Área plantada de algodão vai encolher mais 20%
A redução da área plantada de algodão em 2009 poderá ser de 20%. Mesmo sem crise econômica, já era previsto que a produção brasileira de algodão iria diminuir pelo menos 10%. "Não podemos jogar tudo na crise", afirma o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Haroldo Rodrigues da Cunha que vê problemas no excesso de oferta mundial.
Se no cenário interno um dos principais motivos da retração do plantio é a falta de crédito, na área internacional o problema maior é a existência de estoques elevados, o que joga os preços para baixo. Segundo Cunha, globalmente há estoques de algodão suficientes para atender seis meses de toda a demanda mundial. Mesmo assim, a Abrapa estima que as exportações brasileiras de algodão vão bater recorde em 2008. Até outubro, as vendas externas chegaram a 400 mil toneladas, crescimento de 48% sobre o mesmo período de 2007.
De acordo com os cálculos da Abrapa, refeitos com base em novas estimativas de consumo, mais modestas em decorrência da crise, o mundo tem hoje estoque de algodão que representa 50% do consumo anual. Antes da crise, quando o consumo estava mais aquecido, esses estoques já eram altos, representando cerca de 40% do consumo anual global. Conforme Cunha, o preço pago atualmente pela arroba é de R$ 34, embora o custo de produção seja de R$ 44.
Segundo o presidente da Abrapa, havia grande expectativa de recuperação da remuneração ao produtor apesar da desvalorização do real frente ao dólar, mas atualmente o produtor de algodão está recebendo valores 30% mais baixos que em meados do ano. Em julho, o preço praticado no mercado internacional era de US$ 0,85 por libra peso, valor que caiu atualmente para US$ 0,47 por libra peso.
Perante esse cenário de excesso de oferta, preços internacionais baixos e falta de crédito interno, Cunha prevê que a cotonicultura enfrentará dois anos de dificuldades, com retração da área plantada de 20%. Números da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para a safra 2008/2009 apontam para redução entre menor, entre 10,6% e 14,5% na área ocupada com lavouras de algodão na comparação com a safra passada. Para a Abrapa, a área plantada vai cair de 1,087 milhão de hectares, na última safra, para algo entre 880 mil e 900 mil hectares, neste novo plantio.
Segundo Cunha, embora sigam as dificuldades para a conclusão do plantio da atual safra, o desafio é pensar no futuro, tanto em relação à comercialização da próxima colheita como em relação ao plantio 2009/10. A Abrapa destaca que a Índia, outro forte fornecedor mundial de algodão, mantém expansão da oferta, sob políticas de subsídios internos. "Além disso, 85% da produção indiana é com algodão transgênico, afirma Cunha, em uma crítica à situação do Brasil, onde o setor enfrenta restrições determinadas pela legislação de biossegurança. A Austrália, destaca Cunha, também está ampliando a produção. Dos grandes produtores mundiais, somente Brasil e Estados Unidos estão reduzindo a oferta de algodão.
A Abrapa defende a liberação de suporte adicional de R$ 800 milhões para a comercialização da próxima safra. A entidade chegou a reclamar a também pela liberação de US$ 500 milhões para operações com Adiantamento de Contrato de Câmbio (ACCs) no início da crise. Cunha avalia que esse dinheiro está começando a fluir, mas a dificuldade, agora, são os prazos curtos das operações, incompatíveis com o ciclo do mercado de algodão. Segundo ele, seria necessário operar com prazos entre 360 e 450 dias, mas o máximo que o setor tem obtido são operações de até 180 dias.