Primeiro final de semana do Novembro das Artes Negras da Funceb – 7ª edição contou apresentações artísticas em Alagados

11/11/2024
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Cia Five

Espetáculos de Dança, mostra da Oficina de Teatro e apresentação de espetáculo teatral marcaram a programação no Espaço Cultural Alagados

O fim de semana foi profundo e transformador no Espaço Cultural Alagados, onde houve o início das atividades da 7ª edição do Novembro das Artes Negras, promovido pela Fundação Cultural do Estado da Bahia, unidade vinculada à SecultBA. A programação contou com apresentações de dança e espetáculos teatrais nos dias 9 e 10 de novembro. 

No sábado, a programação começou com apresentação do espetáculo de dança “Como continuar aqui?!”, dirigido, coreografado e apresentado por Hainner Souza e pela Cia Five, coletivo de artistas negros, periféricos e independentes. Na ocasião, o grupo mostrou toda a irreverência e importância dos guetos e favelas dos subúrbios baianos e metropolitanos através do pagode baiano. 

“Sou uma bicha preta, fora do padrão estético que está fazendo arte, fomentando, trazendo pessoas pretas, pessoas da comunidade gay e também periféricas. O projeto é um questionamento de ‘como a gente vai continuar dançando’, ‘como a gente vai continuar tendo dinheiro para ir para às aulas, para se formar, se especializar na dança’, ‘como uma mãe atípica consegue continuar’. Trazemos músicas do pagode baiano que falam sobre marginalidade, racismo, que trazem atenção para as comunidades”, destacou Hainner.

Em seguida, houve a mostra da Oficina de Teatro com Caw Bomfim, que aconteceu durante as oficinas do Novembro das Artes Negras da Funceb, iniciadas em outubro. O espetáculo apresentou questões profundas e reveladoras das atrizes e atores no palco, revelando um jogo que partiu do diálogo entre corpo individual e corpo coletivo. 

“Foi um processo muito revelador, comecei sem muita pretensão entendendo que eu tinha gerações diferentes para trabalhar, uma turma de 27 pessoas, de 12 a 71 anos, e fiquei buscando qual o tema uniria todas essas gerações. O tema que escolhemos foi Ancestralidade, para falar sobre nós, nossas identidades, histórias e vivências de vida, e aí vieram também todas as dores do racismo, e um processo de cura se instaurou no processo, era visível que as pessoas estavam falando de si e se curando durante o processo”, destacou Caw Bomfim. 

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Mostra da Oficina de Teatro com Caw Bomfim

Rita de Cássia Nascimento, 65 anos, participou da oficina e da mostra de teatro com Caw Bomfim, graduada em psicologia pela UFBA, atualmente trabalha com Biodança e resolveu se aventurar no Teatro diante da oportunidade. “Para mim foi uma bênção da ancestralidade, eu já venho trabalhando com processo de cura de mulheres negras através da dança, e Caw veio para confirmar esse caminho, então foi uma experiência fantástica, fiquei muito encantada com o grupo e com a habilidade dele trabalhar com as três gerações, e ainda assim conseguimos uma harmonia e uma sincronia que nos emocionou e nos curou”, declarou Rita. 

Augusto Mazza, de 36 anos, também integrou a apresentação teatral. “Desde 2018 tenho feito aulas e oficinas de teatro, comecei na Funceb, inclusive. De todas que eu participei, essa teve um significado especial, estaria no topo da minha lista, pois fala de ancestralidade, sobre cura, questões espirituais. Estou muito feliz pois levamos pro palco um espetáculo muito bonito, acho que muita gente entendeu os seus próprios processos de cura e de conexão.” 

Jamira Alves Muniz, coordenadora do Espaço Cultural Alagados destacou: “Trazer a Funceb aqui tem uma importância muito grande para nós. Já fiz diversas oficinas e ações junto à Funceb, entrei em 2009 na coordenação do espaço junto à Funceb. Então agradeço à instituição por estar dando a oportunidade da gente seguir contando histórias daqui.” 

Adriele Silva foi assistir às apresentações do primeiro dia do Novembro das Artes Negras da Funceb – 7ª edição: “Gostei muito das apresentações de hoje, vim prestigiar minha mãe que estava na peça e me surpreendi com a programação”.

Bruno Morais também esteve em Alagados no sábado: “Gosto muito de vivenciar as coisas que acontecem aqui no espaço, de teatro, de dança, e as apresentações de hoje foram muito tocantes e especiais. 

Dandara

No domingo (10), com uma plateia completamente lotada, o Espaço Cultural Alagados ultrapassou a sua capacidade, recebendo mais de 80 pessoas com idades desde os 2 anos até adultos e idosos. A animação tomou conta de todos já no início do espetáculo infantojuvenil “Dandara na Terra dos Palmares”, da Arte Sintonia Cia de Teatro, que se apresentou pela primeira vez no bairro. 

A diretora das artes, Gabriela Sanddyego, abriu sua fala institucional colocando todo mundo para mexer o corpo e interagir com o fazer artístico. No decorrer do espetáculo, muitas risadas e momentos de reflexão e espanto. Para a mãe de uma das crianças presentes no espetáculo, Savana Talita Ferreira, 24 anos, autônoma, “é muito interessante e importante, principalmente em um bairro como o Uruguai, para acabar com o racismo e o preconceito. Espero que venha mais vezes”, afirmou.

“Esse espetáculo é uma riqueza. Fiquei emocionada por poder trazer essas crianças de um lugar que, muitas vezes, elas não saem. Eu fui de porta em porta e ver essas crianças se relacionando, se identificando foi um presente. Agradeço à Funceb por acreditar que esse território tem uma potência e à Funceb por trazer as artes pra dentro do espaço”, celebrou a coordenadora do Espaço Cultural Alagados Jamira Alves Muniz.

O diretor e idealizador do figurino, cenário e maquiagem de “Dandara na Terra dos Palmares”, Agamenon de Abreu, já tem uma relação com o Espaço Cultural Alagados de longas datas. “Conheço há muitos anos quando ainda sediava o teatro amador. Com essa nova configuração, acho que só teve a aprimorar. É um espaço de resistência e de suma importância para tudo que podemos ter de manifestações culturais. O público estava muito atento e teve uma interação muito grande. As questões abordadas no espetáculo chegaram de uma forma muito significativa”, acrescentou.

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Dandara na Terra dos Palmares

“A cultura pode ser feita e construída a partir da criança ao idoso e foi isso que aprendi aqui. Adorei a peça, pois ela resgata a nossa ancestralidade e nos diz que tudo é possível. Vocês estão de parabéns, por que nos mostra que não é só no dia 20 de novembro, mas que todos os dias podemos comemorar dando consciência a nós e a nossa população”, declarou Maria de Lourdes da Conceição, 69 anos, colaboradora da Associação de Moradores Santa Luzia.

A atriz mirim Maria Alice Xavier, que faz a personagem Dandara menina, diz que “o projeto é muito importante, por que as crianças da comunidade às vezes não tem acesso ao teatro e trazer para elas e ver o brilho nos olhos é muito relevante. A gente sabe que o espetáculo fala sobre ancestralidade e tem muitas crianças que não sabem as suas raízes. Foi muito gratificante e eu amei o retorno das crianças”, comemorou.

Já para a experiente atriz Denise Correia, que já tinha se apresentado no espaço em outras ocasiões e retornou fazendo o papel da Dandara adulta e avó, “foi muito emocionante voltar aqui e ver a carinha das crianças curtindo e saboreando o espetáculo, especialmente nesse mês, que falamos das nossas invisibilizadas, das nossas rainhas, mostrando a importância de Dandara e da valorização da nossa ancestralidade”, destacou.

“Mostrar para essas crianças tão carentes de cultura e de arte que eles precisam conhecer e se identificar vendo essa história foi muito importante”, ressaltou Gilson Garcia, ator da  Arte Sintonia Cia de Teatro há mais de 20 anos e que encena o divertido Caco Macaco. 

Ao final, a diretora das artes perguntou se tinha alguma Dandara entre o público. E não é que tinha. A pequena Dandara Soares, de 8 anos, se apresentou. Quando perguntada quem a nomeou, ela logo revelou: “foi minha mãe que botou meu nome. Quando vi o mesmo nome achei muito bonito”, disse. 

Ainda teve comemoração de aniversário de Fabrício de Jesus Souza, que estava completando 8 anos e recebeu as felicitações de toda a plateia, além de ter os parabéns cantados na voz de Denise Correia. “A parte que mais gostei foi todo o tempo. Me sinto muito feliz”, celebrou o menino. Um domingo para marcar na memória de todas as pessoas presentes na grande festa da cultura.

O novembro das Artes Negras segue até 1º de dezembro em diversos pontos da capital baiana com apresentações gratuitas em todas as linguagens artísticas. Confira aqui a programação completa. 

 

Fotos: Felipe Martins