#EscritasEmTrânsito - Juazeiro recebeu a oficina “Escrever é estar vivo” com Itamar Vieira Junior

13/11/2023
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“Escrever é estar vivo” foi o tema da oficina do Escritas em Trânsito que aconteceu no último final de semana no Centro de Cultura João Gilberto, em Juazeiro, norte da Bahia, com o escritor Itamar Vieira Junior. Estudantes, professores, autores publicados, aspirantes, e pessoas de profissões diversas contemplaram os três dias do Escritas em Trânsito, promovido pela Coordenação de Literatura da Diretoria das Artes da Funceb, unidade vinculada à Secretaria de Cultura.

A oficina teve início na última sexta-feira (10) e foi aberta pela coordenadora de Literatura da Funceb, Karina Rabinovitz, que apresentou um panorama geral do Escritas em Trânsito desde a sua primeira edição, há 11 anos. “É uma honra estar com Itamar, e é incrível poder celebrar 11 anos de projeto. Desde 2017, recebemos pessoas do interior para participar das oficinas em Salvador, mas pela primeira vez vamos ao interior com essa oficina”, declarou Karina.

A diretora das Artes da Funceb, Gabriela Sanddyego, destacou que “é uma alegria poder levar o Escritas em Trânsito para o trânsito, de fato. Trazer um autor que é nosso, um autor baiano, tão reconhecido nacional e internacionalmente, mobilizou tantas pessoas a estarem aqui com a gente, isso é valorização dos nossos”.

Esta foi a primeira vez que Itamar fez uma oficina presencialmente, ele aproveitou para contar um pouco da sua história e compartilhar o seu processo criativo. “Sou apaixonado por literatura, e para mim são muito importantes esses encontros e essa troca. Aprendi a ler e escrever aos 5 anos e desde então já comecei a escrever histórias, no entanto, ser escritor no meu meio social era algo impossível.”

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O primeiro livro que Itamar publicou foi através de um edital da Funceb, o “Oração ao Carrasco”, mas se revelou um fenômeno literário a partir do romance “Torto Arado” (2019), que figura regularmente entre as listas de mais vendidos e venceu os prêmios Jabuti e Oceanos – maiores prêmios literários de língua portuguesa.

O autor também recebeu o Prêmio Leya, por unanimidade, com o romance Torto Arado, que também foi traduzido para mais de 10 idiomas e está ganhando adaptação teatral e audiovisual. “Quando enviei Torto Arado, sob pseudônimo, para o Prêmio Leya, não esperava ganhar, e mal acreditei quando recebi uma ligação falando do resultado”, relatou Itamar. Durante a Oficina, o autor compartilhou um pouco do seu processo criativo, a maneira como vê a literatura e como ela se apresenta a ele.

“Para escrever a gente precisa sentir, sentir alteridade, se colocar no lugar do outro. Nós construímos os personagens bloquinho por bloquinho para formar uma parede. Talvez a coisa mais importante da história seja a personagem, e a literatura nos permite imergir no cotidiano das personagens. Elaborar uma ficção é ter essa capacidade de evocar memórias também, de imaginar”, destacou o autor durante a oficina.

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A construção das personagens foi um dos subtemas da atividade: “a personagem é ação. E a ação se faz através do intercâmbio entre as personagens. O enredo se desenvolve a partir da personagem, e não o contrário”.

Na ocasião, os participantes tiveram um momento dedicado à escrita e ao compartilhamento com a turma.

Itamar, inclusive, já participou de algumas oficinas do Escritas em Trânsito, e agora retorna à casa ministrando a oficina enquanto escritor. “Esse momento, esse espaço de criação literária, de personagens, juntando pessoas com origens e trabalhos tão diversos, isso pra mim é muito importante, mostra o quanto ainda tem pujância criativa no estado, o quanto temos de pessoas interessadas em literatura e em escrever. O Escritas nos traz essa possibilidade de intercambiar saberes, falarmos de escrita criativa, e quem sabe não saiam escritores dessa oficina e a gente possa ter a Bahia representada no cenário literário nacional. Vida longa ao Escritas em Trânsito”, finalizou Itamar.

Participação

Euclides da Cunha, Piauí, Jacobina, Uauá, Petrolina e Casa Nova são apenas alguns dos locais de onde as pessoas saíram para poder participar da oficina. Fotógrafos, psicólogos, jornalistas, acadêmicos, pedagogos, e até mesmo engenheiro e corretor de imóvel, participaram da oficina de escrita literária.
A psicóloga Maria da Ajuda revelou que foi a primeira vez que participou de uma oficina literária. “Há alguns anos participo de um grupo de leitura, e fui compreendendo a importância que a literatura tem pra mim”.

A professora Juçara Maria revelou que estava na oficina por um respiro, um momento de acalanto em sua rotina tão pesada. “Trabalhar dando aula é dar tudo de si, e chega um momento que a gente se sente sugado, é nadar contra a correnteza todos os dias. Sou professora na zona rural, onde existem muitos casos de pedofilia e abusos, e circulando ‘Torto Arado’ entre as minhas alunas, algumas delas se identificaram com a história e puderam perceber a situação de abuso a qual estavam inseridas. É um escritor que tem nossas referências, que fala para nós.”

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O estudante de Jornalismo, Jônatas Pereira, revelou: “Têm sido dias bem felizes pela chance de conhecer o Itamar, mas também por sentir que tem sido um espaço de diálogo, de compartilhar nossas experiências, de perceber como é o processo de escrita dele. A gente só vê a obra pulicada, mas é um longo processo, é árduo, leva anos até chegar onde ele chegou, mas que é possível. É interessante perceber como as pessoas têm compartilhado esse desejo de escrever, mas também muitas vezes têm o sentimento de vergonha, porque muitas vezes o ato de escrever é como se despir, e aceitar isso leva um tempo. Foi realmente muito positiva e enfim descobrir esse ‘estar vivo’ que a escrita proporciona.”
Figura já conhecida na região, Dia Nobre, participou da oficina “Escrever é estar vivo” com Itamar Vieira Junior. Escritora e historiadora, já publicou o seu primeiro livro de contos “No útero não existe gravidade”, e no ano que vem lançará seu primeiro romance pela Companhia das Letras.

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“Vim para oficina não só por ser Itamar, uma grande referência pra mim, mas também eu acho que oficinas de escrita são lugares muito propícios pra gente estabelecer conexões, questionar a nossa própria escrita, aprender com os outros, acredito muito que a escrita se faz na troca, no compartilhamento de experiência, na leitura para escutar o que o outro acha do seu trabalho. O Escritas em Trânsito é muito profícuo para integrar as pessoas que vivem no interior a esse universo, que parece às vezes muito distante, e perceber que temos muitos talentos aqui, muitos potenciais que às vezes ficam esquecidos por causa dessa lógica entre capital e interior”, contou a escritora.

As oficinas do Escritas em Trânsito seguem agora para Lençóis, na Chapada Diamantina, com a escritora Amara Moira ministrando “Textos Impossíveis”.

Fotos: Lucas Malkut