Nesta segunda-feira (30) à tarde, o Centro de Estudos e Aperfeiçoamento (CEA) da Procuradoria Geral do Estado da Bahia (PGE-BA) promoveu uma Roda de Conversa sobre Acessibilidade, que aconteceu no Auditório Paulo Spínola, na sede da PGE-BA. O evento teve como objetivo fomentar discussões sobre os direitos das pessoas com deficiência, além de promover a troca de experiências e o debate sobre políticas de acessibilidade e inclusão.
Entre os convidados, estavam Mário Lima, Procurador do Estado da Bahia, Alexandre Carvalho Baroni, Superintendente dos Direitos da Pessoa com Deficiência da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos da Bahia, Iracema Vilaronga, Mestra em Educação e Contemporaneidade pela UNEB e atuante no campo da acessibilidade cultural, Marcelo Zig, filósofo e ativista dos Direitos Humanos, consultor em capacitismo e diretor de comunicação da Inklua, consultoria especializada em inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho e Sidney Reis Borges, Presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência (COEDE), consultor em acessibilidade e inclusão.
Aberta ao público, a Roda de Conversa sobre Acessibilidade ofereceu oportunidade para discutir temas relevantes sobre a inclusão e o fortalecimento dos direitos das pessoas com deficiência na sociedade. Iracema Vilaronga, que tem uma deficiência visual, falou um pouco sobre sua trajetória pessoal, a começar pela influência da sua mãe, que fez de tudo para que ela e seus irmãos ganhassem autonomia. “Ela nunca deixou de fazer nada por ter quatro filhos, dois deles com deficiência visual. Como tínhamos um resíduo visual, ela nos levou ao máximo de lugares possível. Certo dia, a professora chamou a minha mãe e disse que eu não poderia mais estudar porque estava com dificuldade visual. Fiquei três anos sem estudar, mas depois voltei porque minha mãe lutou e conseguiu me matricular, numa época em que nem se falava em acessibilidade, ainda", lembrou.
Ela também contou sobre a importância da professora, que não tinha formação em acessibilidade, mas a acolheu muito bem, verbalizando tudo o que escrevia no quadro e mantendo-a sempre ao seu lado. Para finalizar, Iracema fez uma reflexão sobre onde está a deficiência: "Quando uma pessoa surda está num ambiente, ela não se comunica porque é surda ou porque as pessoas ali não falam a língua dela?", indagou.
Sidney Reis foi o primeiro cadeirante a tirar a habilitação para dirigir uma moto, através de um procedimento que ele mesmo ajudou a criar, depois de muita persistência. Ele começou sua fala ecoando a reflexão de Iracema Vilaronga: "A única diferença que há entre nós é que a maioria sobe neste palco pelas escadas e nós, pela rampa". Ele falou também sobre a importância de agir pela acessibilidade para além do mês de setembro (quando acontece a campanha Setembro Verde), e convocou o público a pensar em algo que possa fazer a diferença na vida de uma pessoa com deficiência.
Marcelo Zig começou indagando: até quando a gente vai estar tendo que ser pioneiro? Zig pontuou que o ser humano é essencialmente interdependente, mas vive numa sociedade que cria uma grande ilusão de que temos que conquistar nossa independência. Ele, que se tornou uma pessoa com deficiência aos 21 anos, em função de um acidente ao pular em águas rasas, discorreu sobre a importância de falar sobre acessibilidade como um direito de todos, e não somente de pessoas com deficiência. " Como ser humano somos muito bons em fazer guerra. Mas quem aqui já leu, assistiu ou ouviu alguma matéria sobre a experiência de uma pessoa com deficiência na Palestina, na Ucrânia, ou nas enchentes do Rio Grande do Sul? Percebem a invisibilidade da pessoa com deficiência?", provocou Marcelo Zig, para quem promover a inclusão não é, por exemplo, criar um caixa só para pessoas com deficiência, mas adequar todos eles à acessibilidade e dar às PCDs o direito de escolher onde querem ser atendidas. "Se os espaços e as políticas públicas começarem a ser pensados a partir da percepção das pessoas com deficiência, ninguém ou pelo menos muito menos pessoas se sentirão excluídas, finalizou Zig.
Alexandre Baroni relatou que até os 24 anos viveu uma vida normal, até sofrer um acidente de carro, que o deixou tetraplégico e o tirou totalmente de tudo aquilo que ele planejava ser e ter. Ele falou sobre a importância dos familiares na superação dos desafios. "E quando você passa a reorganizar sua vida e entender que, como disse Irá, há mais de uma forma de fazer a mesma coisa, a gente começa a entender que não é tão diferente assim dos outros", defendeu Baroni. O procurador Mario Lima agradeceu ao CEA pela oportunidade e falou sobre a importância do tema inclusão e acessibilidade estar sendo discutido numa casa jurídica, numa casa de procuradores. “A constituição, no seu preambulo, diz que um dos objetivos do texto é eliminar toda forma de discriminação, e nessa mesma constituição, um dos fundamentos é a dignidade da pessoa humana. Quando a lei enumera de forma abstrata um direito, algo precisa acontecer para que esse direito se transforme em algo real na vida das pessoas, e aí está a importância das políticas públicas”, ressaltou.