O Colégio Estadual Barros Barreto, em Paripe, e o Cine Teatro Solar Boa Vista, no Engenho Velho de Brotas, receberam mais um final de semana agitado pelo Novembro das Artes Negras da Fundação Cultural do Estado da Bahia, unidade vinculada à SecultBA.
Na quinta e sexta-feira (21 e 22/11) da semana passada, a programação aconteceu em Paripe com performances, shows e apresentações teatrais. Já no sábado, a programação retornou ao Cine Teatro Solar Boa Vista para apresentação do espetáculo Santana, do grupo teatral DAN – Território de Criação.
O subúrbio ferroviário de Salvador ficou animado no Colégio Estadual Barros Barreto, localizado no bairro de Paripe, na quinta-feira (21). É que estudantes, professores e toda a equipe receberam atividades artísticas que integram a 7ª edição do Novembro das Artes. O evento iniciou às 15h com a performance do professor, escritor, performer e poeta Nelson Maca.
O recital intitulado ‘Thank You Exu’ reuniu poemas sobre o orixá Exu, mesclando apresentações de grafitti e DJ, além da participação da sua filha, a poeta Lúcia Maca. Participando do NAN pela primeira vez, Nelson disse que “foi uma honra quando fomos selecionados no edital, porque eram mais de 100 projetos concorrendo e nós ficamos entre os três em Salvador. É sinal de que as gestões estão atentas a esse grande movimento que é a literatura, os saraus, os slam’s e é muito bom saber que pessoas das artes negras também estão contempladas”.
Considerando o seu trabalho complexo, o artista afirmou que “questões sobre racismo, preconceito e mitificação das nossas religiões são muito importantes, e estarmos em eventos que estão no calendário oficial do Estado demostra que nossas discussões estão sendo pautadas de maneira política para todos. O tema gera uma tensão, então nós mostramos outras facetas, outras imagens. Quando eu choco as pessoas é tão legal quanto agradar ou receber aplausos, por que quando elas refletem, aí funcionou”.
Com uma plateia recheada de estudantes atentos, cada movimento dos artistas despertaram olhares curiosos acerca do que estava sendo declamado e grafitado, em tempo real, tudo muito sincronizado. “Achei gratificante e importante ressaltar a ancestralidade e a cultura africanas nas escolas. Precisamos de mais apresentações como essa”, ressaltou o estudante Gabriel Reis, 18 anos. Para Alana Vitória, 17 anos, estudante, “é muito interessante trazer a cultura para a sala de aula, indo além das atividades escolares”, declarou.
Às 19h, o auditório do colégio foi palco para o show ‘Reggar’ de Riane Mascarenhas. A noite foi ainda mais especial para a cantora, compositora e baixista, pois foi seu show de retorno após dois meses de se tornar mãe. “É a primeira vez que toco depois da maternidade, então esse show está sendo um recomeço, uma reabertura de oportunidades e fiquei muito feliz quando soube que passei no edital, sobretudo por ser aqui em Paripe. Eu queria dar à luz em uma maternidade daqui, mas minha filha Céu escolheu nascer em outro lugar, mas voltei em grande estilo”, celebrou.
Na apresentação, foram interpretados clássicos do reggae nacional e internacional e canções autorais, entre elas, um trabalho inédito chamado “Nascer Mãe”, resultado da sua nova experiência de vida. Para homenagear seu fruto, a artista escolheu lançar a música em primeira mão, surpreendendo a todos. “Pra mim é uma honra mostrar às pessoas de periferia, onde majoritariamente são negras, que é possível viabilizar e oportunizar que elas tenham acesso à arte e que possam se comunicar com os artistas. Hoje foi um marco”, afirmou.
“Adorei o show e as palavras cantadas. Achei muito motivacional. Que tenha mais vezes aqui no colégio coisas que nunca vi acontecer que são esses shows”, disse o estudante Adonias Portugal, 18 anos. “Achei maravilhoso. É a primeira vez que vejo Riane e amei. Espero que aconteça mais”, torceu a estudante Evelin Souza, 22 anos.
Para Rui César Cerqueira, geógrafo e gestor do Colégio Estadual Barros Barreto, “receber o NAN foi uma oportunidade que tivemos de empoderamento, de buscarmos a nossa arte negra, onde todos possam vivenciar nossa história, que é riquíssima. As atrações foram todas de excelente qualidade. Ficou todo mundo maravilhado”, declarou.
Na sexta-feira (22) a programação teve seguimento no Colégio Estadual Barros Barreto. O evento começou à noite com a apresentação da performance cênica ‘O museu é a rua’, do Grupo de Arte Popular A Pombagem. O espetáculo traz a reivindicação da rua como espaço de comunicação, memória e aprimoramento das práticas culturais.
“Estamos muito entusiasmados com a nossa participação no Novembro das Artes Negras da Funceb, sobretudo no momento em que a Funceb está circulando pela cidade, dialogando com coletivos da periferia. Fazer esse evento num colégio público de Paripe é uma coisa que me encantou muito, é sobre intercâmbio de saberes periféricos, de culturas de rua. Nós somos um grupo de arte de rua e hoje propomos uma atividade de espelhamento, no qual essa juventude que está aqui hoje vai se reconhecer, ser protagonista”, disse Fabrício Brito, diretor do grupo de Arte Popular A Pombagem.
Sobre o espetáculo, ele revela: “Estamos cansados de ver museus cujas obras não dialogam com a população preta e periférica, e essa população não se reconhece nesses acervos. Por isso nós criamos ‘O museu é a rua’ no intuito de mostrar que o espaço público apresenta essa diversidade cultural, e inclui valores, talentos. Entendemos essa apresentação como uma troca muito saborosa entre os nossos”, disse.
Em seguida, foi a vez de Sulivã Bispo dar vida à ‘Koanza: do Senegal ao Curuzu’. Na peça de teatro a personagem volta à Bahia após um tempo morando na África com a missão de combater o crescente domínio do cristianismo dos discursos que se voltam contra os cultos de matriz afro-brasileira.
“É o segundo ano que participo do Novembro das Artes Negras da Funceb, participei há alguns anos com Kaiala e agora volto com Koanza. Fico feliz de saber que a arte preta feita na Bahia está circulando, saindo do centro da cidade, estando em outros lugares. E Koanza fala muito sobre isso, sobre Senegal, sobre África, sobre Bahia, Salvador, Curuzu, Brooklyn, e eu acredito que a periferia, o subúrbio ferroviário tem muito de Curuzu, de África, de Senegal. Aqui também tem uma concentração muito grande de pessoas pretas, de terreiro, então trazer o teatro, para além do físico, é muito importante”, destacou Sulivã.
A professora Priscila Novaes destacou: “Primeiro gostei da iniciativa de descentralizar esses fomentos, essas programações, é importante estar aqui no subúrbio pra essa galera que não tem tanto acesso, isso é potente, isso nos reafirma. E a gente tem essa necessidade pois estamos percebendo muitos retrocessos e essa geração precisa ser municiada”.
Maise Balbino, também professora, relatou: “É uma iniciativa fantástica que deve se repetir não só novembro negro, mas em outras oportunidades que puder, sempre vir no subúrbio. É preciso também sempre dar voz a esses artistas, literalmente da cuia na mão, que precisam fazer teatro de dia para jantar de noite. Que a gente popularize essa cultura popular, que a gente democratize esses espaços, então eu fico maravilhada e esperançosa, sobretudo, quando eu vejo essas programações tão acessíveis, tão bacanas”.
Cine Teatro Solar Boa Vista
A programação no Engenho Velho de Brotas começou na última semana, mas neste sábado (23), o Cine Teatro Solar Boa Vista mais uma vez abriu as portas para a Funceb e recebeu a 7ª edição do Novembro das Artes Negras. Dezenas de pessoas lotaram o teatro para assistir ao espetáculo ‘Santana’, do grupo DAN – Território de Criação.
O espetáculo, protagonizado por Arlete Dias, Evana Jeyssan e Naira da Hora, contou a história de Cremilda, Nália e Marta, três mulheres negras, uma mãe e suas duas filhas, moradoras do Engenho Velho de Brotas que se sustentam servindo quentinhas. Até que Nália decide ser artista do samba junino e causa uma revolta na família dessas mulheres, desvendando relações com o passado, com a ancestralidade e o próprio samba.
Para Naira da Hora, atriz do espetáculo: “o Novembro das Artes Negras é muito importante na nossa cidade, e a cada ano que passa, que se tenta ampliar esse projeto, se torna mais importante. Então quando a gente sai do centro da cidade consegue trazer o Novembro das Artes Negras para as comunidades, e conseguir trazer artistas que têm obras sobre a comunidade, é ainda mais importante. É muito importante que a comunidade de veja, então trazer ‘Santana’ para o coração do Engenho Velho de Brotas é importante para o resgate da identidade, para autoestima, e acabei de receber esse feedback, da importância da gente se ver e se reconhecer nas obras artísticas”.
Já Daniel Arcades, diretor do espetáculo, “quando a gente pensa no território, a gente mapeia a geografia, mas também mapeia o sentimento das histórias dessas pessoas. Então acho que ‘Santana’ está pronto para se comunicar onde ela for, porque a gente recebeu o abraço desse território onde o espetáculo foi criado. Ver a comunidade aqui assistindo, se identificando com a história produzida a partir de uma dramaturga aqui do bairro, é muito importante”.
Antônia Pereira foi prestigiar o espetáculo junto com um grupo de amigas: “é sempre bom vir ver histórias, rir, se divertir. É a primeira vez que venho no Solar e gostei muito do espaço”.
Já o professor Bira, do IFBA, também compareceu ao Solar para conferir o espetáculo. “O Samba Junino faz parte da minha trajetória, agradeço a Funceb, a Secult por manter esse teatro aqui tão importante pro bairro. Os personagens de ‘Santana’ são muito vivos, são personagens que a gente conhece, isso fortalece a identidade e a representatividade. Eu venho pro samba junino do engenho velho de brotas desde muito novo, então as figuras são conhecidas, é emocionante, além de ter uma riqueza, um show de interpretação das atrizes, como tudo foi pensado pela direção, a dramaturgia, acho que todos os estudantes de escolas públicas deveriam vir.”
O Novembro das Artes Negras da Funceb segue para o seu último final de semana, na sede do Malê Debalê, em Itapuã, dias 30 de novembro e 1º de dezembro. CONFIRA A PROGRAMAÇÃO.
Fotos: Felipe Martins