Fábricas decretam férias para ajustar a produção
A escassez de crédito e as incertezas sobre o futuro do agronegócio estão fazendo com que algumas fábricas de máquinas agrícolas determinem férias coletivas para ajustar a produção. Em algumas regiões, o cenário é exatamente oposto ao mesmo período do ano passado, quando algumas empresas fizeram novas contratações para suprir a demanda no então mercado aquecido. As indústrias explicam que as férias são normais nesse período do ano por causa da redução na demanda por tratores, segmento que possui maior número de funcionários. No entanto, acreditam que as colheitadeiras devem sentir um pouco mais o impacto da crise porque possuem maior valor agregado e não há programas de incentivo para novas compras semelhante aos tratores. Os representantes dos metalúrgicos, por outro lado, revelam que no mesmo período do ano passado a situação era diferente e algumas empresas até criaram novas vagas.
Ontem, a fábrica da Case IH em Piracicaba, onde são produzidas colheitadeiras de cana-de-açúcar, notificou o sindicato da região que está determinando férias coletivas para cerca de 200 funcionários. A unidade emprega pouco mais de 240 pessoas (entre efetivos, temporários, estagiários e terceiros) e produz em torno de 350 máquinas por ano. A empresa é lider de mercado em colheitadeiras de cana-de-açúcar com mais de 50% de participação no mercado nacional. "No mesmo período do ano passado, a empresa estava contratando novos funcionários", revela José Florêncio da Silva, vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Piracicaba. Ele acredita que a crise americana e a escassez de crédito devem reduzir a demanda por máquinas. "Nessa época era para estar aquecido (o setor). A situação foi agravada por causa da desaquecida nos biocombustíveis", completa.
Em Montenegro (RS), onde a americana John Deere inaugurou sua fábrica em maio deste ano, a expectativa é que as férias sejam mais longas que o esperado. "Normalmente, os trabalhadores páram por 20 dias. No entanto, a fábrica ampliou para 30 dias o período de descanso", observa Francisco Kuhn da Costa, presidente do Sindicato de Metalúrgicos de Montenegro (RS). Por meio de sua assessoria de imprensa, a empresa afirmou que a determinação não tem relação com a crise e está dentro do previsto. Há cerca de dois meses, a fábrica de Horizontina demitiu mais de 200 pessoas por causa de um cancelamento nas compras da Argentina.
Milton Rego, vice-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), explica que o mercado de tratores recua sazonalemente no final do ano. "É o setor que mais emprega, por isso é normal as empresas reduzirem o ritmo". Ele acredita que mesmo com a crise, o volume de negócios com tratores não vai recuar por causa dos programas de incentivo como o Mais Alimentos, do governo federal e o Pró-Trator, do Estado de São Paulo. Neste último caso, o produtor recebe desconto de 20% na compra do produto novo e pode financiar com juro zero, além do subsídio do estado, que pode elevar a economia para 30%. No total, serão injetados R$ 500 milhões em crédito para os produtores com renda bruta anual de até R$ 400 mil. "O setor sentirá com certeza algum impacto. Mas essas medidas devem compensar o recuo que teremos no Centro-Oeste, por exemplo, onde a restrição ao crédito vai diminuir as vendas", completa Milton Rego.
Milton Viario, presidente da Federação dos Metalúrgicos do Rio Grande do Sul, explica que a situação no resto do estado é normal.