29/11/2023

O pátio do Solar das Rosas – sede da Fundação Cultural do Estado da Bahia – ficou pequeno na segunda noite do Novembro das Artes Negras da Funceb – 6ª edição. Dezenas de pessoas compareceram ao evento que marca a visibilização e fortalecimento de expressões artísticas negras da Bahia durante o Novembro Negro. Neste ano, com o tema “Construindo Narrativas: expressões artísticas negras e suas influências na formação de identidade cultural baiana”, a programação na sede segue até esta quarta-feira (29) com entrada gratuita.
A programação começou a performance literária Sarauzinho da Calu, que de forma lúdica, criativa e transformadora, trouxe um espetáculo com contação de histórias, poemas e canções infantis inéditas. A apresentação pôde ser conferida pelos estudantes da Escola Municipal Cosme de Farias.

Sarauzinho da Calu
“Eu achei muito legal e divertido, as histórias são a nossa cara, feita pra nós”, disse a estudante Maria Eduarda Farias da Silva, de 10 anos. Derik Melo, de 6 anos disse: “Adorei a apresentação, gostei muito de ter vindo e quero vir novamente para outras apresentações como essa”.

Cássia Valle, idealizadora do Sarau, destacou: “No ano passado também estivemos aqui no Novembro das Artes Negras da Funceb com contação de história, e retornarmos em 2023 com o Sarau. Eu sou aquela amante de semear arte, e esse é um papel, principalmente, do governo. E quando o governo abre as portas e pensa em levar literatura, arte, música para todos, isso é mais do que falar, é trazer à ação, e pensando também na remuneração dos artistas. Muito bom também ser um edital aberto, onde qualquer pessoa pode se inscrever, isso é fomento. Acho que esse calendário já vai ficar no coração da cidade. Hoje trouxemos a literatura preta infantojuvenil, falando para infâncias negras, e muito bacana esse público aqui ouvindo suas próprias histórias, porque representatividade importa.”

Maracatu Misterioso
Após a performance literária infantil, houve apresentações artísticas do Centro de Formação em Artes da Funceb, foram elas: “Maracatu Misterioso”, da Márcio Fidelis Cia de Dança, “Exu Menino”, de Dudé Conceição, e “Argila”, com Lua Carvalho.
Endossando ainda mais a programação literária do Novembro das Artes Negras da Funceb, o Sarau: De volta ao nosso Quilombo trouxe a letra e o verbo explorando vivências, experiências e batalhas da literatura marginal, evidenciando que a poesia é, sem dúvida, para pessoas negras.
A ação foi conduzida pela renomada poetisa, escritora e mobilizadora cultural, Bruna Silva, que contou como surgiu o Sarau: “O Sarau surge de uma ideia minha de que artistas independentes, da cidade ou não, fossem, de fato, vistos, olhados. O Sarau surge em parceria com Igor Tiago e Herley Nunes, tenho oito anos de arte dentro da cidade de Salvador fazendo poesia marginal, e esse é o primeiro projeto que de fato coloco o meu nome e levo isso na frente. Para mim foi uma surpresa e uma felicidade que a Funceb abriu as portas para a gente fazer esse evento.”

Sarau: De volta ao nosso Quilombo
Além de Bruna, o Sarau: De volta ao nosso Quilombo foi apresentado pelo artista da palavra e jornalista, Marcelo Ricardo; pela assistente social, ativista antirracista, mestra em Intervenção Educativa, Fabrícia de Jesus; pela artista independente de Aracaju (SE), Blenda Santos; e pelo multiartista, que também cantou durante o evento, Herley Nunes.
“A gente trouxe essa artista de Aracaju que faz essa cena literária marginal no estado de Sergipe, além dos artistas que são daqui e fazem poesia daqui dessa cidade. Eu acho um erro a gente escrever para essa cidade e essa cidade não ver de fato quem somos nós, e que nós somos artistas. É importante as pessoas verem que estamos ocupando esses espaços, que o que a gente faz é real, é arte”, finalizou Bruna.

Marcelo Ricardo e Bruna Silva
Herley Nunes destacou: “Hoje na cena é muito difícil conseguir espaço para produzir um evento como esses, acredito que esse espaço foi muito importante, tanto para as pessoas que foram convidadas, quanto para mim artista iniciante na carreira. Acho que esse evento é uma porta de entrada para eu começar a fazer shows, esse foi um bem especial pra mim”.
Atrações musicais
Trazendo todo o gingado do axé music, reggae, rock, afropop, e MPB, Marcionílio Prado subiu ao palco exalando toda a sua experiência em quase 50 anos de carreira profissional. “Tenho estado em atividade fazendo muitos shows, principalmente em Feira de Santana. Esse show pra mim tem um significado muito importante, trago grandes músicos, que são professores lá em Feira de Santana, uma releitura desse projeto que foi inaugurado em 1986. De lá para cá muita coisa se passou na minha vida e carreira, morei na Argentina, aprendi espanhol, cantei numa banda de rock, convivi numa comunidade rastafári, e hoje trago esse show totalmente repaginado”, declarou Marcionílio.

Marcionílio Prado
Por fim, o cantor, compositor e instrumentista baiano, Tiganá Santana, a atração mais aguardada da noite, subiu ao palco trazendo canções em kimbundu e kikongo, faladas em Angola e Portugal. “Eu fico muito feliz e satisfeito, primeiro por tocar em Salvador, eu toco menos do que eu gostaria porque muitas vezes os meios não são os melhores pra gente fazer um show na altura que a população em Salvador merece. Então quando há oportunidade disso acontecer, já é uma coisa maravilhosa. Dentro do contexto do Novembro das Artes Negras é ainda mais interessante, as artes no Brasil são fundamentalmente as artes negras, e na Bahia, nem se fala. Então, para mim, é muito bom poder participar, estar em contato direto com as pessoas que têm alguma conexão com a música que eu faço, fico feliz com a lembrança e o convite”, afirmou Tiganá.

Tiganá Santana
Andréa Cardoso é uma dessas pessoas que vieram para apreciar de perto a música de Tiganá Santana. “Fiquei sabendo da programação pela página da Funceb, que eu sigo para saber dos eventos, e soube que iria ter o Novembro das Artes Negras e que teria Tiganá. A programação está ótima, achei que poderia ser difícil de chegar, mas foi bem tranquilo, e estou adorando o evento”.
Já Carlos Bahia é fã de carteirinha de Marcionílio Prado há algumas décadas. Aproveitou o Novembro das Artes Negras da Funceb para apreciar o show do artista: “O espaço é maravilhoso, circulo bastante pela área, via esse patrimônio fechado, mas hoje pude conhecer e fiquei surpreso, gostei bastante, sempre tive curiosidade. Estou sempre de olho na programação da cidade e vi que teria o show de Marcionílio hoje. Eu conheço o artista desde quando ele tocou na Banda Eva, na época eu trabalhava como presidente do Eva, então fui para muitos shows dele, acompanhei vários trios do Eva”.

A programação da 6ª edição do Novembro das Artes Negras da Funceb segue até esta quarta-feira (29) no Solar das Rosas, sede da instituição localizada no Canela; e até quinta-feira (30) na Sala de Cinema Walter da Silveira. Confira AQUI.
Fotos: Lucas Malkut