Usina: o início da modernização
Inaugurada em abril deste ano, a usina de extração de óleo de licuri representa o início da modernização de um trabalho familiar. A Indústria Cidadã compreende 16 associações da região que vendem para a usina os licuris, alguns processados e selecionados, mas outros ainda na casca. A usina possui máquina de quebra, equipamento para a extração de óleo, com capacidade para processar dois quilos de amêndoas de licuri.
As amêndoas quebradas são colocadas em um processador onde serão extraídos 42% do óleo e 50% de farelo. Marco Liberal, da EBDA, explica que o óleo não é totalmente retirado, "porque o farelo não deve perder todo o seu valor protéico, pois será utilizado nas propriedades como ração animal".
O óleo vai para um recipiente e o farelo para outro, com máquina de processamento trabalhando mais rápido à medida que a temperatura sobe a pelo menos 50º C.
Processo - O óleo de licuri extraído é levado por um cano até um decantador onde a parte mais grossa com as impurezas desce e a líquida é levada em seguida para um filtro. De lá, o óleo de licuri é armazenado em uma caixa de cinco mil litros e distribuído para comercialização a indústrias de cosméticos em galões de dois mil litros.
"Como estamos em período de entressafra, a oxidação do óleo não é a desejada, e, por isso, o valor do produto é R 2,80, mas pode chegar a R 3,20", conta o técnico da EBDA. Segundo Liberal, do coquinho do licuri são extraídos 9% de óleo, 9% de farelo, 2% de água e 80% é casca.
João José Jesus dos Santos, de 52 anos, é um dos quatro trabalhadores da usina e diz que sempre trabalhou com licuri. Feliz por ter saído da difícil vida de extração, Santos afirma que "não existe coisa melhor que ter horário de trabalho e salários certos". Acostumado a ir a campo extrair o licuri, quebrar e separar manualmente, auxiliado pela família, ele não sente saudades da dureza da vida na roça, onde o dinheiro era incerto. Diferente de dona Elizabete Jesus Neres, que ainda vive da quebra e separação artesanal do licuri.
Sentada na pequena sala de sua casa, em Caldeirão Grande, rodeada de licuri quebrado e outros por quebrar, a senhora de 47 anos vive da atividade e diz que é seu trabalho desde que tinha 13 anos. Os cinco sacos de licuri foram comprados de cultivadores a R$ 20 cada um.
De cada saco ela consegue retirar entre nove e dez quilos de licuri, que são vendidos por R 1 o quilo aos atravessadores. "O trabalho é duro, mas, para quem é pobre, é assim mesmo, tem que agüentar. Não existe trabalho na cidade e nós temos contas para pagar", diz. Todos na família ajudam no trabalho de quebrar licuri.
Uso - O óleo de licuri é um dos melhores produtos para a fabricação e produção de saponáceos como detergentes, sabão em barra, sabão em pó e até sabonetes.
Segundo o Grupo de Pesquisa Lavoura Xerófila, especializado em estudos sobre o desenvolvimento sustentável do semi-árido nordestino, as sobras obtidas a partir da extração do óleo produzem uma torta que serve para alimentar animais. Todo o processamento e experimentos da Indústria Cidadã de Caldeirão Grande poderão ser vistos durante a Fenagro, que acontece em Salvador até o dia 7.