Escritoras premiadas no Prêmio das Artes Jorge Portugal compartilharam suas vivências durante a Flica

07/11/2022
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Sábado (5) foi o segundo dia da programação da Fundação Cultural do Estado da Bahia na 10ª edição da Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica). Durante a Festa, a Funceb marcou presença com a CASA INSUBMISSA, uma parceria entre a instituição e a plataforma Diálogos Insubmissos de Mulheres Negras, em três dias de evento. Na data, foi a vez de escritoras premiadas no Prêmio das Artes Jorge Portugal (Lei Aldir Blanc) compartilharem suas produções literárias numa mesa de bate-papo. A mediação ficou por conta de Ayala Tude, coordenadora de comunicações internacionais da plataforma.

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Mônica Santana, autora do livro premiado "Substantivo Luto",  foi a primeira a compartilhar sua vivência durante a produção literária. "A minha mãe faleceu de câncer em 2020, assim como a mãe da minha amiga e coautora do livro, Ana Fernanda Souza. No processo de desmontar a casa que ela morava, minha irmã, Priscila Fulô, começou a fotografar algumas caixas. E com essas histórias e fotografias, o livro foi forjado."

Sobre o nome do livro, ela explica: "Esse é um país que não fala do luto, para nós da população negra, o luto muitas vezes é verbo e está associado à luta, pelo direito de enterrar dignamente os nossos, luta para que a gente tenha o direito de viver. Ao perder uma pessoa, sobretudo a mãe, uma perde-se um pouco de si mesmo. As crônicas, textos e fotografias falam muito desse cotidiano de lidar com o luto e como ele nos transforma."
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Em seguida, a artista slammer, Má Reputação, premiada com o projeto literário "Slam Pandemia Poética", contou como surgiu a ideia de criar um Slam no período de isolamento pandêmico. "O Slam é como se fosse o esporte da palavra, que tem competição de poesia, batalhas, fases, é a poesia falada e performada, e estamos buscando ainda esse lugar na literatura, pois a oralidade, que é nossa ancestralidade, também é literatura. Na pandemia pensamos num formato que pudesse abarcar pessoas do interior e falo orgulhosamente que contratamos 47 pessoas, além de outros serviços."

Sobre o edital, Má, como prefere ser chamada, destacou: "foi um edital de fácil acesso, sem cobrança de prestação de contas, e isso facilita muito para quem está começando. Temos que nos conscientizar de que o nosso conhecimento, ainda que seja empírico, de experiência, tem muito valor, a oralidade tem poder e tem valor".

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Por fim, Evelyn Sacramento, premiada com a posposta literária "Menina Nicinha", contou como foi a produção literária desde o início do processo de criação do livro. "Sempre tive a escrita como forma de acolhimento, pois normalmente não temos coragem, autoestima de colocar o que a gente faz na rua. Escrevi o livro em 2018/19 e em 2020 veio o edital, descobri esse interesse em produzir literatura infantil e infantojuvenil."

Evelyn contou que o livro se passa do recôncavo baiano, mais especificamente em Santo Amaro da Purificação, sua cidade de origem, no bairro dos Humildes. "Trouxe para o livro essas influências que vi na infância, as experiências da minha família. É importante que as crianças conheçam essas histórias, queria dar esse presente da cidade. Essa foi a minha primeira experiência enquanto escritora publicada, o edital me deu essa possibilidade, um material que estava guardando veio a acontecer por causa dele, e sou grata a isso. Tornou-se um material didático-pedagógico para que os professores e pais possam trabalhar com suas crianças. Quando criança, li coisas genéricas, e hoje ver crianças lendo um livro que tem referências de onde elas moram, é o melhor reconhecimento que eu posso ter", finalizou a escritora.

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Angélica Sacramento estava presente no evento e se emocionou com as experiências passadas pelas autoras: "Me emocionei muito a história da Meninina Nicinha, que pode ser lida não só por crianças, mas também por adultos, como ela mesma falou, mas para as crianças, essa história tem muito proveito, muita lição."

Já Diane Menezes, destacou: "a própria existência dessa casa demonstra o quanto a gente tem que ser resistente, é um grande marco para nós mulheres negras ter toda essa partilha, dá um incentivo para quem está escrevendo estar se colocando, ter nossas vozes escutadas. Acho que elas trazem isso, reforçam e incentivma as pessoas que escrevem, e para que nós mulheres nos coloquemos e estejamos mesmo nos espaços nos posicionando."

Fotos: Lucas Malkut