Especulação e crise ditaram ritmo em 2008

30/12/2008

Especulação e crise ditaram ritmo em 2008

 

Os fundamentos podem voltar a ter um pouco mais de espaço no mercado de commodities agrícolas em 2009, depois de um ano de forte volatilidade, sustentada por especulação e agravamento da crise mundial. Com as incertezas sobre o rumo da economia mundial, analistas acreditam que agentes especuladores - como fundos de investimento e instituições financeiras - devem buscar mercados mais seguros e com menor volatilidade, diminuindo a atuação nas commodities e trazendo o valor dos produtos de volta à realidade.

Além disso, o recuo nas cotações do petróleo amenizou o apetite por fontes alternativas de energia, outro fator que atraiu os investidores. Mesmo assim, não deverá ocorrer um descolamento imediato do mercado financeiro, que continuará influenciando as cotações por causa do dólar e da dinâmica imprevisível dos negócios. Desde 31 de julho deste ano, o dólar subiu 52% e no último dia 26 estava em R$ 2,37.

Os grãos estão com tendência de alta desde outubro de 2006. O movimento foi acelerado após a crise do subprime, nos Estados Unidos, em agosto de 2007, explica Vinícios Ito, analista da Newedge. "Os investidores compensaram nas commodities as perdas no mercado financeiro. O consumo não acompanhou a alta e provocou a desconfiança dos investidores, que começaram a liquidar os contratos. Após isso, vieram os sinais de recessão e logo em seguida a depressão, culminando com o pânico generalizado e o desabamento dos preços", lembra. Ele observa que essa queda pode ter ocorrido além da realidade da demanda, o que favorece uma recuperação. "Dezembro é o período de fechamento do ano fiscal nos EUA. Isso diminui o volume de negócios e abre espaço para os fundamentos".

A atual estiagem que atinge os estados do Mato Grosso do Sul, Paraná e Rio Grande do Sul podem prejudicar as lavouras de soja e agravar a situação dos estoques mundiais. Segundo o último relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda, sigla em inglês), os estoques mundiais da soja devem ficar em 54,1 milhões de toneladas, 1 milhão de toneladas acima de 2007. No entanto, os números estão 13,5% abaixo de 2006, quando os estoques eram de 62,6 milhões de toneladas.

"Os estoques baixos farão com que os produtores americanos quebrem o ciclo de rotação com o milho em 2009 e plantem mais soja. Mesmo assim, a expectativa é que os preços permaneçam estáveis por conta desse cenário", analisa Ito. No caso do milho, ele explica que a menor demanda por biocombustíveis deve desestimular a produção. Já no caso do trigo, os problemas com o frio no Hemisfério Norte podem favorecer uma possível alta.

O dólar valorizado ajudou a manter a receita com a maior parte das commodities em níveis aceitáveis. No caso do açúcar, Mário Silveira, analista da FCStone, revela que o maior problema do setor foi a falta de crédito. "A crise prejudicou os recursos para capital de giro das usinas. Além disso, reduz o investimento em safra e o investimento em vendas futuras. Mas os preços já estão na média dos últimos anos", explica. Ao contrário do que ocorreu no final de 2007, a indicação atual é que o mercado seja mais remunerador por conta da redução na produção da Índia, União Européia e Brasil. "A falta de recursos reduziu os investimentos na safra".

Márcio Bernardo, da Newedge, acredita que as commodities continuarão acompanhando o mercado financeiro no primeiro semestre. Ele acredita que os produtos considerados soft como café e açúcar não sentem tanto o impacto das crises. "É claro que tudo vai depender do cenário econômico mundial. Mas se o consumo continuar como está, a menor produção no Brasil em 2009 deverá favorecer os preços", completa. Luiz Monteiro, operador agrícola da CM Capital Markets do Brasil, acrescenta que tudo vai depender do dólar e do petróleo. "Os bancos e fundos de investimento atuam muito no mercado de café. Qualquer mudança no mercado financeiro provoca fuga das commodities".

No caso do suco de laranja, o consumo não está subindo na mesma proporção da queda dos preços, brecando uma possível alta em 2009, explica Michael Macdougall, analista da Newedge. Ele conta que após o furacão que atingiu a safra de laranja em 2004 e 2005 na Flórida, segundo maior produtor mundial, os preços subiram e derrubaram a demanda. "Não acredito que o consumo recue mais com a crise. Mas ela jogará contra a recuperação".