A tarde desta terça-feira (18) foi dedicada à reflexão histórica e ao fortalecimento da memória negra na Procuradoria Geral do Estado da Bahia (PGE-BA), com a exibição do documentário “1798 – Revolta dos Búzios”, do cineasta e pesquisador Antônio Olavo. A atividade integrou a programação do Novembro Negro da instituição e reuniu público no Auditório Paulo Spínola para assistir ao filme e participar de um bate-papo com o diretor.
A obra revisita um dos movimentos mais significativos da história de resistência negra no Brasil colonial. No final do século XVIII, inspirados pelos ideais iluministas da Revolução Francesa, homens negros – livres e escravizados – articularam um projeto revolucionário que defendia independência, república e o fim da escravidão na Bahia. Apesar da repressão violenta que resultou em prisões, degredos e na execução de quatro jovens negros na Praça da Piedade, o levante permanece como símbolo de luta por liberdade e igualdade.
Durante a conversa com o público, Antônio Olavo ressaltou a relevância histórica da revolta e defendeu que o episódio deveria ocupar um lugar de destaque na memória nacional. Para ele, “esse é o movimento histórico mais importante do Brasil, até mais do que a Inconfidência Mineira, porque somente Búzios defendeu a independência, a república, assim como os demais, e o fim da escravidão. Esse foi o diferencial.”
O cineasta também comentou as escolhas de linguagem e estrutura que nortearam o documentário. Segundo afirmou, o projeto nasceu da inquietação diante do apagamento histórico imposto aos líderes da revolta. Olavo explicou que, “ao contrário de tantos outros, principalmente de Tiradentes, cujas famílias seguiram sendo reconhecidas e este último, a trineta ainda recebe auxílio do Estado até hoje, os líderes de Búzios foram sentenciados ao apagamento. Seus descendentes não são identificados, por um motivo simples: na sentença estava escrito ‘serão infames para sempre, a suas memórias, seus filhos e netos’.”
A partir dessa constatação, o diretor baseou o filme nos autos da Devassa que investigou o movimento. Para dar dinamismo à narrativa, convidou integrantes do Bando de Teatro Olodum como narradores adicionais, utilizou animações inspiradas na iconografia da época e construiu pausas de respiro diante da densidade do tema. Ele ressaltou ainda a colaboração de músicos baianos, como Jorjão Bafafé, que contribuíram de forma solidária. “Contei a história de 15 meses com recortes do processo. Fiz alguns poucos ajustes apenas na linguagem, sem alterar o contexto, para que fosse acessível e atrativo, mesmo com pouco orçamento”, afirmou.
Representando a Secretaria de Educação, Rowenna dos Santos Brito, a Coordenadora de Programas e Projetos Artísticos Culturais de Educação Básica da SEC, Djenane Santos, destacou o impacto do trabalho do cineasta para a formação de estudantes e para a compreensão da história negra baiana.
Segundo ela, “Olavo traz um letramento racial. Para a juventude que busca um direcionamento na educação antirracista, seu trabalho é diferenciado, pois ele recontar a história, com base em suas pesquisas aprofundadas. É importante que as pessoas conheçam sua produção, que é uma aula, educativo.”
A mediação do encontro ficou a cargo de Francisco Alves Junior, jornalista, doutor em Comunicação e pesquisador de conteúdo, arquivos e personagens para produções audiovisuais, além de associado à Pavic – Pesquisadores de Audiovisual, Iconografia e Conteúdo.
A atividade integra o Cine Baiano em Ação, projeto do Centro de Estudos e Aperfeiçoamento (CEA) da PGE-BA, que promove a difusão da cultura e da produção cinematográfica baiana. Por meio da exibição de filmes e da realização de debates, a iniciativa estimula o pensamento crítico e o intercâmbio de ideias sobre temáticas sociais relevantes - um compromisso reforçado pela programação do Novembro Negro da instituição.