#NAN2019 – Internos da Cadeia Pública de Salvador receberam Encontro de Saraus nesta terça-feira (19)

19/11/2019
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A poesia e a música se fizeram presentes e ecoaram pelo pátio da Cadeia Pública de Salvador nesta terça-feira (19), quando aconteceu o Encontro dos Saraus Enegrescência, Som das Sílabas e Sarau do Jaca. A ação integrou o Novembro das Artes Negras da Fundação Cultural do Estado da Bahia, que nesta terceira edição acontece nas unidades prisionais de Salvador em parceria com a Secretaria de Administração Penitenciária (SEAP).

Racismo estrutural, encarceramento em massa da população negra e periférica, opressão policial e machismo foram os temas centrais das poesias declamadas pelos artistas. Ao citaram os bairros onde artistas vivem, os 145 internos se identificaram imediatamente com a proposta da ação. Além do Sarau, alguns internos aproveitaram a ocasião para puxar uma roda de capoeira, declamar poesias e cantar músicas autorais e de outros artistas. 

dÉ o caso de I.S., de 26 anos, que acompanhado de um violão, cantou duas músicas autorais, além de músicas de outros artistas, e declamou suas próprias poesias. “Aqui é muito esquecido, não temos atividades culturais então tenho que aproveitar o violão, que já tem mais de dois anos que não toco. Devido ao dia a dia da cadeira refleti muito e sofri muito também, daí vem minhas inspirações para compor”, contou.

Lidiane Ferreira, do Enegrescência, destacou que “a gente sabe o que acontece nas periferias, estamos dando murro em ponta de faca. A poesia marginal é para pensar o local onde estamos e para gritar alto que não aceitamos migalhas”.

O Poeta com P de Preto (Rilton Junior), do Sarau do Jaca, disse que “quem sofre encarceramento em massa e a população negra, e é aí que a gente vê como o racismo está imbricado nessa sociedade. Se tudo começou em África, se somos todos irmãos, temos que nos unir”.

“Usamos a literatura como meio de comunicação das nossas vivências, são as nossas escrevivências. Aqui não tem nada inventado nem fora da realidade, falamos da nossa experiência de vida”, revelou Makito Santos, do Sarau do Jaca.

Após o Sarau, os internos fizeram questão que apresentar aos poetas e à equipe da Funceb as suas produções artesanais, como a escultura da Torre Eiffel, porta-joias, porta-isqueiro e abajus feitos de palitos de picolé; jarros e esculturas de papel; além de bolsas e mochilas feitas com linha. Também levaram a equipe para conhecer a biblioteca, idealizada, construída e decorada pelos próprios internos.

O interno F.B. elogiou e destacou a importância da ação na Cadeia Pública: “A cultura educa, abre a mente e traz lazer para os internos. Quanto vem gente de fora que tira um pouco do seu tempo para estar aqui com a gente, mostra que ainda temos valor. Além de todo o incentivo, vimos que há vários talentos perdidos na cadeia. Tenho certeza que cada um de nós vai lembrar desse dia para sempre; e esse dia estará também no meu livro biográfico que estou escrevendo aqui dentro. A cultura ajuda na ressocialização dos presos”.

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O diretor da Cadeia Pública de Salvador, Marcelo Neri, também destacou a importância da proposta: “a atividade vem destensionar os internos, fazer com que eles não se sintam esquecidos; é uma importante ação afirmativa de ascensão social e o contato com a cultura será sempre proveitoso e engrandecedor”.
Também participaram da ação o cantor Gabriel Póvoas e a poeta Clarissa Macedo, ambos do sarau Som das Sílabas; Ganesa Gonçalves do sarau Enegrescência; Marcos Paulo do sarau do Jaca; e Cássio Jônatas, artista independente.

O Encontro de Saraus Enegrescência, Som das Sílabas e Sarau do Jaca acontecerá também nesta quarta-feira (20), às 14h, na Colônia Penal Lafayete Coutinho – Módulo II. Acesse aqui a programação completa do Novembro das Artes Negras – ano III.

Fotos: Amanda Moreno