Cebola do Vale: orgânica tem vez
Foram dois anos de testes até que os pesquisadores da Embrapa Semi-Árido em Petrolina (PE) e que também desenvolvem trabalho na região de Juazeiro (500 km de Salvador) chegassem ao manejo orgânico de cebola com aproximadamente 38 toneladas por hectare de bulbos comerciais. A quantidade foi superior à média registrada com os métodos tradicionais de cultivo na região, que é de 20 toneladas por hectare. O resultado, segundo o pesquisador Nivaldo Duarte Costa, demonstra a viabilidade técnica da alternativa e abre aos agricultores da região as portas para o mercado de orgânicos, "em franca expansão no Brasil".
O pesquisador afirma que as oportunidades comerciais no mercado podem contribuir também para a redução da instabilidade dos preços praticados no negócio desta cultura e que são freqüentes. E as taxas dos produtos orgânicos no País estão crescendo entre 30% e 50% ao ano. A expectativa é que, este ano, o faturamento de orgânicos alcance US 250 milhões, sendo 70% gerados com exportações.
"Um negócio com essa dinâmica de expansão não pode ser ignorado pelos agricultores que cultivam cebola aqui no Vale do São Francisco", afirma Costa.
Apesar de ainda não haver produtores investindo na cultura orgânica da cebola no Vale, o pesquisador assegura que a busca por esse mercado deve ampliar as oportunidades comerciais para agricultores da região que se destaca como a segunda maior produtora do Brasil, atrás apenas de Santa Catarina.
Sistemas - Atualmente, o Vale do São Francisco colhe 272,4 mil toneladas de cebola, quase toda a produção cultivada de forma convencional, com uso intensivo de insumos químicos. No entanto, garante Nivaldo Costa, há espaço para a cebola orgânica de boa qualidade, graças a uma base técnica bem estabelecida, de pesquisadores e professores não só da Embrapa Semi-Árido como também da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA) e da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA).
As pesquisas tomaram como ponto de partida as exigências nutricionais e a alta incidência de pragas e doenças nos plantios de cebola, mostrando que a produtividade no plantio orgânico pode superar a convencional e não devem ser considerada de alto risco ou de pequena viabilidade comercial. Através dos testes de campo, com apoio do Banco do Nordeste, os pesquisadores descobriram que o plantio de cebola orgânica pode alcançar maior produtividade.
Prática - Produzir de forma orgânica não quer dizer que a cultura ficará no campo sem cuidados, para se desenvolver por si. Na verdade, demanda práticas agrícolas e conhecimentos para cada etapa de desenvolvimento da cultura, desde o preparo do solo à variedade mais adequada, de controle de pragas e doenças à lâmina de água para irrigação.
Segundo Jairton Fraga Araújo, professor do Departamento de Tecnologia e Ciências Sociais do Campus III da Uneb em Juazeiro, que participa da pesquisa, "as tecnologias e conhecimentos que geraram já substituem com sucesso os manejos da agricultura convencional marcados pelo uso intensivo de insumos químicos e práticas que esgotam a fertilidade natural do solo".
Um dos pontos fundamentais para investir na produção de culturas com recursos técnicos é que impactam minimamente o meio ambiente e não ameaçam a saúde de agricultores e consumidores. "Além de possível é muito desejável", defende Araújo.