Ainda é cedo quando os primeiros sacos de latinhas começam a chegar às Centrais de Apoio dos Catadores e Catadoras. Depois de uma noite intensa nos circuitos, catadores e catadoras entregam o material coletado, que é separado, pesado e organizado. O que para muitos é apenas resíduo, para eles representa renda, dignidade e reconhecimento.
É nesse cenário que atua o projeto “Meu Corre Decente: Trabalho Decente e Solidário na Folia”, iniciativa do Governo do Estado, por meio da Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (Setre), que conta com a participação da Secretaria do Meio Ambiente da Bahia (Sema) e do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema).
Em dois dias de Carnaval, já foram retirados das ruas 33,5 mil quilos de materiais recicláveis, sendo 22.153 kg de alumínio, 7.364 kg de PET e 4.062 kg de plástico. Todo esse material segue um caminho organizado e estratégico, que une inclusão produtiva e proteção ambiental.
O caminho da latinha
“Todo o material recolhido aqui passa primeiro por um depósito para triagem e, depois, segue para a indústria. A latinha, por exemplo, entra no ciclo reverso e volta a ser transformada em lata. Hoje, o Brasil recicla entre 95% e 98% das latas de alumínio, o que faz delas o produto com melhor índice de reciclagem no país. O PET também segue para a indústria de transformação plástica e retorna ao mercado em novos produtos. Existe hoje uma legislação que determina a reposição de 22% de plástico na composição de embalagens, o que garante que esse material volte para a cadeia produtiva. O plástico é encaminhado para a indústria de transformação e se torna, por exemplo, sacos de lixo e sacolas de supermercado”, explicou Marcos Fernandes, coordenador do ponto de coleta da associação Cooperativa de Catadores de Resíduos Sólidos e Reciclagem em Geral da Bahia (CRG), integrante da Rede Icatres.
Esse fluxo representa, na prática, a economia circular, o resíduo deixa de ocupar ruas ou aterros e volta ao ciclo produtivo como matéria-prima. Mais do que reduzir o impacto ambiental da festa, a iniciativa garante melhores condições de trabalho, organização da cadeia da reciclagem e geração de renda para centenas de famílias.
Catadora há mais de dez anos, Mariluce dos Santos destaca que o trabalho dela é essencial para garantir a limpeza da cidade durante o Carnaval. “Com o apoio do Governo do Estado, melhorou bastante, hoje tem mais estabilidade e mais dignidade para a gente trabalhar. O material que a gente recolhe ajuda não só na reciclagem, mas também na limpeza das ruas. Se não fosse o nosso trabalho, a situação estaria bem pior. Pelo menos esse material a gente sabe pra onde vai”, contou Mariluce.
Ampliação e cuidado
Além dos circuitos tradicionais, o Governo do Estado ampliou o alcance das ações, integrando novas áreas à coleta seletiva estruturada, fortalecendo a política pública de inclusão socioprodutiva.
Como uma das ações de destaque, foram implantados 13 Centros de Apoio distribuídos estrategicamente nos principais circuitos do Carnaval. No Circuito Dodô (Barra-Ondina), são seis unidades, sendo quatro na Barra e duas em Ondina. No Circuito Osmar (Campo Grande), são quatro centros. Há ainda um centro em Cajazeiras, no Circuito Ancestralidade, um no Nordeste de Amaralina, no Circuito Mestre Bimba, e um no Pelourinho. Esses espaços garantem estrutura adequada para triagem, pesagem, armazenamento e comercialização do material coletado, fortalecendo a organização do trabalho e a geração de renda.
O resultado é um Carnaval mais limpo, mais organizado e mais sustentável. Cuidar da destinação correta dos resíduos é também cuidar de quem faz esse trabalho acontecer. É reconhecer que por trás de cada latinha reciclada existe esforço, organização e uma política pública que transforma o descarte em oportunidade.