Centenário de Nilda Spencer é celebrado no projeto Mestras e Mestres da Cena da Funceb

07/11/2023
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A memória do teatro produzido na Bahia se fez presente entre artistas, professores, pesquisadores, jornalistas, amigos, familiares e contemporâneos da atriz Nilda Spencer na noite de segunda-feira (6), quando teve início a retomada do projeto Mestras e Mestres da Cena, produzido pela Coordenação de Teatro da Diretoria das Artes da Funceb, instituição vinculada à Secretaria de Cultura da Bahia.

A edição homenageia a atriz, professora e primeira diretora da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, Nilda Spencer, que completaria 100 anos em 18 de junho de 2023. Nilda é reconhecida por títulos como “Embaixatriz do Teatro Baiano”, “Dama do Teatro Baiano” e pela sua personalidade, energia e dedicação singular ao fazer artístico em cima dos palcos.

O novo coordenador de Teatro da Funceb, Leonardo Telles, abriu o evento celebrando seu retorno à “casa” que o abrigou durante o período universitário – o Teatro Martim Gonçalves, e onde Nilda fez história: “estamos celebrando este centenário para trazer luz às gerações contemporâneas e futuras, o que veio antes da gente, porque sem memória a gente não é nada”.

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Gabriela Sanddyego, diretora das Artes da Funceb, destacou a importância do eixo memória na instituição. “A gente costuma fazer essa homenagem em vida, aos artistas vivos, mas vimos nesse centenário uma oportunidade de homenagear a história e a vida de Nilda, e não poderíamos deixar passar isso. Também nomeamos em sua homenagem um edital do Programa Paulo Gustavo, que irá homenagear outros tantos artistas através deste certame”.

O professor e diretor da Escola de Teatro da Ufba, Cláudio Cajaíba, destacou a importância do evento: “É uma oportunidade de trazer essa memória, pois a gente peca muito no esquecimento. Estamos começando a implementar ações para resgatar a memória da Escola, estamos fazendo esse empenho, inclusive, para auxiliar pesquisadores a contarem a história desta casa.”

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O professor, jornalista e escritor, Marcos Uzel, mediou o bate-papo que versou sobre “A versatilidade de Nilda Spencer da Cia. De Teatro da Ufba”: “Nos últimos 10 anos tenho me debruçado sobre a vida de Nilda, fiz tese de doutorado, biografia e peça de teatro sobre Nilda. Completamos em 2023 15 anos de sua partida, e é lembrada, para além de suas gargalhadas e elegância, por romper tantas barreiras e ressignificar o seu lugar no mundo.”

“Ela foi eleita a 1ª Rainha das Atrizes, foi a primeira diretora de uma escola de Artes Cênicas de ensino superior do Brasil, fez mais de 50 espetáculos, além de filmes fantásticos, aprendeu inglês, ganhou bolsa de pós-graduação para estudar na europa num período em que mulheres nem podiam pegar taxi sozinha. Casou-se com um americano e teve duas filhas que nomeou em homenagem a atrizes: Jude e Susan”, completou Uzel, que é autor dos livros “Nilda: a dama e o tempo” (Edufba, 2021), “Guerreiras do Cabaré” (Edufba, 2012) e “A noite do Teatro Baiano” (P55 Edição, 2010), que também homenageiam Nilda.

Junto a Marcos Uzel, Cleise Mendes, professora, escritora e dramaturga brasileira também esteve presente na mesa. “Nilda tinha uma postura, uma atitude, que acho que era geracional, e que vinha também de Martim Gonçalves. Era aquela ideia de que o espetáculo está acima de tudo, que o espetáculo é o público, logo, é um respeito ao próprio teatro, ao fazer artístico, a ideia de que nenhuma questão particular pode lançar sombra para o espetáculo”, descreveu Cleise.

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À frente do tempo

Raimundo Matos de Leão, doutor e mestre em Artes Cênicas, e professor da Escola de Teatro da Ufba, também compartilhou suas memórias durante o evento ao falar sobe “Uma mulher pioneira entra em cena na província baiana”.

“Assisti a um espetáculo de Nilda assim que cheguei em Salvador, com uns 16 ou 17 anos. Fui aluno de Nilda na disciplina de Dicção, ela era incrível, se importava com a evolução de cada um dentro da sala de aula. O que ela representou para o teatro baiano, para a Escola de Teatro, é algo inegável. Uma mulher, de uma Bahia conservadora, de uma família tradicional baiana, e que rompe com esses esquemas fechados. Infelizmente passei 30 anos morando em São Paulo e não acompanhei esse período da carreira dela, apenas pelos textos e críticas”, relatou Raimundo.

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A atriz Aicha Marques também participou do evento e contou histórias de como conheceu Nilda e como foi atuar com ela. “Nilda foi um furacão na minha vida. Em um momento muito difícil, recebi o convite de participar de um espetáculo com ela, ela foi a primeira diva que eu conheci na minha vida, era uma coisa que vinha de dentro, a forma de ser, a forma como ela encarava a vida era uma inspiração”, disse Aicha.

Exposição

Na ocasião foi aberta a exposição fotográfica “Nilda é 100”, com imagens de espetáculos cedidas pela sua filha Susan Spencer, que segue até o último dia do evento.

“Ela foi pioneira, vanguardista, quebrou todos os preconceitos que tinham na sociedade. Casou-se com um americano que era muito liberal e nunca assistiu a uma peça de teatro dela, ele não se incomodava e ela levava a vida dela como era queria. E aí eu fui criada de uma forma bem liberal mesmo. A vida dela ela administrou como ninguém, sempre alegre e feliz da vida, e fez um ótimo trabalho na direção da Escola de Teatro também. Em plena ditatura ela deu fuga pra muita gente, ajudou a todos que podia”, relatou Susan.

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Roberto Santana, que foi aluno e amigo de Nilda, contou: “Ela me expulsou da Escola, eu, Harildo Déda e José Carlos Capinam, de uma vez só. Mas nós três voltamos e ficamos amigos dela. Eu era amigo de farra, corria todos os lugares da noite da Bahia com ela, e homem nenhum nunca a desrespeitou. Era uma outra Bahia e vivemos momentos memoráveis”.

O projeto Mestras e Mestres da Cena em homenagem ao centenário de Nilda Spencer segue nesta terça-feira (7), às 18h, no Teatro Martim Gonçalves – Escola de Teatro da Ufba. O evento é gratuito e aberto ao público. Saiba mais aqui!

Fotos: Lucas Malkut