Onde foi parar a bola de cristal?

06/01/2009

Onde foi parar a bola de cristal?

 

No começo da safra 08/09 o cenário era completamente o oposto da previsão do inicio da safra 09/10. Os mercados de açúcar e álcool no Brasil estavam sendo pressionados pelos grandiosos impactos de um excesso de oferta de açúcar gerados pela Índia, que naquele momento buscava remunerar apenas seu custo marginal de produção.

Os elevados níveis de preços do petróleo e seus derivados também aumentaram os custos de produção. Eram normalmente aceitas projeções agressivas para o preço do petróleo na casa dos U$$ 200 por barril. Insumos agrícolas, fretes marítimos e a taxa de câmbio também impactavam negativamente a competitividade dos produtos brasileiros.

Em contrapartida, existia uma facilidade junto ao mercado financeiro de se posicionar frente a esse cenário conturbado. Afinal, Brasil já possuía o grau de investimento. Utilizando destes recursos, o setor sucroalcooleiro rapidamente respondeu a este aumento na demanda e se alavancou em quase sua totalidade.

Um mercado pressionado pelo baixo preço e custo elevado não foi suficiente para frear o desenvolvimento do potencial fornecedor mundial de etanol, substituto da gasolina.

Novas fronteiras agrícolas estavam sendo desbravadas a qualquer custo e sem o menor planejamento estratégico e econômico. O que importava era a constante demarcação de território e realocação do dinheiro barato.

Mas aconteceu o que não ninguém esperava, ou melhor, o que ninguém queria que acontecesse. Uma crise sistêmica aparece na hora em que o mercado de açúcar e álcool do Brasil estava no nível mais alavancado da história. Boa parte do crédito barato desapareceu.Atualmente atingimos uma escala de produção diária de dimensões continentais: a cada dois dias o Brasil é capaz de moer o equivalente a toda a safra do segundo maior produtor de açúcar do Caribe, a República Dominicana. Porém, ainda só utilizamos com cana 1% de toda a área agricultável disponível no Brasil!

Nesse cenário conturbado, usinas menores provávelmente passarão por processos de fusão ou aquisição. Certamente iniciamos o período de consolidação, onde aguns investidores estrangeiros rodeiam constantemente os ativos no Brasil. Este movimento deverá ser responsável pela troca da gestão vigente desses ativos.

Apesar da turbulência, os fundamentos do mercado continuam promissores. A cada dia o etanol se consolida como instrumento político e estratégico na diversificação da matriz energética mundial.

Novas tecnologias também impactam diretamente este pensamento otimista. Estamos assistindo a um crescente aperfeiçoamento das técnicas de produção e transformação. Participantes mais competitivos e eficientes serão capazes de surfar a onda que está por vir.

Como todo ciclo de commodities agrícolas, estamos no final de uma fase de excesso de oferta e no início de uma fase de déficit no balanço oferta / demanda mundial de açúcar. Na safra 08/09 (out-set) o déficit de açúcar deverá ser de 3,5 milhões de toneladas.

Os preços vão se recuperar, mas provavelmente a sua sazonalidade no período de safra e entressafra deverá se acentuar. Os grupos capitalizados vão arbitrar as oportunidades de estocagem e comercialização com maior eficiência.

Quem estiver se preparando para os próximos anos, tanto no plantio como na transformação, estará sendo melhor remunerado. Ainda existe o sentimento de que estamos apenas em um período de transição e os participantes preparados para as oportunidades de preço estarão participando do futuro promissor deste mercado. Nem todos, entretanto, devem sobreviver a este processo.

kicker: O período é de consolidação do mercado; investidores estrangeiros rodeiam constantemente os ativos no Brasil.