Sem capital, somente 30% das usinas devem fazer manutenção

03/12/2008

Sem capital, somente 30% das usinas devem fazer manutenção


Além de menor uso de adubo, a próxima safra de cana-de-açúcar deve ser marcada também por problemas industriais. Isso porque a falta de capital de giro neste final de safra vai limitar a contratação de serviços de manutenção de caldeiras e equipamentos na entressafra, que começa na segunda quinzena de dezembro. A estimativa do Centro Nacional das Indústrias do Setor Sucroalcooleiro e Energético (Ceise-BR) é de que as indústrias de base irão fazer a manutenção de apenas 30% dos equipamentos das indústrias do Centro-Sul. "A maioria das usinas tem optado em fazer apenas os reparos essenciais nos equipamentos", explica o presidente do Ceise-BR, Mário Garrefa.

José Carlos Toledo, presidente da União dos Produtores de Bioenergia (Udop), entidade que representa as usinas do Oeste de São Paulo, não acredita em um percentual tão baixo na procura pelo serviço. "Todas as usinas, assim como o restante do País, estão com dificuldades muito sérias de caixa. Mas, o governo está tomando medida para irrigar a economia com crédito e elas devem surtir efeito a ponto de não deixar a situação chegar a este nível de manutenção tão baixa", acredita Toledo.

Matheus Carvalho, gerente de planejamento e manutenção da Usina da Pedra, em São Paulo, afirma que a situação, de fato, está mais complicada neste momento e que "alguma manutenção" deve deixar de ser feita, mas nada muito "radical". "Devemos deixar de fazer alguma manutenção pontual, que não afetará o funcionamento da usina", garante o gerente do grupo Usina da Pedra, que possui quatro unidades em Ribeirão Preto, que somam moagem de 10 milhões de toneladas de cana-de-açúcar.

Em reunião pública com investidores e analistas, ontem em São Paulo, o diretor-presidente da Açúcar Guarani, Jacyr Costa Filho, avaliou que a escassez de crédito no setor sucroalcooleiro vai causar uma queda na produção do ano que vem. "Saímos de uma safra longa e difícil. Choveu muito, o que causa um desgaste maior nos equipamentos, que recebem muita terra junto com a cana, o que vai requerer investimentos relevantes em manutenção, que podem não ocorrer na proporção da necessidade", avalia Jacyr.

Sem estimar volumes, ele acredita que haverá no próximo ano uma redução da oferta até agora projetada. "Teremos cana em pé, mas que não será transformada em produto final", complementa.

A empresa anunciou ontem que está intermediando linhas de financiamento para seus fornecedores de cana para investimento na lavoura e que não deixará de fazer manutenção em equipamentos nesta safra, justamente para aproveitar o bom momento esperado para o ano que vem, sobretudo no mercado de açúcar, cujos fundamentos apontam déficit mundial e, teoricamente, elevação de preços. "Estamos intermediando a liberação de R$ 20 milhões aos nossos fornecedores. Também devemos aplicar mais R$ 70 milhões até o final da safra - além dos R$ 146 milhões já investidos neste ciclo - para mecanização e pequenas ampliações na moagem, como de 200 milhões de toneladas na unidade de Tanabi, que sairá de 1,1 milhão de toneladas para 1,3 milhão de toneladas de capacidade de moagem. As sete usinas do grupo, sendo uma em Moçambique, somam moagem de 14,2 milhões de toneladas e devem encerrar esta safra com mix de 41% para etanol e 59% para açúcar.