O aumento de 12 centímetros no volume de água na Lagoa do Abaeté nos três primeiros dias de abril comprovam a relação direta entre os baixos níveis de água da lagoa nos últimos meses e a rigorosa estiagem que a capital baiana atravessou, conforme estudos da Coordenação de Monitoramento da Superintendência de Recursos Hídricos (SRH), autarquia da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh). Entre os dias 01 e 03 de abril, foram registrados 71,2 milímetros de chuva pela Estação Pluviométrica montada no local, acrescentando 368 milhões de litros cúbicos de água na lagoa.
As especulações em torno de um possível sumiço da lagoa e as atribuições a outros fatores para justificar o quadro de seca no local não encontram respaldo nos resultados dos monitoramentos diários sobre o comportamento do volume de água e a precipitação na área da lagoa, feitos desde 2004 pela SRH, em parceria com a administração do Parque Metropolitano do Abaeté. A altura da água, que no dia 29 de março estava em 17,20 metros (tomando como base o nível do mar), amanheceu a última sexta-feira batendo na marca dos 17,32 metros.
“Nossos estudos já detectaram a relação direta da chuva com a altura da lagoa. Agora, estamos planejando fazer a batimetria da lagoa, ou seja, medir as profundidades em diversas áreas em parceria com outras instituições”, explica o coordenador de Monitoramento da SRH, Maurício Lima.
Estudioso do comportamento da lagoa, o geólogo da SRH, Zoltan Romero é categórico ao expor informações levantadas a partir do monitoramento. “Se a lagoa está secando, é porque todos os recursos hídricos da cidade estão secando pela falta de chuvas. Há 10 anos, as chuvas caem abaixo da média e isso tem impacto não só no Abaeté, mas em todos os rios e lagoas da cidade”, diz.
Para se ter uma idéia, dos 27 meses que compreendem o período entre janeiro de 2006 e março de 2008, apenas em cinco deles as chuvas ocorreram dentro da média histórica de precipitação, segundo dados do Centro Estadual de Meteorologia da SRH.
Urbanização
Porém, o geólogo destaca que o desenvolvimento urbano na região colabora para que a lagoa seque mais rápido. “Além de criar zonas de calor, que aceleram a evaporação da água, as construções e os concretos impermeabilizam o solo e dificultam a penetração das águas da chuva no lençol freático que carrega a lagoa, fazendo com que ela receba menos água”, detalha Romero. Quanto ao boato de que a lagoa está sumindo, ele conta que não existe nenhum dado científico ou estudos que apontem para esse fenômeno.
A administradora do Parque Metropolitano do Abaeté, Georgina Boa Morte, explica que o período do ano que a lagoa apresenta o maior volume de água é entre junho e julho, justamente depois do trimestre mais chuvoso do ano. “Nesta época, a água chega até aquelas arvores”, aponta para a extremidade noroeste da lagoa, onde um pedaço de duna, de aproximadamente 10 metros, entre a margem da lagoa e a mata de restinga, forma uma espécie de praia.
Monitoramento
O monitoramento do Abaeté é feito diariamente às 8h da manhã, através de dados colhidos em cinco réguas de níveis, instaladas em pontos da lagoa, e da verificação da estação pluviométrica, montada em 2003, que tem um pluviômetro Ville de Paris, importado da França. As réguas foram trocadas recentemente pela SRH, para a melhoria da qualidade do trabalho. O gestor ambiental da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh), Franklin Molinari, é quem faz as medições e repassa as informações para à SRH. A Semarh é o órgão responsável pelo Parque Metropolitano do Abaeté.
Em quatro anos de monitoramento, a SRH constatou que a lagoa atingiu o menor nível em dezembro de 2007, quando atingiu 17,5 metros, e o maior em agosto de 2005, quando subiu até a marca dos 20,04 metros. Esses anos foram também os de menor e maior índices pluviométricos de Salvador, respectivamente, desde 2003. No trimestre abril, maio e junho de 2005, a média pluviométrica foi de 330,1 milímetros de chuva por mês e no mesmo período de 2007, esse número caiu para 154,2 milímetros. A média histórica mensal para esses três meses é de 299,26 milímetros.
Para Maurício Lima, o conhecimento sobre as condições dos níveis das lagoas é de extrema importância para a execução de programas de conservação e proteção da Lagoa do Abaeté. “Muitos pesquisadores e instituições nos procuram em busca desses dados. As comunidades do entorno, que utilizam bastante a lagoa para lazer e como fonte de renda, através de pequenos comércios e lavagem de roupas, também necessitam dessas informações”, explica.
A administradora do parque conta que, entre os turistas que visitam o Abaeté, a maioria busca informações mais técnicas. Muitos pesquisadores de países europeus, como França e Alemanha, visitam semanalmente o Abaeté. Georgina Boa morte explica que 60% dos ônibus de turistas que chegam ao local trazem turistas estrangeiros. “Eles não vêm só para tomar cervejas nos bares, nos procuram para saber aspectos históricos da lagoa também”, comenta.
Reflorestamento
Franklin Molinari começou no ano passado um trabalho de reflorestamento do Parque Metropolitano do Abaeté, com plantas nativas da região. O primeiro passo foi, com a ajuda de estudantes e professores da Universidade Federal da Bahia (UFBA), fazer a identificação de todas as espécies arbóreas de restinga. Em seguida, fez a coleta de sementes para criar as mudas e agora, com todas as mudas já crescidas, o próximo passo será o plantio das espécies.
“Essa fase realizaremos com crianças e jovens da região, através de um trabalho de educação ambiental. O reflorestamento vai proporcionar melhoria na qualidade de vida do parque, através do sombreamento, do seqüestro de carbono e do paisagismo”, conta Molinari. Entre as espécies prontas para replantar, estão angelim, embaúba, cocoloba, cajueiro, gajiru, mangaba e ingá.
Fonte: Ascom/SRH