Premiadas no edital de Residência Artística do Sacatar compartilharam suas experiências na 10ª edição da Flica

07/11/2022
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A Fundação Cultural do Estado da Bahia mais uma vez marcou presença na Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), entre os dias 4 e 6 de novembro. Fomentando e demarcando produções literárias, acadêmicas e culturais de mulheres negras, a CASA INSUBMISSA foi residência sede da parceria entre a plataforma Diálogos Insubmissos de Mulheres Negras e a Funceb.

Nos três dias de evento, o protagonismo da mulher negra nas artes literárias ecoaram pelos cômodos da Casa. Bate-papos literários, performances, palestras, lançamentos de livros, Slam de poesia, baile e shows fizeram parte da programação da Casa Insubmissa na 10ª edição da Flica, em Cachoeira.

A casa foi oficialmente aberta no dia 4 com a presença da diretora geral da Funceb, Renata Dias, e a CEO coordenadora geral dos Diálogos Insubmissos de Mulheres Negras, Dayse Sacramento.

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Na ocasião, Dayse Sacramento contou um pouco da história do projeto, que surgiu em 2017 e já em 2018 inaugurou a Casa Insubmissa na Feira Literária Internacional de Paraty. "Essa é a primeira vez que estamos realizando a Casa em nossa casa, isso demarca o nosso compromisso geopolítico com mulheres negras baianas. Essa Casa chega à Flica este ano com uma parceria que nos é muito cara, com a Funceb, que tem o intuito de visibilizar duas ações muito importantes, sobretudo no contexto da pandemia, que são o edital de Residência Artística no Instituto Sacatar, e ações contempladas no Prêmio das Artes Jorge Portugal, que abarcou todas as linguagens artísticas e recebeu recursos da Lei Aldir Blanc", iniciou Dayse.

Em seguida, Renata Dias destacou a importância dessa parceria inédita. "Todo ano estamos aqui compondo a programação da Casa do Governo, e este anos nós resolvemos dar um 'upgrade' nessa participação, estamos num ano de encerramento de ciclo e a gente tem muita coisa para falar do que foi feito durante esse período." Em seguida, a diretora geral da Funceb trouxe dados do Diagnóstico Mapa da Palavra, que revelou discrepância entre artistas da palavra negro e não negros na Bahia.

"A pesquisa é o que fundamenta a intenção da política pública, atesta os fatos, evidencia em números o fenômenos observáveis em nosso cotidiano. Não foi surpresa, mas o resultado demonstrou a dificuldade de artistas negros em publicar e distribuir seus livros. E a gente não poderia deixar de compartilhar o que fizemos a respeito desses dados. Empreendemos movimentos sutis, mas importantes, para dar conta dessa questão, e trouxemos alguns resultados: um é o resultado da Lei Aldir Blanc, que trouxe pontuação adicional para pessoas autodeclaradas negras, e fomos o único estado do país que tomou essa decisão política, 50% dos prêmios foram destinados a pessoas negras. No Sacatar também empreendemos 30% das vagas voltadas para pessoas negras, além de outros editais que tiveram reserva de vagas ou indutores", explanou Renata.

Mulheres Negras no Instituto Sacatar

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A primeira ação da Funceb apresentada nesta 10ª edição Flica foi a "Mesa Mulheres Negras no Instituto Sacatar", formada pelas escritoras contempladas pelo edital da Funceb, Sanara Rocha e Crislane Rosa.

"O mais importante de uma residência artística para mulheres negras é o tempo para escrever, tempo de cuidado direcionado para nós, quando a gente é condicionada constantemente ao cuidado compulsório do outro. E no momento que a gente está numa residência artística, todo esse cuidado básico, mínimo, se volta para a gente, e há um enorme significado nisso tudo, sobretudo para mulheres negras, baianas. Essa ausência de tempo livre, que se dá em paralelo a uma negação, uma invisibilização e uma invalidação da nossa escrita, vem com objetivo de apagamento, mas não estão conseguindo porque estamos aqui tentando driblar isso de diversas maneiras", disse a escritora.

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Crislane Rosa foi contemplada com a proposta "Andrografias da minha avó", que conta a história de uma avó que consegue ajudar a família ao descobrir no terreno dos seus pais uma nascente muito valiosa para a companhia de abastecimento de água: "Escrever uma ficção é me possibilitar sonhar, mas não construir uma ficção que escorregue na colonialidade. O romance que pretendo escrever na residência são investigações sobre a vida da minha avó, com documentos, fotos, áudios. Não é uma biografia, mas o que eu pretendo é sonhar nas lacunas da história da minha avó". Ao final no processo, a artista da palavra pretende promover uma Oficina para mulheres negras e indígenas na Ilha de Itaparica, além de colagem de lambe-lambes pela cidade.

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Em seguida foi a vez de Sanara Rocha compartilhar sua experiência na Residência Artística no Instituto Sacatar através do edital da Funceb. Na ocasião, a artista e pesquisadora interdisciplinar, conhecida como mulher-tambor, explicou o trabalho que pretende desenvolver durante a residência. "O meu projeto, 'Variações sobre Ostinato Percussivo', trata-se de um memorial da presença feminina nos tambores de candomblé, a memória num espaço religioso. Estudo esse tema desde 2015 e no Sacatar me dispus a escrever um script para o audiovisual. Eu sempre trabalho numa plataforma afrofuturística, não só pelo apelo estético, mas pelas dimensões políticas de recontar as narrativas negras, de não separar as dimensões de passado, presente e futuro, pela possibilidade de pensar num mundo que é pós-apocalíptico, mas que ao mesmo tempo possibilita que os escombros da civilização patriarcal, machista, branca, ocidental, consiga içar narrativas fósseis que reinventem o mundo onde as mulheres estão restituídas neste lugar de valor, essa é minha pesquisa, as mulheres-tambor dentro de um lugar de valor."

Além de Sanara e Cris, outros três artistas foram contemplados no edital de Residência Artística no Instituto Sacatar pela Funceb. Ação visa estimular a criação e a produção literária baiana e promover a interação entre artistas residentes no Instituto. A residência teve início em 24 de outubro e segue até 19 de dezembro, na sede do Sacatar, em Itaparica. Pela primeira vez 5 artistas foram contemplados no edital e receberão o prêmio inédito de R$ 6 mil para cada selecionado. Saiba mais sobre o edital Sacatar aqui.

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A artista musical Nai Kiese esteve presente na mesa e relatou: "Esse projeto destaca a importância de ter produção intelectual de mulheres negras dentro do nosso estado, e acredito que esse é um passo grande em relação à visibilidade que a gente tanto questiona, é uma forma da gente olhar para dentro, é uma questão de valor que precisamos dar a nós mesmas. Estamos falando de mulheres artistas multidisciplinares, que não estão apenas na literatura, mas que passeiam pelo teatro, audiovisual, geografia, política."

Já Luan Sodré, que também acompanhou a programação, destacou: "Fico muito feliz em ter acesso a um espaço como esse, de referência, de aquilombamento, de compartilhamento de conhecimentos e ao mesmo tempo espaço de traçar estratégias. O compartilhamento dessas histórias de criação que têm potência grande no universo de produção literária que a gente vive, e feliz por esse espaço existir aqui na Flica."

Fotos: Lucas Malkut