#PerfilDasArtes - Solo, silenciamentos e a persistência de Jaqueline Elesbão na dança

17/04/2020
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Jack Elesbão, mulher negra, nascida na periferia de Salvador, iniciou seus estudos na dança através do Projeto Axé, no ano de 1999. Jack conheceu a arte através da dança moderna, mas não se identificava muito com a modalidade. “Eu sempre achei a dança moderna um estilo muito preso que requer do profissional algo muito restrito e eu buscava algo para além da execução da técnica.”.

Em 2004, aos 19 anos, ela foi aprovada no Ateliê de Coreógrafos Brasileiros. Por lá, encontrou o coreografo Luiz de Abreu, que apresentou as possibilidades de uma carreira solo na dança. Era isso que Jack precisava ouvir para legitimar a sua história como dançarina.

O processo criativo começou com a apresentação do espetáculo Samba do Crioulo Doido, do coreógrafo Luiz de Abreu no palco do Teatro Castro Alves. Em seguida, Jack foi pra São Paulo executar alguns trabalhos e cursos, retornando a Salvador em 2007 para praticar as experiências vividas na capital Paulista.

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“Eu fiz participações em alguns grupos de Salvador, mas era terrível ver que eu não me encaixava nos padrões exigidos. Imagine uma negona de 1,80m, acabava destoando naquela multidão. No trabalho solo, eu conseguia me ver inteira”, comenta.


dSolo, silêncio e persistência

Em 2012 Jaqueline Elesbão iniciou o seu primeiro trabalhado solo, intitulado "Entrelinhas", que recebeu muitas críticas de profissionais da dança moderna pelo teor questionador do corpo nas performances. "Entrelinhas" tinha como temática central as diversas expressões da violência contra a mulher, sejam de ordem psicológica, sexual ou emocional, e denunciava o processo cultural de silenciamento do discurso feminino.

“Tentaram me silenciar mais uma vez e conseguiram, pois o desânimo tomou conta de mim nesta época. Tudo e todos questionavam e silenciavam a minha fala enquanto mulher preta”, conta Jaqueline.

Esses motivos fizeram Jack dar uma parada no solo. Mas ali ela já tinha certeza do que não queria fazer, faltava descobrir o que desempenharia e como faria a dança permanecer em sua vida. Nesta época ela já entendia seus valores, mas eles se reforçaram quando a artista resolveu criar a Coletivo Ponto Art com o propósito de produzir espetáculos e desenvolver ações artísticas e culturais afirmativas.

“Estar no palco é sempre uma forma de falar com públicos sem precisar abrir a boca. Desta forma eu aprendi a ver a dança contemporânea como uma possibilidade de transgredir e desobedecer às normas que me anulavam na dança moderna”, afirma.

fEm 2017, o Coletivo Ponto Art  expandiu e se aliou a outros profissionais da área artística como designer, produtores, fotógrafos e colunistas que de fato contribuem para o crescimento do coletivo, o que permitiu a execução de alguns trabalhos. O solo Entrelinhas retornou e foi apresentado em alguns festivais de Salvador, trazendo para o debate o papel da mulher negra na sociedade, em especial a importância, valores e significados dos corpos negros.

“Eu vi a mesma performance ser pontuada com outros olhares, numa época em que já se começava a discutir as questões que eu trazia para a cena há anos”, disse.

Ainda em 2017, Jaqueline Elesbão foi convidada pela Fundação Cultural do Estado, através de sua coordenação de Dança, para participar da primeira edição do Novembro das Artes Negras na instituição. Na ocasião ela integrou a mesa Diálogos Possíveis - Mulheres Negras na Dança. Após as discussões, ela performou o solo Entrelinhas na Sala King da Funceb.

Em 2019, Jaqueline Elesbão retornou à Fundação Cultural para participar de mais uma edição do Novembro das Artes Negras, desta vez ela ministrou uma oficina de dança para as detentas do Conjunto Penal Feminino de Salvador. “Quando eu vi aquelas histórias, pensei que poderia ser eu no lugar delas e busquei trocar as minhas experiências com elas, fazendo da dança um instrumento para esse diálogo. Saí da oficina munida para continuar por entender que meu trabalho é por mim e pelas minhas semelhantes”, revela a artista.

Fotos: "Entrelinhas" (Ives Padilha)