19/05/2023

Entre 25 e 28 de maio, a Sala de Cinema Walter da Silveira receberá a Mostra DiversÁfricas, através do projeto Sala Walter Convida. A mostra tem curadoria do professor universitário, cineclubista, curador e crítico de cinema, Lecco França, graduado em Letras Vernáculas e especialista em Metodologia do Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira.
Lecco foi idealizador de encontros, organizador de cineclubes, programador e mediador do Cineclube Antônio Pitanga, e curador das mostras Egbé – Mostra de Cinema Negro de Sergipe, Festival de Cinema Baiano, Mostra Itinerante de Cinemas Negros Mahomed Bamba e Mostra Híbrida. Lecco tem textos críticos publicados em diferentes revistas e sites especializados, assim como no Instagram. Também foi um dos organizadores do livro Cinema Negro Baiano, publicado em 2021 pela Editora Emoriô.
Nesta entrevista, Lecco França fala sobre o processo de curadoria dos filmes para a mostra DiversÁfricas, a importância do projeto para difusão da história e cultura africana, além de ilustrar a criatividade dos cineastas africanos e suas contrubuições temáticas, estilísticas e culturais para o próprio cinema mundial, sem contar com a formação de plateia para filmes africanos de língua portuguesa. Confira:
1 - Como foi realizada a curadoria dos filmes para a mostra Mostra DiversÁfricas? Quais critérios foram utilizados para a seleção?
Lecco França: O primeiro aspecto que me motivou a pensar a curadoria da mostra foi apresentar ao público baiano filmes africanos pouco conhecidos ou até inéditos no estado da Bahia. Como pesquisador e curador de filmes africanos há cerca de oito anos, eu acompanho muito a circulação desses filmes nos festivais, nos eventos de lançamento, acompanho muito os cineastas nas redes sociais, dialogo com alguns deles com frequência, e quando tenho a oportunidade de ver filmes interessantes e criativos, eu automaticamente fico na expectativa de que o público baiano também tenha a oportunidade de conhecer essas obras, de perceber a potência audiovisual que muitos cineastas africanos têm apresentado, em especial, nas últimas décadas, a exemplo do trabalho da produtora angolana Geração 80.
Outro critério muito significativo para a concepção da mostra foi selecionar filmes da África de língua portuguesa, neste caso, Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, por conta da língua comum que nos aproxima, além de outros fatores políticos, sociais e culturais que nos conectam, e também pelo fato de muitos dos contatos mais próximos que construí nesse período de pesquisa e curadoria abrangem os cineastas desses países.
Para concluir, o que me motivou também a selecionar esses filmes foi a intenção de trazer temas que se aproximassem da Bahia e da cultura baiana, e que criassem um vínculo de identificação com o público local, como o carnaval e a dança.
2 - Qual o principal objetivo da mostra? A quem ela é direcionada?
Lecco França: A mostra é resultado de um convite de Daiane Silva dentro do projeto idealizado por ela chamado “Curadores convidados” [na Sala de Cinema Walter da Silveira]. Como ela já conhece um pouco da minha trajetória de estudo, pesquisa e curadoria de filmes africanos, sabe da minha atuação incessante na divulgação de produções audiovisuais africanas, ela me fez a proposta e a ideia começou daí.
A mostra visa celebrar o Dia da África (anteriormente chamado Dia da Liberdade da África e Dia da Libertação da África), idealizado pela Organização da Unidade Africana (OUA), hoje conhecida como União Africana, que foi fundada em 25 de maio de 1963. A data é comemorada em vários países do continente africano, assim como em todo o mundo. Por isso, a mostra tem o objetivo de, mais uma vez, apresentar diferentes olhares sobre países africanos, exibir imagens positivas do continente e, ao mesmo tempo, ilustrar a criatividade dos cineastas africanos, suas contribuições temáticas, estilísticas e culturais para o próprio cinema mundial.
Apesar dessa mostra ser inédita, eu já idealizei ou atuei em outros eventos com o mesmo propósito. A mostra também tem o objetivo de colaborar na formação de plateia para produções fílmicas africanas, para que o público local, a partir dos filmes selecionados e exibidos, se interessem mais e busquem conhecer mais essas cinematografias. Ela é direcionada ao público geral, em especial jovens, adultos, professores, pesquisadores, cinéfilos, ou qualquer pessoa que tenha interesse em conhecer um pouco mais das realidades, das culturas, das histórias de países africanos como Angola, Guiné Bissau e Moçambique, a partir do ponto de vista desses próprios cineastas.

3 - A mostra está dividida em quatro sessões, como foi feita essa delimitação temática?
Lecco França: A definição de algumas sessões surgiu, como eu disse antes, do interesse em trazer filmes africanos que dialogassem com a cultura baiana, a exemplo da “Outros carnavais”, já que o Carnaval é uma manifestação cultural e artística muito forte na Bahia e tem relação intrínseca com os povos africanos, que também comemoram, celebram e festejam a vida e até a morte, ou seja, a festa, a alegria, a música, são heranças dos nossos ancestrais africanos, como mostra também a sessão “Movimentos”, pois a dança é uma outra linguagem artística e cultural que nos conecta à África.
Já a sessão “Memórias (anti/pós/des)coloniais” tem o intuito de não esquecer da vinculação que os cinemas da África, no geral, têm com a questão política. Mesmo os cineastas africanos hoje se debruçarem em inúmeros outros temas, a questão da colonização europeia, o histórico da escravização, as lutas pela independência, o processo de descolonização cultural, os impactos da violência colonial na vida contemporânea das sociedades africanas são questões que não podem ser esquecidas, por isso sempre faço questão de trazer esse tema, que também faz parte da minha trajetória como pesquisador, assim como o tema das migrações, dos encontros entre culturas diferentes, a circulação de pessoas de diferentes localidades em um território, que são temáticas que investiguei na minha pesquisa de Doutorado em Letras pela Universidade Federal da Bahia, a partir do contexto moçambicano, abordadas na sessão “Trânsitos”.
4 - A Mostra DiversÁfricas estará em cartaz na única sala de cinema público em funcionamento no estado e terá entrada gratuita, qual o significado disso para esta exibição?
Lecco França: Em primeiro lugar, é fundamental e necessário garantir a existência de salas como a Walter da Silveira, pública e de acesso gratuito, para a formação de plateia no audiovisual, para disseminação e circulação de produções fílmicas não comerciais, ou não convencionais, como atividade de aprendizagem e conhecimento, assim como de lazer e entretenimento que o cinema também proporciona em uma população, na sua grande maioria, carente desses espaços e do acesso a essa linguagem.
Em segundo lugar, os filmes selecionados, como eu disse, na sua maioria, inéditos na Bahia, possibilita ao público em geral o acesso a produções de diferentes países fora do eixo tradicional (Europa-Estados Unidos), que não são encontradas facilmente em outros espaços de exibição de filmes, e até em plataformas de streaming e, reforçando, mais uma vez, a necessidade de aproximação com o continente africano a partir de outras linguagens artísticas e culturais, como o cinema. Tudo isso torna essa mostra muito mais significativa e relevante.
Fotos: Cristian Carvalho