28/11/2017

(esq) Inah Irenam, Jaqueline Elesbão, Marilza Oliveira e Vânia Oliveira (Foto Jaiane Santos)
Durante a tarde desta segunda-feira (27), o Palco da Sala King da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb/SeculBA) esteve ocupado pelo diálogo de mulheres que compartilharam saberes e conquistas das lutas realizadas através da arte da dança para uma plateia composta principalmente por estudantes e artistas.
A Mestra em Dança pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Vânia Oliveira, iniciou sua fala se posicionando de forma política como mulher, negra e dançarina. “A presença da mulher negra na Universidade por si só é uma ação política, é mais do que representatividade. O racismo é estruturado e tem o propósito de invisibilizar as mulheres”, disse a artista.
Ela continuou sua fala abordando o conceito de afrocentricidade: “a gente tem que valorar e trazer para nossas pesquisas e estudos intelectuais negros e africanos e construir nossos saberes e conhecimentos a partir de nossas referências e contextos. A nossa dança diz muita coisa, mas a voz aliada à dança é muito mais potente”, finalizou Vânia.
A artista, fundadora do Coletivo Ponto Art, Jaqueline Elesbão, chamou atenção para o racismo e machismo ainda muito presente na sociedade: “quando me descubro como mulher negra, isso influencia diretamente no meu trabalho. O que me levou ao feminismo foi perceber que o movimento negro ainda é muito machista. É momento do homem preto e branco calar, e das mulheres pretas falarem”.
“São nos corredores e salas de aula de diversas instituições que percebemos como o espaço da mulher negra é marcado com perversidade. A universidade contribuiu muito para minha formação profissional, mas me instruiu pouco como pessoa, pois nunca me senti representada naquele lugar. Hoje vejo quanto é importante a dança afro, as negras ocuparem esses espaços”, criticou a coreógrafa e professora da Escola de Dança da UFBA, Marilza Oliveira.
Já a dançarina, formada pela Escola de Dança da Funceb, Inah Irenam, contou que começou a fazer aula de dança aos 9 anos no bairro em que morava. Aos 19, iniciou o estudo na Funceb: “foi quando comecei a me reconhecer enquanto mulher negra. A gente trabalha com dança, vive de dança, para poder continuar com a dança. É paradoxal, mas verdadeiro”.

(Foto Jaiane Santos)
Na platéia os olhares eram atentos de quem se reconhecia no que estava sendo dito. “São poucos os espaços que temos pra falar sobre o que está sendo dito aqui. Acho fundamental que se discuta a nossa representatividade, necessário pra toda essa discussão”, disse a professora da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Ediese Gomes.
O estudante da Escola de Dança da Funceb, Rodolfo Queiroz, confessou: “representa muito pra mim o que está sendo dito, sim! O preconceito é grande, quando eu falo que faço dança afro, já falam pra mim: macumba, obra de feitiçaria. Então aqui estou apoiando tudo que está acontecendo”.
Já a estudante de Dança Afro, Lorena Xavier, ressaltou que estava sendo bem representada no evento: “desde pequena sempre me deparei com essas questões de empoderamento. A maioria da minha escola era de alunos brancos, então é muito gratificante ver como elas falam tão bem dessas questões”.
“Elas estão falando o que não temos coragem de falar. É muito difícil pra uma pessoa negra fazer o que ela quer, então com a minha dança eu procuro mostrar o que sinto. Estamos hoje discutindo a importância da nossa cor. Nós vencemos e continuamos lutando”, disse Vitória Caroline Souza, aluna da Escola de Dança da FUNCEB.
Após as discussões, a artista Jack (Jaqueline) Elesbão apresentou o espetáculo “Entre Linhas”, que estabelece um diálogo metafórico entre os séculos 17 e 21, destacando a força e a fragilidade da melhor na ótica de uma sociedade machista.

Jack Elesbão (Foto Tomaz Neto)