Catadores encontram na reciclagem uma fonte de renda durante o Carnaval da Bahia, em Salvador

16/02/2026
Seu Domício Oliveira, catador do Carnaval Campo Grande 16.02
Tiago Junior - Ascom Sema/Inema

O suor escorre pelo rosto de Domício Henrique de Oliveira, 62 anos, enquanto ele separa, uma a uma, as latinhas recolhidas no Circuito Osmar (Campo Grande) entre a noite de domingo (15) e a manhã desta segunda-feira (16). Mesmo cansado, ele não interrompe o trabalho. Entre uma triagem e outra, responde às perguntas com calma, como quem já se acostumou a transformar esforço em sobrevivência. “Eu labuto com reciclagem há muitos anos. Foi a renda da reciclagem que sustentou minha vida toda”, diz, sem parar as mãos.

Integrante da Cooperativa de Coleta Seletiva, Processamento de Plástico e Proteção Ambiental (CAMAPET), Seu Domício trabalha no Carnaval e em outros grandes eventos da cidade, mas explica que a coleta seletiva vai muito além da folia. “O Carnaval ajuda, melhora um pouco, mas o que a gente precisa mesmo é de um salário digno, fixo, para saber que todo mês vai ter alguma coisa garantida”, afirma. Aos 62 anos, ele resume em poucas palavras o sentimento de quem vive da reciclagem: trabalho contínuo, esforço físico e pouca segurança fora dos períodos de grande movimentação.

A realidade vivida por Domício se repete na trajetória de Bruno de Jesus Santos, 37 anos, que atua com reciclagem desde a infância com a mãe. “Minha vida toda foi trabalhar com reciclagem. É dela que sai o pão de cada dia, é o que ajuda a sustentar meus filhos e manter a casa”, conta. Para ele, além da renda, ainda falta reconhecimento. “Tem gente que olha para o reciclador como se fosse lixo. Mas isso aqui não é lixo, é reciclagem. É trabalho”, reforça.

 

Onde a coleta vira apoio

Durante o Carnaval, a coleta seletiva se intensifica e se torna a principal fonte de renda para centenas de trabalhadores. No Campo Grande, os Centros de Apoio aos Catadores e Catadoras funcionam como ponto de acolhimento e organização desse trabalho, resultado da atuação conjunta da Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (Setre), da Secretaria do Meio Ambiente (Sema) e do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema).

Segundo Aline Oliveira, fiscal da Sema atuante na Central de Politeama, a iniciativa fortalece a reciclagem como profissão, e não apenas como atividade pontual. “A coleta seletiva não é só para o momento do carnaval. Ela se torna, de fato, o trabalho e o sustento dessas pessoas”, explica.

Aline destaca ainda que, nos primeiros dias de funcionamento dos Centros de Apoio, o perfil predominante foi de pessoas que já atuavam com reciclagem, mas de forma autônoma. “O Carnaval é a grande oportunidade do ano, porque é quando a renda aumenta. Mas também é a chance de essas pessoas se organizarem e se integrarem às cooperativas”, avalia.

Na linha de frente dessa organização estão as cooperativas. Vice-presidente da CAMAPET, Michele Almeida explica que os Centros de Apoio oferecem estrutura essencial para que os catadores possam trabalhar com mais segurança e dignidade. “Aqui eles têm alimentação, água, espaço para descanso, banho e equipamentos de proteção individual. Isso é preservação ambiental e inclusão socioeconômica”, afirma.

Michele ressalta que o impacto financeiro do Carnaval é significativo. “Tem catador que consegue tirar, em três ou quatro dias, até R$ 2.600 só com a catação. A lata, o PET e o plástico têm um valor estratégico nesse período”, diz. Segundo ela, o trabalho desenvolvido durante a festa potencializa uma atuação que acontece ao longo de todo o ano. “As cooperativas fazem coleta seletiva em condomínios, empresas e escolas. O Carnaval amplia o volume, mas a reciclagem é contínua”, completa.

Além da coleta tradicional, iniciativas de reaproveitamento começam a ganhar espaço como alternativa de renda complementar. Integrante da Rede Recicla Bahia, Ziza Conceição atua com a reutilização de materiais recicláveis e defende que o reuso pode ampliar as possibilidades de trabalho. “O lixo transformado em arte é luxo. O catador precisa entender que não é só catar latinha. Ele pode transformar garrafa, plástico, jeans em bolsas, vasos e peças de decoração”, explica.

De acordo com Ziza, a proposta é fortalecer o grupo e, futuramente, oferecer formação também para filhos e filhas de catadores. “A ideia é criar cursos e mostrar que o material reciclável pode gerar renda de outras formas, não só na venda direta”, afirma.

 

Balanço parcial da coleta seletiva 

O trabalho intenso dos catadores e catadoras nos circuitos do Carnaval da Bahia já resultou, entre a noite de domingo (15) e a manhã desta segunda-feira (16), na retirada de 31.352 quilos de resíduos recicláveis das ruas, reforçando o papel da coleta seletiva como instrumento de geração de renda e cuidado ambiental durante a festa.

Do total coletado até agora, 21.866 quilos correspondem ao alumínio, principal fonte de renda no período, além de 5.230 quilos de PET e 4.256 quilos de plástico, materiais que seguem para triagem e destinação adequada pelas cooperativas, fortalecendo a economia circular e reduzindo os impactos ambientais do Carnaval.

Fonte
Valquiria Siqueira - Ascom Sema/Inema
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Carnaval da Bahia 2026
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