Ação especulativa tensiona preços

20/11/2008

Ação especulativa tensiona preços


Em três anos, o número de contratos futuros de milho, sem entrega física, negociados no mercado financeiro saltou de pouco menos de 135 mil para 616 mil - aumento de 357%. As negociações referentes às outras commodities agrícolas acompanharam essa tendência especulativa e também cresceram, em proporções menores. Esse crescimento das posições compradas de natureza especulativa, seria um dos principais vilões, se não o principal, do aumento dos preços dos alimentos, revela estudo realizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV Projetos).

No caso da soja por exemplo, a participação desses contratos no total dos negociados era de 30% em 2005 e subiu para 49,3% no primeiro semestre deste ano. "E é bem possível que haja distorção nessa proporção uma vez que a designação dos traders podem conter imprecisões, já que para os especuladores existe motivação em se definirem como "commercial hedging" (com entrega física) para evitar os limites expostos a posições especulativas", projeta Alexandre Mendonça de Barros pesquisador e professor da Escola de Economia de São Paulo (FGV/EESP).

Barros pondera que essa distorção provocada pelo aumento do número de contratos sem entrega física confere às cotações das commodities agrícolas um caráter volátil o suficiente para "inviabilizar a avaliação de um preço de equilíbrio". Os preços dos bushels da soja e do milho atingiram os picos das cotações na Bolsa de Chicago (CBOT) pouco antes do estopim da crise do subprime quando os grãos alcançaram, respectivamente, US$ 16,6 e US$7 o bushel. Hoje eles são negociados na mesma Bolsa pela metade desses valores.

A ação especulativa divide a cena com os níveis mundiais dos estoques de grãos que, segundo análise da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (Fao) se limitam a 60 dias de abastecimento. Em se tratando de milho, o número de toneladas estocadas é ainda menor. Segundo o estudo da FGV Projetos, é a presença agressiva dos especuladores aliada à demanda devoradora de estoques que ampliou a volatilidade dos preços dos alimentos, eliminando qualquer incidência da produção de biocombustíveis sobre a formação dos preços em questão. De acordo com Barros, nem o milho americano, que abastece a produção de etanol daquele país, teria impacto significativo para explicar a alta mundial de preços.

Mas no caso específico desse cereal, os estoques também não podem ser avaliados como determinantes para a formação de preços, o Brasil é o único produtor do grão que vai virar o ano com o estoque de passagem abarrotado, 145% maior que a média histórica. Nos Estados Unidos, os mesmos estoques de passagem vão ser 30% menor que a média, na Argentina 17% inferior. "Aí entram em cena outros fundamentos, como os "hedgefunds" (fundos de investimentos) se desfazendo dos contratos futuros", explica Mendonça de Barros.

Segundo ele, o número de posições compradas - referentes às commodities agrícolas - de natureza especulativa caiu drasticamente desde o início da atual crise financeira. Queda que pode e já tensiona os preços para baixo. O ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues não aposta em uma depreciação ainda maior dos tais preços, cenário que também não é avistado por Mendonça de Barros, mas, que os dois concordam, seria "um desastre primeiro para a agricultura, depois para a economia".