Keynes deveria ser aplicado à agricultura

24/11/2008

Keynes deveria ser aplicado à agricultura


Já faz parte de um passado que podemos chamar de "era pré-globalização" o tempo em que a reação natural a uma forte crise econômica era a criação de cenários ainda mais pessimistas e a suspensão de investimentos ou da busca de novos negócios.

Já virou clichê dizer que a débâcle do sistema financeiro americano - e depois mundial - deveu-se à de falta de regulação e que precisamos de mais intervenção do estado na economia.

A avaliação desse paradigma (ou seja, qual é a maneira mais eficiente, no longo prazo, de garantir a melhor alocação de recursos na economia) é uma questão que ainda será muito debatida. No momento atual, Keynes e a sua política viraram uma referência de políticas regulatórias e anticíclicas do Estado.

Mas temos que lembrar que há mais de 30 anos, quando Nixon disse frase citada acima, o mundo estava fazendo uma mudança para maior liberalização da economia - justamente o oposto do que está se pedindo agora, também em busca de mais eficiência dos diversos setores da economia.

Sem dúvida estamos no campo das incertezas. Por isso, podemos inverter essa visão: o importante, nesse momento, é diminuir a incerteza para o campo. Explico melhor: se já se admite que diversos setores da economia precisam de uma intervenção ao estilo keynesiano, muito mais necessita dela o de agronegócios. Afinal, os fatores que agora afetam todos os setores produtivos - crise de liquidez, volatilidade dos mercados e da marcação dos ativos -, estão atingindo com mais intensidade os produtores rurais e o agronegócio no Brasil. Nesse momento, tudo pode ser encarado como ameaça.

O agronegócio vinha de uma recuperação quando foi atropelado novamente por esse vendaval que começou com a crise americana. Junto com uma brutal contração do crédito para os insumos e para a exportação e da falta de clareza do futuro dos preços das commodities, existe a pressão do aumento do custo de matérias-primas, em especial de fertilizantes, mas também sem esquecer o aumento do preço do aço que impacta muito o setor de máquinas agrícolas.

O governo está atento a isso. Já atuou, recentemente, ampliando o crédito agrícola para mitigar o problema do aperto na liquidez. Mas a questão é mais ampla - e daí o titulo desse artigo. O foco é, sem dúvida, a regulamentação.

Podemos dizer que, se um determinado setor está em crise, deve socorrido pelo governo, ou seja, a crise é socializada; isso implica que esse setor deve passar a ser regulamentado. Para a agricultura, regulamentação significa, essencialmente, garantia de renda. Os últimos ministros da Agricultura, inclusive o atual, Reinhold Stephanes, têm essa visão.

Precisamos, portanto, aproveitar esse momento e, na esteira de repensar o papel do estado, acelerar a implantação dos processos que vão garantir estabilidade para o agronegócio - preços mínimos em níveis adequados, políticas regulatórias de estoques e seguro agrícola.

Os produtores brasileiros têm tecnologia adequada. Trabalham com um pacote tecnológico: sementes, fertilizantes, defensivos, práticas culturais adequadas que não devem nada a nenhum outro país. O nosso setor disponibiliza máquinas agrícolas modernas e adequadas às condições brasileiras.

Em meio aos atuais distúrbios internacionais, o Brasil precisa descobrir, por exemplo, que fortalecer o agronegócio é uma ótima estratégia para se enfrentar a crise.

Em outras palavras, precisamos definir o "quão keynesianos" queremos ser.