser usado para influenciar a mudança de políticas públicas e apoiar as iniciativas de educação artística, em todo o mundo. Espero também que este documentário ajude a Elem a obter o apoio institucional que ela merece, para continuar seu projeto por muitos outros anos.
"Maestrina Da Favela" acompanha a vida da artista baiana e sua missão em libertar crianças de uma vida de drogas e violência em sua comunidade. Filmado na capital da cultura africana do Brasil, Salvador; o documentário explora as manifestações ancestrais dos afro-brasileiros que vivem no Centro Histórico da capital baiana, que já foi o maior mercado de escravos no Novo Mundo.
Diáspora – Para detalhar esse processo de imersão na cultura baiana e brasileira, sempre com um olhar preocupado com o social, Falani Spivey nos concedeu a seguinte entrevista:
Como foi a experiência de realizar, em Salvador, o filme "A Maestrina da Favela"?
Falani Spivey – Minha experiência de filmagem foi muito especial, pois vejo a Bahia como uma ponte que nos remonta à diáspora africana. Vinda de uma cidade de maioria negra (Washington, D.C.) para Salvador, era como um regresso às origens, mas com mais influências africanas. Durante a minha primeira viagem a Salvador, há 10 anos, conheci uma senhora chamada Dona Nilzete na comunidade Rocinha, atrás do Pelourinho. Na época, eu não falava português, mas ela conseguiu se comunicar comigo e me fez sentir bem-vinda com a comida baiana e seu lindo sorriso. Quando eu estava me preparando para voltar para os EUA, na minha última noite, eu fui me despedir dela; então conheci sua filha Elem, uma garota de olhos brilhantes, que aproveitou a oportunidade para praticar seu novo idioma, falando em inglês. Eu tinha uma câmera semiprofissional para documentar minha experiência e perguntei a Elem se ela me mostraria sua comunidade, na manhã seguinte, antes do meu voo de regresso. Quando eu voltei, no outro dia, fui saudada por Elem e 10 outras crianças tocando bateria em um palco improvisado. A partir desse momento, fiquei cativada por essa jovem, que criou uma banda para combater as drogas e violência em sua comunidade. Viajei sete vezes, ao longo dos anos 2007-2017, para documentar o projeto social de Elem e o seu crescimento como percussionista feminina.
Qual a importância de divulgar o trabalho social e cultural da percussionista baiana "Elem" de Jesus?
Falani – Penso que a documentação do projeto social da Elem ressalta a possibilidade da mobilidade social, na base. Em todo o mundo, os negros sofrem os mesmos problemas: racismo, marginalização, falta de emprego, carência de educação de qualidade e violência. Com a falta do suporte institucional, as pessoas estão tomando medidas para mudar essa situação, com os pequenos recursos que possuem. Presenciar a uma jovem como Elem fazendo um trabalho político, através da educação musical, é muito inspirador; não só para outros artistas, mas para os jovens, em geral, em todo o mundo. Torna-se ainda mais gratificante ver uma menina no meio da percussão, que é dominada pelos homens. Culturalmente, ela continua o legado de tocar música africana, que foi trazido para o Brasil, por meio de milhões de descendentes africanos: Para poder usar a arte cultural, para mudar a realidade de centenas de crianças em uma comunidade marginalizada, como o Pelourinho...Tudo isso, é muito desafiador. Mas eu acredito que as ruas do Pelô, um lugar construído pelas mãos de nossos antepassados, dão a Elem a força necessária, para continuar seu trabalho, sem se importar com as adversidades com as quais se depara cotidianamente.
E a expectativa para o lançamento do filme, no dia 24 de fevereiro, em Salvador?
Falani – Minha expectativa para este lançamento em Salvador é dar visibilidade a um projeto social que existe há 15 anos, liderado por uma jovem negra com menos de 25 anos. Acompanhei a Elem e a resistência de suas famílias para manter esta banda viva, sem apoio oficial, seja de ONG's ou de instituições públicas. É com a ajuda dos turistas e o suporte de sua mãe, que a banda existe até hoje. Houve momentos em que a Elem pensou em abandonar sua atividade, devido à falta de apoio, mas mesmo com uma doença grave, ela continua a lutar pela manutenção do projeto em uma comunidade que tem sido “gentrificada” por conta do turismo. Como cineasta independente, pensei também em desistir do projeto devido à falta de recursos, mas, enquanto eu via Elem continuando, continuei. Por nunca desistir, temos um documentário inovador, que será exibido em todo o mundo em escolas, bibliotecas, comunidades e festivais de cinema. Espero que este filme possa ser usado para influenciar a mudança de políticas públicas e apoiar as iniciativas de educação artística, em todo o mundo. Espero também que este documentário ajude a Elem a obter o apoio institucional que ela merece, para continuar seu projeto por muitos outros anos.
Serviço
Pré-estreia do documentário "Maestrina da Favela", de Falani Spivey, + bate-papo com a realizadora
Quando: sábado (24), às 17h
Onde: Sala Walter da Silveira (Rua General Labatut, n 27 – subsolo da Biblioteca Pública dos Barris)
Entrada gratuita