19.03.2009 - As escavações realizadas nos sítios arqueológicos do Serrote do Velho Chico e da Fazenda Salão, em Curaçá-BA, revelam um possível encontro de comunidades indígenas em estágios diferentes de evolução.
A hipótese foi levantada pelos pesquisadores a partir dos fragmentos de cinco urnas funerárias encontradas, evidenciando, nos mesmos sepultamentos, a utilização de duas técnicas distintas realizadas pelos grupos que habitaram o local.
A pesquisa foi realizada entre dezembro de 2008 e fevereiro de 2009 por pesquisadores do Projeto Mata Branca, do Governo do Estado, em parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA).
“O Projeto Mata Branca tem o objetivo de promover o desenvolvimento de quatro municípios do semi-árido a partir da consciência ambiental, da convivência saudável entre o ser humano e a caatinga. Isso passa, necessariamente, pela compreensão do passado histórico da região.
Com as descobertas, queremos incentivar o turismo científico e ecológico em Curaçá, sendo mais uma possibilidade de atividade para a comunidade local”, afirmou Dário Tavares Santos, antropólogo e técnico do Projeto.
O Mata Branca vai realizar três oficinas de Educação Ambiental e Patrimonial na sede do município e nos distritos de São Bento e Patamuté, apresentando os resultados da pesquisa à comunidade.
Curaçá se localiza no semi-árido baiano, às margens do Rio São Francisco, fator que explica a presença de povos indígenas na região há, aproximadamente, 3 mil anos. Segundo os pesquisadores, o Rio confere à região a característica de ter sido tanto um corredor de passagem quanto área de fixação de grupamentos humanos.
A descoberta das urnas fortalece a hipótese de que grupos em distintas fases de evolução tenham se encontrado na localidade, ou o grupo vivenciava um processo de convergência cultural, fato até então inédito na pesquisa arqueológica.
Outro aspecto que chamou a atenção dos pesquisadores foi a descoberta de fragmentos de um painel que apresenta a utilização da gravura, a partir de incisões na rocha, e, sobre o traçado, o emprego da pintura.
Gravura e pintura se sobrepõem em pelo menos quatro a cinco momentos de representações gráficas no mesmo painel. Um desses fragmentos foi encontrado no chão, enterrado sobre restos de carvões, o que permite aos pesquisadores datar o período em que o pedaço se desprendeu da rocha.
Também foram encontrados quatro tembetás, espécie de adorno estritamente masculino, usado no lábio inferior como forma de diferenciação social e de virilidade. Os tembetás encontrados em Curaçá foram polidos em quartzo verde e medem entre 5cm a 7cm. Até agora, os indícios mostram que o objeto era utilizado por grupos Tupis.
No Serrote do Velho Sítio, onde se encontra o Abrigo, nome dado a uma espécie de caverna que pode ter sido utilizada para passagens momentâneas dos grupos, foram encontradas as pinturas e gravuras, lascas para a produção de instrumentos de pedras, restos de alimentação (ossos de animais caçados), uma fogueira e restos de um sepultamento.
Na Fazenda Salão foram encontrados, a céu aberto, cinco sepultamentos visíveis pelas cerâmicas descobertas, provavelmente pelo processo de erosão. Os corpos de três crianças e dois adultos estavam bastante decompostos, onde um trazia consigo três tembetás.
Em todas as crianças foram encontradas contas de um colar, cada um com até 200 contas feitas com material ósseo. Na superfície do terreno foram encontrados muitos materiais líticos, ou seja, feitos com pedra lascada.
Os objetos estão no Laboratório de Arqueologia da UFBA, onde serão encaminhados para datação e, em seguida, retornarão para Curaçá, para compor o acervo do Museu da cidade. Os municípios de Itatim, Contendas do Sincorá e Jeremoabo, integrantes do Projeto Mata Branca, também serão visitados.
A equipe de pesquisadores é composta por Luydy Fernandes, arqueólogo e coordenador de campo do Projeto Mata Branca, pelo professor de arqueologia da UFBA e supervisor da pesquisa, Carlos Alberto Etchevarne, e Alvandir Bezerra, museólogo responsável pelas ações de Educação Patrimonial.
O Projeto Mata Branca é desenvolvido pela Secretaria de Desenvolvimento e Integração Regional (Sedir), por meio da Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), e pela Secretaria do Meio Ambiente (Sema).
Os quatro municípios do Projeto estão sendo mobilizados em torno da necessidade de promover equilíbrio na relação entre ser humano e meio ambiente, visando o desenvolvimento regional.
O Projeto foi implantado pelos governos da Bahia e do Ceará e é financiado pelo Global Enviroment Facility – GEF (Fundo Global para o Meio Ambiente) e pelo Banco Mundial.
Fonte: Ascom Sedir/CAR