Restauração de Ecossistemas na Chapada Diamantina e Serra da Jibóia: desafios de campo e diagnóstico de áreas

13/05/2024

Gerido pela Secretaria do Meio Ambiente (Sema), o Programa de Formação em Meio Ambiente e Recursos Hídricos – FORMAR realizou mais uma capacitação no último fim de semana. No contexto do Plano de Ação Territorial (PAT) para a conservação de espécies ameaçadas na Chapada Diamantina e Serra da Jibóia, o curso de Formação Inicial e Aplicada em Restauração de Ecossistemas contou com 11 módulos teóricos online e teve sua primeira aula prática neste sábado (11), no município de Castro Alves (BA).

Em parceria com o Instituto do Meio Ambiente (Inema) e a Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE), a oficina, realizada pela plataforma do FORMAR no período de outubro a abril, contou com a cooperação de profissionais altamente qualificados, incluindo professores universitários renomados.

A expectativa, segundo Ciro Florence, coordenador da Diretoria de Educação Ambiental para a Sustentabilidade (DIEAS/Sema), é de que o curso promova ações de restauração de ecossistemas no território da Chapada Diamantina e na Serra da Jibóia.

“Estamos hoje em Castro Alves participando do Módulo Presencial do Curso. Viemos a uma propriedade para simular uma possibilidade de restauração de ecossistemas. Primeiro entendemos qual é o objetivo do projeto de restauração, depois visualizamos o ambiente e a paisagem, a fim de realizar um diagnóstico, em seguida discutimos sobre as ações que seriam necessárias para restauração e os critérios para monitoramento. Está sendo uma parceria muito produtiva com a SOBRE. Tivemos durante todo o período virtual e, também agora no módulo presencial, um curso bem qualificado. No total foram 11 módulos com aulas de excelência envolvendo pesquisadores e promotores públicos, além de uma turma bem diversificada, incluindo servidores de órgãos ambientais, professores, estudantes e produtores rurais”, afirma Ciro, que acompanhou a aula prática representando a Secretaria.

A ação envolveu a aplicação direta de práticas de restauração, monitoramento e diagnóstico em áreas de extrema importância ambiental e com significativo risco de extinção para 27 espécies críticas. Os participantes, capacitados e orientados por especialistas da SOBRE, tiveram a oportunidade de conhecer de perto os desafios enfrentados na conservação e restauração de habitats naturais, é o que aponta a professora do módulo de campo, Alessandra Nasser Caiafa.

“A gente passou por propriedades, onde a gente observou o ecossistema de referência, observou áreas onde era possível se fazer técnicas de restauração como condução da regeneração natural, sobretudo é possível fazer tanto plantio total, tanto com condução da regeneração natural ou qualquer outra técnica, se primeiro de tudo a gente exclui o fator de perturbação dessa região. A gente sai desse curso enquanto Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica muito feliz e espera que todos profissionais, estudantes aqui capacitados, possam aplicar no seu dia a dia as boas práticas de restauração de ecossistemas e também a gente espera que possamos sair daqui pessoas melhores, porque o principal objetivo da restauração é restaurar ecossistemas, mas também restaurar corações e mentes”, salientou Alessandra, que também atua como professora na Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB).


Desafios, intervenção e monitoramento

O módulo de campo teve início na noite de sexta-feira (10), quando, no Colégio Vicente José de Lima, em Castro Alves, os alunos participaram de uma aula preparatória para o campo. O objetivo foi orientar os profissionais sobre as estações a serem visitadas e os pontos de atenção na paisagem e área a ser restaurada.

O dia seguinte começa com a visita a propriedades rurais denominadas como estações de diagnóstico, distribuídas pelas regiões dos municípios de Castro Alves, Varzedo e Elísio Medrado. Na oportunidade, os participantes observaram de perto áreas que necessitam de ações de restauração, compreendendo a complexidade e as nuances envolvidas na conservação desses habitats.

Um dos destaques foi a visita numa área ainda em processo de restauração, um projeto iniciado há quase 20 anos pela professora Alessandra, com a ajuda de Clóvis Nascimento, membro do Grupo Ambientalista da Bahia (GAMBÁ). Ele conta que, na época, o proprietário os convidou para fazer uma estratégia reconstrutiva através de plantio total.

“Quando chegamos aqui, encontramos só a Brachiaria, não tinha nada de planta aqui. E aí a gente teve todo o processo de vir aqui mapear a área, covear [ou “berço” - abertura no solo para o plantio] e plantar as mudas. E hoje vocês podem perceber como é que já está esse fragmento aqui, está lindo. Diversas espécies da fauna local a gente já encontrou por aqui, além de pássaros que dispersam sementes, um indicativo de que aqui já tem bastante regeneração natural. Ver tudo isso dá bastante prazer pra gente, porque fizemos e deu certo”, reconhece Clóvis, também conhecido como Coi na região.

O momento também proporcionou insights valiosos para Alessandra, referente aos resultados obtidos ao longo do tempo. “Hoje a gente já tem aproximadamente 30 espécies, e a gente já consegue perceber o retorno de outras formas de vida, como epífitas, como arbustos do sub-bosque, ervas do sub-bosque. E a gente percebe, acima de tudo, o retorno da água nessa estação de diagnóstico, que é a metodologia que a gente tem usado no módulo de campo do curso”, reitera Caiafa.

Os maiores desafios ao longo dos anos, segundo Coi, tem sido o monitoramento contínuo da área restaurada. “Sempre de 3 em 3 meses a gente tem que vir fazer o coroamento das mudas para a Brachiaria não vir, e se possível, coloco um adubo”, descreve o ambientalista.


Diagnóstico do potencial de regeneração natural

Ao final da experiência, Andressa Assunção, que além de aluna do curso de Restauração também é técnica do Inema, relata que os conhecimentos adquiridos e as experiências compartilhadas durante o curso contribuíram para a análise dos programas de regularização ambiental e de recuperação de áreas degradadas que são analisadas junto aos processos de licenciamento.

“Aprendemos a diagnosticar as áreas em recuperação, em processo de regeneração natural, porque muitas vezes não é preciso a implantação de mudas, um processo mais barato, e a gente viu tanto como fazer a condução da regeneração natural, como enxergar um fragmento que está em regeneração há 40 anos, e ver como a natureza consegue expressar ali toda a sua diversidade”, analisa Andressa, técnica que atua na área de licenciamento da Coordenação de Agrosilvopastoris (COASP/Inema).

A visita a propriedades rurais, denominadas estações de diagnóstico, e a observação de áreas em processo de restauração terão continuidade no segundo momento do módulo de campo do curso de Formação Inicial e Aplicada em Restauração de Ecossistemas, previsto para acontecer no mês de Junho, no território da Chapada da Diamantina.

Essa é mais uma iniciativa que reflete o comprometimento do Governo do Estado com a preservação ambiental e a sustentabilidade no território baiano.

Plano de Ação Territorial – PAT Chapada Diamantina-Serra da Jiboia - O território delimitado no PAT engloba 56 municípios, perfazendo uma área de 3.918.743 hectares no estado da Bahia onde ocorrem 27 espécies alvo da flora e da fauna, criticamente em perigo de extinção (CR). O PAT também contempla direta e indiretamente 339 espécies beneficiadas ameaçadas de extinção, classificadas em diferentes categorias.

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