04.01.2011 - Os zoológicos não são mais os mesmos. Com as mudanças climáticas e o acesso mais fácil a outros continentes, onde as pessoas podem ver animais exóticos de perto, esses parques passaram a ter papel fundamental na preservação das espécies.
"Expor os animais somente para lazer é inadmissível em zoológicos modernos. A maioria dos 127 zoos brasileiros se norteia pela conservação", afirma Luís Pires, presidente da Sociedade de Zoológicos do Brasil.
Os zoos se abastecem com animais apreendidos que não têm mais condição de voltar à vida livre. Mantidos geneticamente puros, podem ter seus descendentes devolvidos à vida selvagem.
Foi o que aconteceu com o ameaçado mico-leão-dourado anos atrás. Graças a um plano de manejo internacional, que envolveu vários zoológicos, a espécie se reproduziu e ganhou fôlego ao ser devolvida à mata atlântica.
Cada espécie ameaçada tem seu plano de manejo, no qual todos os indivíduos mantidos em cativeiro no país ou no exterior, dependendo do caso, são considerados uma colônia única.
"Mantemos o plantel com baixa consanguinidade, sem distúrbios de comportamento e em condições sanitárias para serem soltos", diz Gerson Norberto, diretor do zoo de Salvador.
BANCO GENÉTICO - Em abril, o zoológico de Brasília deu um importante passo nessa direção ao inaugurar a Casa do Futuro --o primeiro banco genético de animais selvagens em zoos do Brasil. Ali, estão sendo armazenados sêmen e células-tronco adultas para uso em reprodução e tratamento.
Ele permitirá ainda o intercâmbio de material genético entre instituições sem precisar locomover os animais. "É uma reserva estratégica para a conservação da nossa biodiversidade", diz o diretor-presidente Raul Gonzales.
Sem esse recurso, outros zoológicos estão adequando seus espaços --deixando-os semelhantes ao habitat original-- para facilitar a reprodução natural em cativeiro.
Em Salvador, por exemplo, vidros especiais --através dos quais os bichos não veem os visitantes-- oferecem conforto acústico.
DESAFIO - A consanguinidade, no entanto, é um entrave. Para continuar a reprodução do urso-de-óculos, iniciada há 12 anos, o zoo de São Carlos (237 km de SP) precisa importar animais da Europa.
"Hoje, cerca de 70% desses ursos em zoos do país são descendentes diretos ou aparentados do casal daqui", diz o diretor Fernando Magnani.
Situação parecida é a dos muriquis de Curitiba - os quatro macacos do zoo são parentes. "É difícil conseguir animais porque há poucos em cativeiro", diz a bióloga Tereza Cristina Margarido.
O tratamento e a posterior devolução à natureza de animais acidentados já é rotina. A soltura de animais de cativeiro, no entanto, ainda engatinha --precisa de autorização do Ibama, esbarra na inadequação das áreas e depende de eles se adaptarem às condições de vida livre.
PARQUE ZOOBOTÂNICO DO MUSEU PARAENSE EMÍLIO GOELDI - Belém (PA)
O que é: No primeiro parque do gênero do país, 18 das 90 espécies amazônicas vivem livres em meio à vegetação natural.
Destaque: Abriga espécies ameaçadas de extinção, como ariranha, onça-pintada e ararajuba, e tem alta taxa de reprodução de tartaruga da Amazônia e tracajá
Desafios: A área de 5,4 hectares deve ser adequada ao conceito de bioparque --que valoriza as relações de interatividade e de interdependência entre fauna e flora
ZOOLÓGICO DE SALVADOR
O que é: Desde 2007, participa de sete grupos de manejo de espécies ameaçadas, como lobo-guará, ararajuba e cervo-do-pantanal. Mais de cem filhotes nasceram desde então, incluindo o mico-leão-de-cara-dourada, e diversos ambientes foram reformulados.
Destaque: Reprodução do macaco-prego-louro, redescoberto em 2006, permitirá enviar animais para sua área de ocorrência natural. Aves retornaram à natureza após a criação do seu novo espaço, de 900 m2, onde praticaram situações de vida livre. Mantém um banco de sêmen.
Desafios: Um grupo do ameaçado macaco-prego-do-peito-amarelo está sendo preparado para ser libertado no parque do Conduru (BA).
JARDIM ZOOLÓGICO DE BRASÍLI
O que é: Tem um programa de reprodução assistida de aves ameaçadas, como a arara-azul.
Destaque: Em abril, inaugurou a pioneira Casa do Futuro, um banco de células-tronco adultas e sêmen de diversas espécies para uso futuro em reprodução, clonagem e tratamento. Um lobo-guará e um macaco-prego acidentados já foram curados e, no futuro, será possível trocar material genético com outras instituições sem locomover os animais.
Desafios: O único zoo a reproduzir ariranha precisará encaminhar sua fêmea para reprodução assistida, com sêmen extraído de macho do zoo de Bauru.
ZOOLÓGICO DE SÃO PAULO
O que é: Com 3.000 animais de todos os continentes, reproduz os três tipos de mico-leão (dourado, de-cara-dourada e preto) mantidos em cativeiro e o tamanduá-bandeira. A harpia pode ter filhotes ainda este ano.
Destaque: Ameaçados de extinção, gatos-do-mato pequenos estão sendo condicionados para voltar à vida livre, em uma área do Estado onde estão extintos.
Desafios: Criar um banco genético para reprodução e identificação de subespécies e reorganizar a exposição por continente.
PARQUE ECOLÓGICO DE SÃO CARLOS (SP) DR. ANTONIO TEIXEIRA VIANNA
O que é: Especializado em fauna sul-americana, reproduz o urso-de-óculos. Já reintroduziu emas em uma estação ecológica do Paraná, onde estavam extintas.
Destaque: Procriação dos três micos, da onça-parda e da jaguatirica.
Desafios: Importar animais para continuar a reprodução sem aumentar a consanguinidade. Reforma para oferecer visitação por biomas, como Patagônia e Mata Atlântica.
ZOOLÓGICO DA UFMT - Cuiabá (MT)
O que é: Sua especialidade são animais do Pantanal, do cerrado e da mata ciliar _tem mais de mil exemplares.
Destaque: É o único a reproduzir em cativeiro o jacaré albino --tem dez animais e já cedeu um para o Aquário de SP.
Desafios: Reformar a área dos três lobos-guarás, que são consanguíneos, para fazer permutas e reproduzi-los. O recinto das jaguatiricas, que tiveram filhote há um mês, é outro que precisa de reforma.
ZOOLÓGICO DE CURITIBA
O que é: Tem 2.000 exemplares e, em uma ilha do Passeio Público, abriga uma família de muriquis, o maior macaco das Américas, em processo de extinção
Destaque: Foi o primeiro a reproduzir o ameaçado papagaio chauá, há um ano.
Desafios: Criar um centro de conservação de tamanduá-bandeira e concluir avaliação genética que determinará o grau de parentesco dos muriquis.
ZOOLÓGICO DE SAPUCAIA DO SUL (RS) - região de Porto Alegre
O que é: Tem 150 espécies de todo o mundo e conseguiu reproduzir coscoroba e cisne-de-pescoço-preto, espécies vulneráveis de cisne do Cone Sul, além do papagaio-de-peito-roxo.
Destaque: Participou da devolução do jacaré-do-papo-amarelo à natureza, entre outros animais
Desafios: Continuar a reforma, que já criou novos recintos para aves e bugios.
Fonte: Folha de São Paulo