Dezenas de pessoas lotaram o Cine Teatro Solar Boa Vista no último final de semana durante o Novembro das Artes Negras da Funceb – 7ª edição. No sábado, a programação foi agitada pelo show VANDAL KONVIDAH Áurea Semiseria, Opanijé e Dnguni. Soteropolitanos de todos os cantos compareceram ao evento para prestigiar os renomados artistas do rap baiano. Já no domingo, houve Mostra da Oficina de Teatro com Robson Raycar.
Nome de peso na música baiana, Vandal era uma das atrações mais aguardadas do Novembro das Artes Negras da Funceb. O artista que emergiu das festas de largo da capital baiana, subiu ao palco mostrando toda a sua irreverência com canções autorais que trazem abordagem autêntica e direta à liberdade de expressão.
“O importante de eventos como esses é conseguir fazer o estreitamento de relações com o povo, mas o povo mesmo, que está batalhando ali no dia a dia, que é carente desse tipo de acesso pois existe uma lacuna muito grande, a arte tem que chegar dentro dos bairros, onde o povo mora. As pessoas precisam sair de casa e saber que ali perto está rolando alguma ação de lazer, de cultura”, ressaltou Vandal.
Sobre o show, ele ressalta: “O Vandal Kondvidah tem essa característica que mescla o passado, o presente e o futuro. Hoje tivemos Opanijé, que é referência máxima no rap, que trilhou o caminho para a gente estar fazendo o que a gente faz agora; a Áurea que é uma pessoa surreal, guerreira, que acabou de lançar um EP e veio apresentar as músicas dela; e Dnjuni, que é um artista do bairro que grava muita coisa”.
Outra atração da noite foi a cantora e compositora Áurea Semiseria, também conhecida como a Carreta da 11, que recentemente lançou seu primeiro EP ‘Semiseria’. “Na minha concepção, esse tipo de evento é importante porque está acontecendo durante o mês inteiro de novembro, e ter o Vandal Kondvidah acredito que seja muito relevante. Vandal é um artista do mainstream que convida artistas undergrounds para estar no show dele, e isso conversa 100% com o que ele fala sobre a favela, sobre o povo preto, sobre nossos ancestrais, e é por isso que ele tem uma grande massa de fãs que se parece tanto com ele, comigo. É uma honra estar nesse evento aqui hoje, eu sou muito fã dele desde criança. Se eu não estivesse na line, com certeza estaria no público aqui hoje”, relatou Áurea Semiseria.
Artista de rap e morador do Engenho Velho de Brotas, Dnguni foi a atração local convidada por Vandal para o show. “Ser a voz disso aqui, desse espaço, ninguém melhor para falar de sua casa do que quem habita nela. Tive o prazer de ser convidado por Vandal para esse projeto da Funceb que acredito que vai furar a bolha, porque às vezes a gente só precisa de uma iniciativa, um primeiro passo, que já foi dado aqui essa noite. Trouxe meu filho aqui hoje para ele ter essa referência, nós vivemos aqui, frequentamos esse espaço, é importante ocupar”, destacou Dnguni.
Por fim, o grupo Opanijé, que tem quase 20 anos de história, trouxe toda a sua mistura musical que une os atabaques baianos ao hip-hop nova-iorquino em suas canções. Lázaro, rapper do grupo, ressaltou: “Esse evento aqui hoje remonta uma fase muito boa do rap baiano, que foi quando começou a ter eventos nos bairros. A partir dos anos 2000 começou a descentralizar a cena e ter eventos na Boca do Rio, Cosme de Farias, São Caetano, Cabula, Sussuarana, e isso foi se perdendo com o tempo. Então trazer esse evento de rap para um bairro como o Engenho Velho, que tem uma história negra, é algo que remonta não só essa época do hip-hop baiano, mas uma era de resistência negra, daqui surgiu o Badauê, o Afoxé Luaê, é um bairro com uma história negra, trazer o rap, a nova geração, é algo realmente incrível, é um bairro com uma história preta.
Luana Santos aproveitou o sábado curtindo o show de Vandal no Novembro das Artes Negras: “eu sou muito fã, e ter ele tocando aqui pertinho de casa, ainda gratuito, é muito importante. Confesso que não frequento muito o espaço, mas não poderia deixar de prestigiar o show”.
Artur Monteiro também costuma frequentar shows de rap pela capital baiana: “acompanho a cena a muito tempo, especialmente Vandal, que não perco um show. Vim de longe hoje para curtir o evento, nunca estive aqui no Cine Teatro, mas gostei bastante do espaço e espero que continue havendo eventos como esse”.
Domingo
Após um mês de aulas realizadas em outubro de forma gratuita pelo ator, oficineiro e Coringa do Teatro do Oprimido, Robson Raycar, alunos com idades entre 17 e 55 anos mostraram o resultado na Mostra Oficinas de Teatro “Um fio para liberdade” no domingo (17), no Cine Teatro Solar Boa Vista, em Engenho Velho de Brotas. Integrando a programação da 7ª edição do Novembro das Artes Negras, da Fundação Cultural do Estado da Bahia, o evento celebra o mês da Consciência Negra e contempla a produção artística negra nas diversas linguagens.
“Trouxemos uma responsabilidade para a mostra dessa oficina muito grande, pois tocamos em temas delicados que não são muito discutidos no seio da família. Existe uma tensão na cena, mas eu acho que o teatro nasceu pra dialogar sobre essas coisas. Estamos muito felizes com a mostra final”, avaliou Robson Raycar. Para o coordenador do Cine Teatro Solar Boa Vista, Wilson Junior, “é muito gratificante estar aqui nesse espaço tendo a oportunidade de estar mostrando a arte e a cultura. Estou fazendo a luz do espetáculo também e é muito bom ver o fruto de tudo isso”, comemorou.
Com cenas fortes, o elenco composto por Ariele Pétala, Rafael Bittencourt, Oif, Yure Passos, Iani Sued, Raphael Ruvenal, Jefe Gonçalves, JR, Maralis Ribeiro, Roseane Rodrigues Pretto Jai e trilha sonora ao vivo dos músicos Anderson Capacete e Carlitos Vasconcelos, o trabalho suscitou muita reflexão acerca de uma triste história que, infelizmente, envolveu uma das participantes da oficina na vida real.
O relato de Iani Sued, 37 anos, neodesign, durante as aulas de teatro, inspirou todo o ato cênico, comovendo plateia e elenco nos 40 minutos de apresentação. A cena narra a história de Lorena, uma adolescente aspirante da liberdade, amante das artes que, através da declamação de seus poemas, desabrocha sua veia artística e o empoderamento feminino. A jovem vive uma relação conflituosa com sua mãe, envolvendo problemáticas de uma cultura machista e abuso.
“Vim através da minha tia, pois seria um momento de modificar pensamentos e atitudes. Na hora da escolha da cena para a mostra, o grupo pediu para que a minha história pudesse ser contada, considerando que era a mais tocante. Qual seria a dor e os sentimentos que teria como mãe, já que hoje sou mãe de três meninas, o que essa mãe quando olha poderia fazer ou o que eu gostaria que minha mãe sentisse naquela hora foram perguntas que passaram pela minha cabeça”, refletiu Iani Sued.
O palhaço e ator Raphael Ruvenal, 37 anos, integrou à mostra e já conhecia Robson e a importância do seu fazer artístico. “Eu o conheci em uma oficina que eu comecei a fazer teatro e tive a oportunidade de participar de uma peça com ele. Fazer essa oficina com ele foi maravilhoso e o Teatro do Oprimido era algo que eu já vinha pesquisando, pois também tem a ver com a palhaçaria. Nessa relação opressor oprimido, dialogam muito. Foi bacana trocar com as pessoas e ouvir a história de uma colega, onde hoje ela pode estar vivendo isso de outra maneira”, destacou.
Completamente impactado emocionalmente, o público foi convidado pelo oficineiro a interagir ao final, sugerindo de que forma aquela situação poderia ser “parcialmente” resolvida, como uma estratégia proposta pelos jogos do Teatro do Oprimido. Nesse momento, muitas colocações interessantes foram abordadas e pessoas realmente entraram em cena, ressignificando a história. Para Mateus Sales, 39 anos, supervisor de manutenção, “a peça sugere diversos temas, inclusive para que tenhamos atenção entre todos, principalmente a proteção que vem dos pais”, afirmou.
A jovem atriz Ariele Pétala, 17 anos, que também é trancista, poeta, maquiadora, dançarina e modelo, fez o papel da protagonista com um texto autoral, emocionando não só as pessoas presentes, mas também o professor, fazendo uma profunda declaração ao término do espetáculo. “Ele me mostrou que existem vários lados da moeda. O Teatro do Oprimido trabalha as nossas frustrações e faz com que todos se sintam representados. Robson me fez entender que não posso me calar e preciso falar por todas elas, e que o mundo ainda vai ouvir a minha voz. Foi umas das melhores oficinas que já participei em toda a minha vida”, declarou.
Pela primeira vez, o Novembro das Artes Negras da Funceb está em itinerância pela capital baiana. Já passou pelo Centro Cultural Alagados e Cine Teatro Solar Boa Vista, e chegará ao Colégio Estadual Barros Barreto, em Paripe e na sede do Malê Debalê, em Itapuã. Confira a programação completa AQUI!
Fotos: Felipe Martins