17.08.2009 - Política e economia são parceiros inexoráveis. A idéia do euro e da Comunidade Européia foi uma decisão econômica: juntos seremos fortes. A idéia da criação do Condomínio Terra seria uma decisão política: juntos manteremos a vida humana no planeta. Exagero? Infelizmente, não. A vida tal qual a conhecemos pode estar ameaçada.
A concentração de CO2 aproxima-se dos níveis a partir dos quais alguns impactos graves são irreversíveis. Uma nova era biológica seria inevitável e o ciclo da vida teria um novo início na Terra, bem mais simples que o atual, diz o cientista português Miguel Bastos Araújo, do Centro de Estudos Ambientais da Universidade de Oxford. Traduzindo: há o risco de voltarmos ao estágio das amebas.
A experiência da criação de uma instituição supranacional, como a Comunidade Européia, sem limites geográficos, com denominadores sociais, políticos e econômicos comuns, pode ajudar a estabelecer valores também para os benefícios proporcionados pela biodiversidade. "A dificuldade está em quantificar a importância dos serviços econômicos prestados pela biodiversidade e pelos ecossistemas", diz Miguel Araújo.
Em entrevista à revista Visão, de Portugal, ele diz acreditar que "estamos perto de reconhecer o papel das florestas nas alterações climáticas". Ou, digamos, o valor econômico da preservação da Amazônia para o planeta, explicitado em moeda corrente.
Nós, brasileiros, deveríamos incentivar calorosamente a instituição do Condomínio Terra e o estabelecimento desses valores, antes que o façam sem nós. Cresce entre as nações a idéia que o direito à propriedade de algo que traga benefício para o planeta, como as florestas tropicais, inclui regras para assegurar a boa gestão dos recursos naturais. Se não tomarmos conta direito, cedo ou tarde o farão por nós.
A idéia do Condomínio Terra terá fortes contestações, pois implica em concessões de soberania e a criação de instituições de governo global - e aí a experiência da Comunidade Européia pode ajudar a avançar quadras no tabuleiro político internacional. As instituições européias têm poderes limitados, que não podem por em risco a soberania de cada país-membro. São instituições ainda em formação e podem servir de modelo para a constituição do Condomínio Terra. "Algo tão arrojado gerará resistências, mas não há outro caminho", prevê o cientista português de Oxford.
Fonte: José Roberto Berni (Publicado no site Bahia Já)