O público que foi ao Largo Pedro Archanjo, no último sábado (7), teve uma experiência instigante ao assistir a oito performances teatrais que conseguiram provocar da reflexão ao riso em apenas 15 minutos cada. Essa foi a proposta do Cenas Curtas, que encerrou em grande estilo a programação do Verão das Artes, projeto promovido pela Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), unidade vinculada à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA).
Com abordagens diversas e criativas, artistas de toda a Bahia ofereceram uma difícil missão ao júri formado por Zeca de Abreu, atriz produtora e coordenadora de teatro da Diretoria das Artes da Funceb; Nildinha Fonseca, diretora do Centro de Formação em Artes da Funceb e pesquisadora de danças de raiz africana; e Mateusa Xavier, atriz, diretora e doutoranda em artes cênicas. O público também teve a oportunidade de votar, ajudando a eleger as três propostas mais bem avaliadas. Além dos troféus, o primeiro colocado levou R$1.000, o segundo recebeu R$700, e o terceiro, R$500.
Em uma performance poética e poderosa, o primeiro colocado foi Fyah: Do ódio ao amor, com a multiartista NegaFyah. Sozinha no palco, usando música e dança, a atriz capturou a plateia e emocionou falando das dores das mulheres negras e também da vulnerabilidade dos meninos negros. "Muito importante estar aqui no palco no verão. Geralmente, a gente que é do polo do teatro, da poesia, fica um pouco de canto desse espaço, então foi muito importante todo esse trabalho. Quero agradecer por esse prêmio. Que Oyá, Iemanjá, Xangô protejam a gente, parabéns a todas as pessoas que compartilharam o palco, foi lindo assistir às esquetes de vocês. O prêmio é nosso!", disse NegaFyah.
O belo troféu, criado pelo escultor baiano Aless Teixeira - que funde a letra "T" de teatro com a silhueta humana -, foi entregue a NegaFyah pela diretora-geral da Funceb, Sara Prado. "Agradeço a todo mundo que subiu aqui nesse palco, a belíssima mesa de júri, Mateusa, Nildinha e Zeca, agradecer a Thiago Romero que tocou esse projeto com muito carinho, muito empenho. A Fundação Cultural agradece, mas principalmente as artes da Bahia agradecem".
O troféu de segundo lugar foi para Óia, Oyá, de Brenda Matos, que tratou da identidade da mulher negra, do resgate da cultura e da ancestralidade. No palco, um texto contundente falado e dançado em uma apresentação magnética. "É uma cena que fala sobre a luta e a reexistência de mulheres negras e exaltando Oyá que é essa mulher forte, essa orixá que guia nossos caminhos. Estou muito feliz que a gente ganhou, que os ventos de Oyá sopraram a nosso favor, porque ela nunca nos abandona e essa é a prova", resumiu a diretora Brenda Matos.
Em terceiro lugar, Guerra dos Acarajés, da Cia. Lefou, tocou nas feridas abertas do racismo e da intolerância religiosa. Em cena, entram em conflito uma mulher negra, baiana de tabuleiro, consciente da própria história e da origem do "bolinho de fogo", e uma mulher evangélica, desprovida do conhecimento histórico e vendedora do "bolinho de Jesus". Bastante emocionado, o diretor Khalil Emmanuel falou sobre o prêmio. "É a primeira vez que Guerra dos Acarajés é premiado e é uma honra pra gente estar nesse festival tão importante de cenas curtas do verão da Funceb, eu nem sei o que falar, é muito lindo a gente ganhar. Eu não esperava, mas a gente veio com fé em Oyá de que daria tudo certo", completou.
O diretor de Teatro do Centro de Formação em Artes da Funceb, Thiago Romero - também responsável pela curadoria do festival - ficou muito feliz com o resultado do Cenas Curtas. "É um ato político de trazer o teatro para as praças, para os largos, de ter essa linguagem nessa programação que muitas vezes é ligada à música e fortalecer o teatro que é uma linguagem popular, é para estar além das caixas. Foi um verão muito bom, plantamos muitas sementes e que elas floresçam", afirmou Romero, que apresentou o evento na pele de sua drag queen, a exuberante Barbárie Bundi.
Romero apontou ainda para a possibilidade de continuidade da iniciativa. "A ideia é que a gente começasse hoje mas não pensasse que ele se findaria hoje. Tem muitos processos, muitos trabalhos que às vezes não estão totalmente prontos, não são espetáculos completos, mas que estão apontando caminhos estéticos, de linguagem, de pesquisa. E também é um momento dos artistas se encontrarem, verem o trabalho de cada um... Para além de uma premiação, vale o poder que a arte tem de transformar, encontrar e a gente poder trocar".