Na cidade onde o São João não é apenas festa, mas matéria-prima da alma, nasceu um projeto que ousa o silêncio da pressa para escutar os ecos da tradição. Cruz das Almas, no coração do Recôncavo Baiano, reconhecida como a capital baiana do São João, agora ganha um retrato poético e audiovisual em “Declamando São João” idealizado e dirigido pela agente cultural, publicitária e mestranda da UFRB Angélica Baldas, com direção de produção de Renato dos Reis, estudante de Cinema e Audiovisual da UFRB. Cruz das Almas, é uma cidade onde o São João não se encerra em junho. Ele vibra nas calçadas, ecoa no comércio, pulsa no cotidiano. E foi dessa certeza - a de que a cultura junina vive todos os dias - que nasceu o projeto audiovisual Declamando São João.
Contemplado com recursos da Lei Paulo Gustavo Bahia, via Secretaria de Cultura do Estado, o projeto se ergueu sem apoios institucionais locais e contou com uma equipe reduzida, mas profundamente comprometida com a missão: ressignificar o forró tradicional por meio da declamação e da valorização da cidade.
Ao longo de dez episódios curtos, a cidade vira cenário, palco e personagem. As praças, a Feira Livre, a Rua da Estação, a Catedral Nossa Senhora do Bom Sucesso, a Reitoria da UFRB, o Paço Municipal, o Coreto, a Vila Alzira, a entrada da cidade, o Circuito Luiz Gonzaga - todos esses espaços, escolhidos por sua carga simbólica, se tornam cúmplices da arte. Neles, os versos ganham voz e os clássicos do forró tradicional são declamados com a reverência de quem sabe que está tocando em raízes fundas.
Foram produzidos 10 episódios - publicados entre 22 e 31 de março de 2025 no Instagram, Tiktok e Youtube - com cerca de 3 minutos cada. Em cada um deles, a atriz Mariana Passos, bacharela em Artes Cênicas pela UFBA, interpreta com força e delicadeza músicas icônicas do repertório junino nordestino. Os vídeos não são meras apresentações: são poemas encenados, uma fusão entre literatura, teatro, música e paisagem urbana.
Foram escolhidas 10 músicas, todas ícones do São João tradicional, escritas por compositores que souberam extrair poesia do chão rachado e das lutas do povo nordestino. A seleção incluiu obras de Humberto Teixeira, Hervé Cordovil, João Silva, Zé Marcolino, Rosil Cavalcanti, Cecéu, Antônio Barros, Anastácia e Dominguinhos. Os intérpretes das músicas são os pilares do forró tradicional: Luiz Gonzaga, Marinês e Jackson do Pandeiro. Seus repertórios foram escolhidos com base em sua força popular nos festejos juninos e por dialogarem com os cenários onde foram declamados.
A escolha não foi aleatória. As músicas declamadas não apenas embalam o São João há décadas, mas também estabelecem diálogo profundo com os cenários. Um exemplo comovente é o episódio final, gravado na Reitoria da UFRB, com a música “Cheguei pra ficar” (de Anastácia e Dominguinhos, eternizada por Marinês), onde os versos de chegada e permanência ganham novo sentido em frente à instituição que representa o futuro do Recôncavo há 20 anos.
Além da encenação, cada vídeo apresenta um pequeno registro histórico - seja um relato sobre a música, seja um comentário do artista ou do compositor - que agrega contexto e profundidade emocional à obra. O formato da declamação permite que o público se conecte de forma mais intensa com as letras, que por vezes podem não ter sido percebida no ritmo do forró.
Cada episódio é legendado, acessível e permanente nas plataformas Instagram, TikTok e YouTube pelo perfil @declamandosaojoao. A atriz Mariana Passos, bacharela em Artes Cênicas pela UFBA, assina as performances que, com teatralidade e sentimento, aproximam o público jovem das canções - não por nostalgia, mas como sinal de pertencimento.
Episódios e cenários:
“A Vida do Viajante” – Luiz Gonzaga e Hervé Cordovil
Local: Entrada da Cidade de Cruz das Almas
(https://www.instagram.com/reel/DHhQ1GTPGea/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==)
“Asa Branca” – Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira
Local: Praça da Catedral de Nossa Senhora do Bom Sucesso
(https://www.instagram.com/reel/DHkCrxOvSHP/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==)
“Dezessete e Setecentos” – Luiz Gonzaga e Miguel Lima
Local: Feira Livre - Mercado Municipal de Cruz das Almas
(https://www.instagram.com/reel/DHmXrXjPLOM/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==)
“Na Base da Chinela” – Jackson do Pandeiro e Rosil Cavalcanti
Local: Circuito Luiz Gonzaga – Espaço do São João
(https://www.instagram.com/reel/DHotslnyoDq/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==)
“Desabafo” - Cecéu (na voz de Marinês)
Local: Praça de Eventos Vila Alzira
(https://www.instagram.com/reel/DHraF15v-ja/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==)
“Numa Sala de Reboco” – Luiz Gonzaga e Zé Marcolino
Local: Rua da Estação (Circuito Murilo Sena) / Portão 1 da UFRB
(https://www.instagram.com/reel/DHt60Y6PSa7/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==)
“Pagode Russo” – Luiz Gonzaga e João Silva
Local: Paço Municipal
(https://www.instagram.com/reel/DHwkfxmPJbp/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==)
“Sou o Estopim” – Antônio Barros e Cecéu (na voz de Marinês)
Local: UFRB
(https://www.instagram.com/reel/DHy7BiNScQp/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==)
“Baião” – Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira
Local: Praça Senador Temístocles / Coreto (Circuito Othon Silva do São João)
(https://www.instagram.com/reel/DH1gQcdyxT3/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==)
“Cheguei Pra Ficar” – Anastácia e Dominguinhos (na voz de Marinês)
Local: Reitoria da UFRB
(https://www.instagram.com/reel/DH4jZlTPk7P/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==)
A proposta do projeto é mais que homenagem: é resistência. Uma tentativa de reconectar os jovens com a tradição, especialmente em tempos em que grandes festas cultuam mais os ritmos da pisadinha, do sertanejo pop e dos hits virais ocupando os espaços que um dia foram de Marinês, Jackson, Gonzaga. Muitos jovens da cidade sequer conhecem os nomes que embalam a raiz do São João.
Mas, ao mesmo tempo, Cruz das Almas resiste sendo solo fértil. De lá estão saindo jovens como Julinha Sanfoneira e Nino Sanfoneiro, herdeiros diretos da tradição inaugurada por Marinês, Gonzaga e Jackson, além de bandas que seguem fortalecendo a tradição como Sarapatel com Pimenta, Acarajé com Camarão e artistas como Jefinho Dias e Tamires Teles.
Todos os vídeos estão permanentemente disponíveis, legendados, no Instagram, TikTok e YouTube (@declamandosaojoao). A entrada da cidade, com “A Vida do Viajante”, foi o episódio mais comentado - um verdadeiro convite à saudade para quem mora longe e um novo olhar para quem vive perto, mas ainda não havia enxergado Cruz das Almas com olhos de poesia.
Em meio à divulgação do projeto, o forró sofreu uma perda irreparável: Antônio Barros, autor de mais de 700 músicas, parceiro inseparável de Cecéu e uma das penas mais férteis do nosso cancioneiro popular. Faleceu no domingo, 7 de abril de 2025, aos 95 anos. Ele que escreveu para Marinês, Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Elba Ramalho, Ney Matogrosso entre outros, para os palcos e para o povo, encerrou sua jornada deixando versos que ainda palpitam no coração do Nordeste. O projeto “Declamando São João” se torna também, assim, uma homenagem a esse mestre que soube narrar o Brasil de dentro pra fora e também uma despedida em forma de reverência.
Além das redes sociais, o projeto também ganhou vida nas escolas da rede estadual, como aconteceu no Colégio Estadual Landulfo Alves, no dia 9 de abril, alcançando jovens estudantes do 1º e 2º ano do ensino integral. Em tempos de algoritmos e ritmos de moda, o forró tradicional precisa ser apresentado como o que ele é: resistência, identidade e arte popular. A recepção foi calorosa, com o envolvimento da coordenação pedagógica, professores e oficineiros.
“Há quem diga que esses artistas não dialogam com a identidade de Cruz das Almas. Mas foi deles que brotou a linguagem do forró que hoje pulsa nas sanfonas da cidade. O projeto é um espelho. E às vezes, o mais urgente é ajudar a cidade a se reconhecer no próprio reflexo. Esse projeto é sobre fazer a cidade se ver e se ouvir. Cruz das Almas respira São João o ano todo, mas às vezes não percebe o quanto é rica culturalmente. Quisemos mostrar, com poesia, que tudo aqui tem história, tem raiz, tem canto", declara Angélica Baldas idealizadora do projeto.