Oficina “Textos Impossíveis”, com Amara Moira, foi realizada em Salvador através do Escritas em Trânsito

09/11/2023
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Desde terça-feira (7), escritores, aspirantes, compositores, estudantes, autores e pessoas interessadas em literatura estão imersas na oficina “Textos Impossíveis”, com a escritora Amara Moira. A ação que segue até esta quinta-feira (9) integra o projeto Escritas em Trânsito, promovido pela Coordenação de Literatura da Fundação Cultural do Estado, instituição vinculada à Secretaria de Cultura do Estado.

O encontro está acontecendo na Biblioteca Central do Estado da Bahia, nos Barris, em Salvador, e esta mesma oficina acontecerá também em Lençóis, na Chapada Diamantina. No primeiro dia de evento a coordenadora de Literatura, Karina Rabinovitz, apresentou um panorama geral desde a criação do projeto, há 11 anos.

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“Desde 2012 já foram realizadas 35 oficinas para 890 participantes durante sete edições. Estamos em celebração por retomar esse projeto que ficou parado desde 2019 por conta da pandemia. A primeira oficina já foi realizada com Elisa Lucinda, em outubro. Celebramos por esta ser a primeira vez que o projeto está ‘em trânsito’ de fato, percorrendo outros territórios”, destacou Karina.

Amara Moira é travesti, feminista, doutora em teoria e crítica literária pela Unicamp e militante dos direitos de prostitutas e pessoas LGBTQIAPN+. Tem inúmeros artigos publicados sobre gênero e literatura, com foco em releituras feministas do cânone e na presença LGBTQIAPN+, sobretudo T, na literatura brasileira.

Ela deu início à oficina contando um pouco da sua história, de como se forjou escritora, relatando sua experiência com oficinas de escrita, as metodologias que aprendeu, e compartilhou um pouco da sua escrita.

“Aqui vamos fazer acontecer coisas geniais, mas para mim alguns pontos são centrais quando penso em literatura. Algo que acredito ser fundamental na escrita é não se acomodar, revisitar a escrita é fundamental para que a gente não se acomode, para que a gente sinta prazer em ler. Importante também não subestimar o texto que a gente produz”, destacou Amara.

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Com a Oficina, Amara propõe uma escrita literária como reescritura insistente de um eterno rascunho, com apropriações e deformações de toda espécie em busca do estilo próprio, da marca inconfundível. Além disso, foi trabalhado o olhar crítico, para que o escrever e o criticar estejam sempre em pé de igualdade.

“Existem textos meus que reescrevi para publicar, que estavam há muitos anos no meu blog, e a escrita se modificou, se tornou algo totalmente diferente. Não é que hoje eu escreva muito melhor, ou muito pior, é que com a vivência com o passar dos anos, a escrita apenas se tornou diferente. É importante também a gente entender o papel da crítica. Em oficinas literárias percebi que a crítica nos faz reescrever, fazer de novo, e muitas vezes algo não ficaria tão maravilhoso se não tivesse sido criticado antes”, relatou Amara.

Moira é autora, dentre outras obras, do livro autobiográfico “E se eu fosse puta” (2016, republicado em 2018 como: E se eu fosse puRa), do capítulo também autobiográfico "Destino Amargo", presente em Vidas Trans – A coragem de existir (2017), entre outros. Na ocasião, ela aproveitou para apresentar alguns dos seus textos e falou sobre o “pajubá”, linguagem usada por pessoas trans, e como isso influenciou a sua escrita.

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“Acho o pajubá revolucionário, é interessante porque mistura várias línguas, como o iorubá, o francês, o inglês, italiano e o próprio português para criar algo único, que só a gente entende, que nos integra e nos protege. E é interessante brincar com isso, com essa sonoridade, com esse jogo de palavras que nem todo entende, mas que com a leitura o contexto vai apresentando seus significados”, disse Amara.

Participação do público

Nas oficinas que estão sendo realizadas em Salvador há reserva de até seis vagas para participantes residentes no interior do estado, buscando atender uma vaga para cada macroterritório da Bahia.

Para estas (es) participantes, a Funceb está arcando com hospedagem no Pouso das Artes e auxílio custeio no valor de R$ 1.100 para custos referentes aos transportes intermunicipais e alimentação.  

Uma dessas contempladas com a estadia no Pouso das Artes, a residência artística da Funceb, é Débora Paixão, de Salinas das Margaridas. “É maravilhoso estar no Pouso, no centro da cidade, que dá uma acessibilidade maior porque é bem próximo aqui da biblioteca, viemos andando, inclusive. Estar no Pouso nos possibilita ter acesso a muitas outras possibilidades artísticas, apresentações. Preciso falar que o acolhimento tem sido maravilhoso pela equipe da Funceb, muito atenciosa, nos ligou várias vezes e nos acolheu durante toda a estadia”, relatou Débora, que participa pela primeira vez de uma ação direta da Funceb.

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“A escrita sempre foi o meu refúgio, sempre me disseram que precisava divulgar o meu trabalho e decidi criar o instagram @aleatoria_mente_da_paixao, onde comecei a divulgar um pouco as minhas criações. Estou buscando aprender como não deixar minha escrita solta. Eu escrevo no caderno, no celular, quando vem a inspiração, coisas soltas, por isso o nome da página. Então eu quero dar uma vida a isso que eu escrevo, concretizar essa escrita, organizá-la”, relatou Débora.

Bárbara Mançanares veio de Eunápolis, no sul baiano, para participar do Escritas em Trânsito, e também está hospedada no Pouso das Artes da Funceb. “O que achei muito legal também do Pouso é a possibilidade de conhecer outras artistas, outras escritoras, isso me animou e me deixou muito empolgada, de estar num lugar que recebe artistas, poder trocar com o pessoal do curso, mas também poder trocar depois em casa. Por conta da localização nos possibilita conhecer outros pontos culturais da cidade”, contou Bárbara.

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Ela é bordadeira, escritora e tem dois livros publicados, o primeiro, de 2018, se chama “Maio”, e o segundo “Cartografias do corpo que canta”. “Gosto muito de explorar essa ideia do corpo/território, território também que atravessa o corpo, e fiquei muito feliz quando soube da possibilidade dessa oficina. Gosto muito de participar de oficinas literárias porque acho que expande muito a nossa visão sobre a própria escrita, mas também a gente tem acesso a outras temáticas e outras poéticas que fogem um pouco do que a gente está acostumado, então acho legal ter esse contato”, finalizou Bárbara.

Jussara Moreira viajou cerca de 11 horas, de Sítio do Mato, no oeste da Bahia, a Salvador para participar da oficina com Amara Moira. “Surgiu essa oportunidade de fazer algo diferente, nunca havia ficado no Pouso das Artes e também é a primeira vez que participo do Escritas em Trânsito. Eu comecei a escrever com cinco anos, sempre foi uma válvula de escape. Eu tenho uma caixa cheia de anotações, e agora que estou chegando na velhice, estou revendo essas anotações para reescrever. A minha maior dificuldade é que escrevo mais para crianças, e preciso desencantar isso, quero aprender a escrever para outros públicos. Quero escrever para crianças e ilustrar também”.

O Escritas em Trânsito segue para Juazeiro, no norte da Bahia para a oficina “Escrever é estar vivo”, com Itamar Vieira Júnior. Saiba mais informações aqui.

Fotos: Lucas Malkut