Agricultores aprendem a extrair o melhor do licuri

01/12/2008

Agricultores aprendem a extrair o melhor do licuri


Produção da palmeira na região de Senhor do Bonfim é base de sustentação dos agricultores familiares. Planta é ainda explorada de forma extrativista

Entre serras e vasta área do semiárido no norte do Estado, a atividade extrativista do licuri representa geração de emprego e renda para a maioria da população de Caldeirão Grande, município que fica distante 330 km de Salvador. Protegida por lei para preservação da espécie nativa, as palmeiras de licuri, fruto também conhecido como ouricuri ou coqueiro-cabeçudo, são típicas do semiaacute;rido nordestino e estão espalhadas por toda a extensão de Caldeirão Grande.

Base de sustentação econômica de agricultores familiares da região, os licurizeiros da caatinga ganham agora maior atenção devido a sua importância e potencial produtivo e nutricional.

Técnicos da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA) mostram que é possível organizar a atividade e explorar a potencialidade da cultura não apenas de forma extrativista.

De acordo com o técnico da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA) Marco Antônio Gonçalves Liberal, existem hoje catalogados 16,5 milhões de pés de licuri só na área de Caldeirão Grande, que está entre os três maiores produtores da Bahia junto com Jacobina e Campo Formoso.

PRODUÇÃO - Esta palmeira nativa típica da caatinga - também conhecida como aricuri, nicuri, alicuri e ouricuri - produz de seis a oito cachos por ano cada uma, com 1.350 cocos e um rendimento de até 12 kg de amêndoas.

A maioria dos cultivadores de licuri trabalha de maneira extrativista.

São aproximadamente 80% na região. Os agricultores não têm problemas com os proprietários das terras onde está localizado o licuri. "Salvo alguns poucos que não permitem a en trada do extrativista em sua área, mas quase todos entendem a atividade e não se incomodam", esclarece Marco Liberal, da EBDA.

De acordo com o técnico, a EBDA presta assistência aos cultivadores, mostrando a melhor forma de trabalhar com a extração do licuri. Alguns cursos serão realizados sobre associativismo e cooperativismo no sentido de fazer com que os agricultores aprendam sobre organização.

A importância desse aprendizado será fundamental para ajudar inúmeras famílias que vivem da extração do licuri há muitos anos. A proposta é criar uma associação e uma cooperativa para os agricultores familiares que exploram a cultura do licuri e, para isso, já foi feito um cadastramento de 3.500 agricultores familiares que exploram a cultura.

MAIS PLANTAS - O clima e a luminosidade comum pelo alto índice de insolação fazem com que a produção de licuri seja garantida durante todo o ano. Mas essa sustentação também recebe ajuda dos animais, que disseminam a planta com mais rapidez.

"O animal come as folhas e as amêndoas e vai espalhando os restos por onde passa, semeando e fazendo nascer novos pés", explica Liberal, da EBDA. Dessa enforma, caprinos e ovinos, outra parte da economia local, contribuem para a manutenção dos licurizeiros, ampliando a área com a presença de mais plantas.

A profissionalização dos agricultores para produção artesanal de qualidade deverá sair de um convênio a ser firmado com instituições parceiras no sentido de atender às exigências de um mercado promissor.

RESPIRA LICURI - Com uma população de 13.072 habitantes, o município de Caldeirão Grande "respira um ar que tem o licuri como aroma principal". E é só olhar para todos os lados da cidade que se vê o porquê da expressão do povo de lá. Mesmo em período de grandes estiagens, a garantia de trabalho das famílias que não têm emprego é a presença das palmeiras do licuri.

"Em Caldeirão Grande, a população vive da criação de caprinos e ovinos, do bovino de leite, culturas de sequeiro, como feijão, milho, mamona e mandioca, plantadas, a depender das variações climáticas", informa o técnico Marco Liberal.

Proibido por lei ambiental de ser cortado, o licuri serve de alimento para a ararinha-azul, ameaçada de extinção no País. E a variedade de utilização é imensa.

A retirada da palha, também chamada de "garra", rende aos cultivadores R$ 4 por cada metro cúbico. A média de retirada da "garra" é de pelo menos 10 m³/dia (renda de R$ 40). A palha serve para queima da cerâmica.

Com trabalho manual, os extrativistas quebram as amêndoas e vendem para os atravessadores a preços de R$ 0,40 a R$ 0,60 o quilo. Cada pessoa quebra manualmente 1 kg de licuri em 1h30min, mas 10 máquinas e balanças serão distribuídas em 10 associações de Caldeirão Grande.

O maquinário agilizará o trabalho, com a quebra da amêndoa estimada em 600 kg/h.