20/05/2022

Fruto da parceria entre a Cinemateca da Bahia e o Cinelimite, o lendário cineasta baiano Orlando Senna e o pesquisador de cinema baiano Gustavo Menezes discutirão o cinema baiano produzido entre os anos de 1953 e 1962, e a participação do cineasta nas produções da época. O encontro será online, no dia 28 de maio às 17h, no canal do Cinelimite no Youtube.
Conheça um pouco da história do cinema baiano:
Na década de 1950, Salvador passava por uma efervescência cultural. Na primeira metade da década, Alexandre Robatto Filho - praticamente o único cineasta do estado com uma carreira constante - refinava suas habilidades ao progredir de cinejornais para curtas documentais mais ambiciosos esteticamente. Ao mesmo tempo, o crítico Walter da Silveira fundava o Clube de Cinema da Bahia, onde filmes europeus clássicos e de vanguarda eram exibidos e discutidos, influenciando uma geração de futuros profissionais do cinema, entre os quais Glauber Rocha, Roberto Pires e Luiz Paulino dos Santos.
Tanto os veteranos como os novatos tinham paixão pelo cinema e interesse em causas sociais que se mostrava em suas obras. Inventivos e com vontade de experimentar, essas pessoas entrariam para a história do cinema brasileiro nas décadas seguintes, juntamente com jovens cineastas de outros estados que se distanciavam do estilo de produção da era dos estúdios que prevalecia no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Ao longo da década, Salvador veria a evolução de seu cinema, desde os curtas de Robatto até o primeiro longa baiano: Redenção. Em 1957, quando Redenção começava a ser feito, um grupo de cineastas e entusiastas pichava os muros da cidade com a frase "Você acredita em cinema na Bahia?", que servia como provocação tanto quanto chamava a atenção para as dificuldades que enfrentavam.
Os longas de Glauber Rocha e Roberto Pires feitos na época viriam a ser considerados marcos do incipiente Cinema Novo.
“O programa tem sido surpreendente para muitas pessoas aqui em Nova York, pois tais filmes da Bahia nunca foram exibidos aqui. Antes de cada exibição, tenho dado algum contexto sobre os filmes e sobre a parceria com a Cinemateca da Bahia, e tem sido lindo ver as respostas positivas, diz William Plotnick, presidente do Cinelimite.
A Cinelimite, sediada em Nova York, é uma organização artística sem fins lucrativos dedicada à exibição, distribuição e restauração do repertório do cinema brasileiro. O objetivo secundário de nosso trabalho é criar oportunidades de intercâmbio cultural entre os Estados Unidos e o Brasil. A Cinelimite oferece uma plataforma online gratuita para filmes brasileiros clássicos com nova legendagem, acompanhados de material suplementar envolvente, como ensaios escritos, vídeo-ensaios, entrevistas, listas e eventos presenciais especiais.
Conheça as produções baianas que serão exibidas no site Cinelimite:
Entre o mar e o tendal (1953) Dirigido por Alexandre Robatto Filho
O cirurgião-dentista Alexandre Robatto Filho já filmava curtas-metragens documentais em Salvador desde os anos 1930, mas foi com Entre o Mar e o Tendal que refinou seu estilo. Filmado nas praias de Chega Nego e Carimbamba, o curta-metragem retrata o dia-a-dia de trabalho da comunidade de pescadores de xaréu.
Vadiação (1954) Dirigido por Alexandre Robatto Filho
Centrado no universo da capoeira, Vadiação foi filmado a partir de storyboards desenhados pelo artista plástico Carybé. Com uma trilha sonora que registra os cantos e toques de berimbau típicos da prática da capoeira, o filme ilustra a evolução dessa luta que é, ao mesmo tempo, dança.
Redenção (1959) Dirigido por Roberto Pires
O longa de estreia de Roberto Pires, Redenção, é um filme noir desesperado que lida com a pressão psicológica do crime e do castigo.Considerado o primeiro filme brasileiro em cinemascope, Redenção faz uso da lente caseira Igluscope, fabricada pelo próprio Pires na ótica do pai. O filme sabe aproveitar bem o formato widescreen, e transcorre como um delírio lento, percorrendo a orla de Salvador enquanto a notícia de um sinistro assassinato chega pelo rádio do carro.
Pátio (1959) Dirigido por Glauber Rocha
O filme de estreia de Glauber Rocha, o curta-metragem Pátio, filmado em 1959 com as sobras de filme virgem de Redenção, é um experimento à la Buñuel sobre um homem e uma mulher que se movimentam sobre um tablado xadrez, rolando no chão, se aproximando e se distanciando.
Um Dia na Rampa (1960) Dir. Luiz Paulino dos Santos
Um Dia na Rampa acompanha um dia na rampa do Mercado Modelo, em Salvador, onde atracam os saveiros que chegam do Recôncavo Baiano com produtos para serem comercializados na capital. Costumes tradicionais como a capoeira, o candomblé e outros dão as caras nesse filme feito em 1955.
Bahia de Todos os Santos (1961) Dirigido por Trigueirinho Neto
Um dos filmes precursores do Cinema Novo, Bahia de Todos os Santos, de Trigueirinho Neto, conta a história de Tônio, um jovem que foge de casa para viver na praia com um bando que vive de pequenos furtos. Quando o bando mata um policial durante uma greve de trabalhadores, eles são forçados a se esconder e passam a pensar em formas de sair da Bahia para não serem presos.
Haverá também exibições no Spectacle Theater, confira:
A Grande Feira (1961) Dirigido por Roberto Pires
Filmado na famosa Feira de Água de Meninos em Salvador, e com produção executiva de Glauber Rocha, A Grande Feira é um filme com elenco "ensemble" que conta com alguns dos maiores nomes do Cinema Novo, como Helena Ignez, Luiza Maranhão (que está também em Barravento), a lenda Antônio Pitanga e, claro, Geraldo Del Rey, que atuou em todos os filmes de Roberto Pires dessa época.A Grande Feira é um filme de costumes, feito no estilo cinema-verité com um rigor formalista, considerado precursor do Cinema Novo, e que explora a dialética entre o capital e o trabalho.
Tocaia no Asfalto (1962) Dirigido por Roberto Pires
A obra-prima de Roberto Pires, Tocaia No Asfalto, de 1962, é um suspense sociológico noir sobre a corrupção política em Salvador, e a criminalidade que perpassa toda a cidade.Tendo uma trama que acompanha um jovem deputado idealista, um assassino vindo do interior e um político populista ganancioso, Tocaia No Asfalto é uma beleza em termos de estilo, com enquadramentos, fotografia em claro-escuro e montagem que rivaliza com o maior dos diretores do cinema de arte internacional, tendo como pano de fundo o belo cenário costeiro de Salvador, as ruas movimentadas do centro da cidade e a evocativa arquitetura barroca da igreja de São Francisco.
Barravento (1962) Dirigido por Glauber Rocha
O longa de estreia de Glauber Rocha, Barravento (1962) conta a trágica história de um homem que volta à sua vila de origem para tentar libertar seu povo do misticismo do candomblé, que ele vê como uma ferramenta a serviço da opressão, do controle político e social.
Os vídeos estarão disponíveis de 25 de maio a 25 de junho.
Cineasta Orlando Senna discute cinema baiano com o pesquisador Gustavo Menezes
Onde: canal do Cinelimite no Youtube
Quando: 28 de maio, às 17h
Gratuito